Vamos começar desconfiando da própria coincidência, porque Nabokov aprovaria. Vladimir Nabokov nasceu em São Petersburgo em 10 de abril pelo calendário juliano então usado na Rússia, o que correspondia a 22 de abril de 1899 no gregoriano. A partir de 1900, com o aumento da diferença entre os dois calendários, sua família passou a comemorar o aniversário em 23 de abril. Ou seja, antes mesmo de aprender a falar, o futuro autor de “Lolita”, “Fogo pálido” e de uma obra inteira obcecada com duplicidades, espelhos, falsos originais e truques do tempo já tinha duas datas de aniversário. Convenhamos que é um bom começo.
Fiquemos com 22 de abril, a conversão correta para o ano em que ele nasceu. Cinquenta dias depois, em 11 de junho, vinha ao mundo Yasunari Kawabata, em Osaka. Mais quarenta dias e, em 21 de julho, nascia Ernest Hemingway, em Oak Park, Illinois. Passados outros 34 dias, Buenos Aires recebia Jorge Luis Borges, em 24 de agosto. A conta fecha em 124 dias, quatro meses e dois dias entre o primeiro e o último.
Um russo que terminaria americano e passaria os anos finais num hotel suíço; um japonês que se tornaria o primeiro escritor de seu país a ganhar o Nobel; um americano que faria da frase curta uma espécie de religião internacional; um argentino que conseguiria enfiar bibliotecas infinitas, tigres, espelhos, duelos de faca, labirintos, falsos escritores e a eternidade inteira em contos que às vezes não chegam a vinte páginas. Dois ganharam o Nobel, Hemingway em 1954 e Kawabata em 1968. Os outros dois, Nabokov e Borges, não — o que também é útil para colocar prêmios literários, inclusive o maior deles, em seu devido lugar.
Muito bem. O que diabos havia em 1899?
A primeira resposta é a mais chata e provavelmente a mais correta. Nada. Gênios não vêm em safras como café, Bordeaux ou atacante argentino. Procurar alguma propriedade especial naquele ano capaz de explicar o nascimento quase simultâneo de quatro escritores tão extraordinários é o tipo de superstição retrospectiva a que a história cultural nos convida o tempo todo. Sabemos o resultado e voltamos para procurar causas. Se em 1899 tivessem nascido quatro escritores medíocres num intervalo de 124 dias, ninguém perderia um segundo tentando compreender a misteriosa conjunção astral que tornou aquilo possível.
Só que a resposta chata não encerra a conversa. Apenas evita que ela comece pelo lugar errado, porque havia, sim, alguma coisa extraordinária em 1899. O século 20 estava chegando.
Não no calendário — para os chatos profissionais, ele só começaria em 1901 —, mas em todo o resto. O mundo ainda tinha imperadores, carruagens, colônias e uma fé quase religiosa no progresso, porém começava a produzir em ritmo industrial as máquinas, ideias e ressentimentos que dentro de poucos anos tratariam de explodir aquela segurança. Em 1899 os Estados Unidos, recém-saídos da guerra contra a Espanha, entraram em guerra contra os filipinos que queriam a independência. O Japão da era Meiji avançava numa industrialização vertiginosa, alimentada ao mesmo tempo pela assimilação de tecnologias ocidentais e pelo crescimento militar. Buenos Aires engordava numa velocidade absurda com a imigração. Tinha 664 mil habitantes no censo de 1895, mais da metade deles estrangeiros, e chegaria perto de um milhão em 1904.
E em Viena um médico chamado Sigmund Freud publicava justamente naquele ano “A interpretação dos sonhos”. O livro saiu em novembro de 1899, mas trazia 1900 na folha de rosto, por decisão editorial. É difícil encontrar símbolo melhor para aquele momento, uma obra concebida no século 19 fazendo de conta que já pertencia ao 20.
Os quatro bebês não tinham nada a ver com isso, claro. Bebês costumam ser notoriamente indiferentes ao espírito do tempo. Mas cresceriam dentro dele.
Nabokov e a língua depois da Rússia
Nabokov nasceu no lugar mais aparentemente protegido dos quatro. Sua família pertencia à elite liberal russa, rica, culta, cosmopolita. Ele cresceu cercado de livros, falava várias línguas, caçava borboletas em propriedades campestres e poderia ter passado a vida aperfeiçoando aquele refinamento quase obsceno se a História — essa grosseirona — não tivesse arrombado a porta. A Revolução Russa expulsou a família do país. O jovem Nabokov perdeu fortuna, casa, paisagem, língua cotidiana. Em 1922, já no exílio, seu pai foi assassinado em Berlim ao tentar proteger de tiros outro político russo. Mais tarde viria a Alemanha nazista, de onde Nabokov, casado com uma mulher judia, também precisaria sair. Em 1940 chegou aos Estados Unidos. Escrevera seus primeiros romances em russo; faria sua consagração mundial escrevendo em inglês. Seu século lhe confiscou até a língua, e ele respondeu tornando a língua uma pátria portátil.
