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Poucos dias antes do Natal, na Inglaterra, quatro irmãos retornam à casa dos pais após o agravamento da saúde da mãe. Dirigido por Kate Winslet, “Adeus, June” acompanha uma família que precisa interromper compromissos, brigas e silêncios antigos para cuidar de June (Helen Mirren). A internação estabelece um prazo doloroso, enquanto a própria paciente insiste em escolher de que maneira deseja passar seus dias.

A estreia de Winslet na direção parte de uma situação conhecida por muitas famílias. Uma emergência médica reúne pessoas ligadas pelo afeto, embora elas já não saibam conversar sem despertar alguma irritação. O roteiro de Joe Anders, filho da cineasta, observa as diferentes reações diante de uma possível perda. Alguns assumem tarefas, outros procuram distrações, e há quem prefira discutir assuntos menores porque falar sobre a doença parece assustador demais.

Uma internação muda os planos

Connor (Johnny Flynn) ainda mora com June e Bernie (Timothy Spall). Ele acompanha a rotina dos pais e percebe de perto as mudanças na saúde da mãe. Quando June passa mal e precisa ser levada ao hospital, Connor telefona para as três irmãs e pede que voltem para casa. A notícia interrompe os preparativos natalinos e obriga todos a encarar a gravidade da situação.

Bernie está presente, porém demonstra pouca habilidade para lidar com a doença da esposa. Depois de tantos anos dependendo dela, ele parece incapaz de imaginar a rotina sem sua companhia. Sua insegurança surge por meio da impaciência, do silêncio e de certa resistência em assumir providências. Connor acaba responsável por boa parte das tarefas enquanto também tenta lidar com o próprio medo.

Timothy Spall faz de Bernie um homem irritante e vulnerável. O personagem pode despertar raiva pela falta de iniciativa, mas sua paralisia revela alguém que nunca aprendeu a viver sem a esposa. Johnny Flynn oferece a Connor uma mistura convincente de carinho e exaustão. O filho tenta apoiar a mãe e, de quebra, precisa cuidar de um pai que parece ter perdido o manual básico da vida adulta.

As filhas retornam para casa

Julia (Kate Winslet) chega disposta a resolver tudo o que estiver ao seu alcance. Ela acompanha as informações médicas, observa as necessidades de June e procura manter alguma ordem entre os parentes. Sua disposição ajuda a família, embora também desperte resistência. Julia está tão acostumada a assumir responsabilidades que nem sempre percebe quando o cuidado começa a soar autoritário.

Molly (Andrea Riseborough) mantém uma relação difícil com Julia. As duas quase não conversam e carregam uma briga antiga que dividiu a família. A proximidade dentro do hospital não apaga a distância construída durante anos. Cada comentário pode recuperar uma acusação, enquanto qualquer tentativa de colaboração corre o risco de terminar em outra discussão.

Andrea Riseborough interpreta Molly com uma inquietação permanente. A atriz usa respostas curtas, pausas e olhares demorados para revelar o incômodo da personagem. Kate Winslet oferece a Julia a firmeza cansada de quem assumiu tantas obrigações que já não distingue proteção de controle. A tensão entre as duas sustenta parte importante da história, embora o roteiro pudesse apresentar melhor as razões de uma ruptura tão duradoura.

Helen (Toni Collette), a filha mais velha, vive na Alemanha e retorna à Inglaterra após receber a notícia. Sua chegada acrescenta outra personalidade ao quarto e mexe na convivência entre os irmãos. Longe da rotina dos pais, ela precisa recuperar seu lugar numa família que continuou vivendo sem sua presença diária.

Toni Collette preserva a energia peculiar de Helen sem transformar a personagem numa figura excêntrica demais. Ela tenta apoiar June e participar das decisões, mas também carrega questões pessoais que tornam a visita mais delicada. Helen continua sendo filha e irmã, embora precise reaprender hábitos, cumplicidades e desconfortos daquele grupo.

June escolhe o próprio caminho

Mesmo internada, June se recusa a virar uma presença passiva cercada por parentes aflitos. Ela participa das conversas, manifesta seus desejos e enfrenta a própria condição com uma franqueza que deixa os filhos desconcertados. Quando percebe que alguém tenta poupá-la de algum assunto, trata de recuperar a palavra. A doença enfraquece seu corpo, mas não retira sua autoridade sobre a família.

Helen Mirren faz de June uma mulher afetuosa, perspicaz e impaciente. A atriz trabalha com pequenas mudanças de expressão e oferece vivacidade a uma personagem que poderia ficar presa ao papel de mãe doente. June conhece as falhas dos filhos e sabe quais feridas permanecem abertas. Ainda assim, deseja aproveitar o tempo disponível para aproximá-los, mesmo que isso exija comentários afiados e uma boa dose de falta de cerimônia.

A leveza nasce da recusa de June em transformar cada conversa numa solenidade. Ela interrompe o constrangimento, aponta contradições e deixa os familiares sem saber o que responder. Seu sarcasmo oferece pausas dentro de uma história triste, sem diminuir a gravidade da internação. Em vários trechos, June parece ser a pessoa mais preparada do quarto, o que diz bastante sobre os filhos e quase nada de favorável sobre Bernie.

O hospital também mantém os parentes próximos por mais tempo do que gostariam. Corredores, cadeiras e períodos de espera colocam os irmãos diante de assuntos guardados durante anos. Essa convivência não produz harmonia automática. Antes, aumenta o desconforto e obriga cada personagem a decidir se continuará defendendo velhas mágoas ou se participará dos cuidados com a mãe.

Uma família sem ensaio

Kate Winslet mantém a câmera próxima dos atores e dedica bastante espaço às conversas. A escolha favorece o elenco, sobretudo Helen Mirren, Andrea Riseborough e Toni Collette. As mudanças de comportamento surgem em ações pequenas. Uma pessoa permanece no quarto, outra sai antes da hora, enquanto alguém procura tarefas para não precisar conversar.

A direção demonstra sensibilidade, mas o roteiro insiste um pouco além da conta em determinadas emoções. Algumas passagens parecem preparadas para arrancar lágrimas, e suas intenções ficam fáceis de perceber. O elenco oferece humanidade ao material e impede que os personagens virem peças de uma campanha natalina sobre união familiar. A dor vem acompanhada por hesitações, irritações e situações constrangedoras que aproximam a história da vida cotidiana.

“Adeus, June” preserva a personalidade de sua protagonista durante todo o período de internação. June continua sendo mãe, esposa e dona de uma presença capaz de dominar o quarto. Ao redor dela, Julia, Molly, Helen e Connor precisam decidir o que fazer com o tempo disponível. Bernie também é obrigado a reconhecer que a esposa sempre sustentou muito mais do que os compromissos domésticos.

O drama segue um caminho sentimental, mas acerta ao retratar o afeto familiar sem aparência organizada. Há carinho misturado com raiva, cuidado acompanhado de cobrança e boas lembranças dividindo espaço com ressentimentos. Winslet trata essas contradições com delicadeza e confia num elenco experiente para sustentar os silêncios.

Quando os parentes deixam de procurar a frase perfeita, a convivência ganha verdade. June não exige uma família exemplar. Ela deseja apenas que todos permaneçam presentes e parem de desperdiçar o pouco tempo que ainda podem dividir. Diante do leito, os quatro irmãos descobrem que amar alguém também significa sentar ao lado, respeitar suas escolhas e ficar quando já não existe tarefa capaz de ocupar as mãos.


Filme: Adeus, June
Diretor: Kate Winslet
Ano: 2025
Gênero: Drama
Avaliação: 4/5 1 1
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