Kawabata e o fim de um Japão
Kawabata veio de quase outro planeta. Nascido em Osaka, perdeu os pais muito cedo e foi criado pelos avós; a morte continuou fazendo sua ronda familiar até deixá-lo praticamente sozinho ainda adolescente. Quando estudou na Universidade Imperial de Tóquio, entre 1920 e 1924, não se refugiou numa ideia fossilizada de tradição japonesa. Pelo contrário. Participou da fundação da revista “Bungei Jidai”, ligada a uma nova corrente da literatura moderna do país. O escritor que décadas depois seria apresentado pela Academia Sueca como alguém capaz de exprimir com sensibilidade a essência da mente japonesa era também um homem formado no choque entre uma cultura antiquíssima e as vanguardas do século 20.
Isso importa porque enfiar Kawabata na caixinha exótica da delicadeza oriental é uma forma muito ocidental de não lê-lo direito. “País das Neves”, “Mil Tsurus”, “O som da montanha” e suas narrativas curtas não são peças de antiquário. O silêncio, a descontinuidade, a atenção obsessiva a um gesto, uma cor, uma textura, um corpo visto de relance, tudo aquilo que às vezes parece ancestral em sua literatura é também radicalmente moderno. Kawabata não preserva um Japão intacto do lado de fora do tempo. Escreve justamente porque esse Japão já não existe assim — se é que existiu algum dia.
Hemingway e a arte de não dizer
Hemingway nasceu numa família instruída e confortável de Oak Park, subúrbio respeitável de Chicago. Não demoraria a fugir da respeitabilidade. Ainda muito jovem foi trabalhar no “Kansas City Star”, cujo manual recomendava frases curtas, inglês vigoroso e corte de palavras supérfluas. Depois veio a Primeira Guerra. Como não podia servir normalmente no Exército por problemas de visão, foi para a Itália como voluntário da Cruz Vermelha e acabou gravemente ferido por uma explosão em 1918. Tinha 18 anos. Mais tarde, em Paris, encontraria Ezra Pound, Gertrude Stein, James Joyce, Fitzgerald e aquela fauna expatriada que transformaria em material de “O sol também se levanta”.
É tentador contar a história do estilo Hemingway como se o sujeito tivesse levado um estilhaço na perna e, pronto, começado a escrever períodos curtos. Seria uma bela bobagem. Seus manuscritos revelam um escritor obsessivo com revisão, corte, alternativas, finais diferentes. A famosa teoria do iceberg também costuma ser empobrecida até virar mandamento de oficina, diga pouco, esconda muito. Não era isso. Hemingway sustentava que só é possível omitir com eficácia aquilo que se conhece. A parte invisível precisa existir; caso contrário, não é iceberg, é só água.
Borges e o mundo pouco confiável
Borges nasceu por último, como se estivesse esperando os outros três ocuparem seus lugares. Buenos Aires era uma cidade submetida a uma mutação tão radical quanto aquela pela qual passava o Japão, só que em sentido diferente. A imigração fazia a população disparar, bairros nasciam, idiomas se misturavam, o porto despejava gente e novidades numa capital que tinha um olho fixo na Europa e o outro, ainda desconfiado, nos pampas. Borges aprendeu inglês muito cedo no ambiente familiar. Em 1914 foi com os pais para a Europa e acabou surpreendido pela Primeira Guerra em Genebra. Aprendeu alemão e francês, leu os expressionistas, foi depois para a Espanha, aproximou-se do ultraísmo e voltou em 1921 para uma Buenos Aires que precisou reaprender. Talvez tenha sido necessário sair para inventá-la.
O Borges que retorna não escolhe entre a vanguarda europeia e os subúrbios portenhos, entre Schopenhauer e o compadrito, entre a metafísica e o duelo de faca. Fica com tudo. Mais tarde faria a mesma coisa com gêneros inteiros. Trataria um conto como ensaio, um ensaio como ficção, uma resenha de livro inexistente como narrativa fantástica, um escritor inventado como personagem histórico. Em “Ficções” e “O Aleph”, a velha divisão entre aquilo que aconteceu e aquilo que alguém escreveu que aconteceu fica tão pouco confiável que o leitor termina por desconfiar até da própria certidão de nascimento.
A essa altura nossa coincidência começa a ficar mais interessante, embora não porque os quatro tenham formado uma geração. Não formaram. Nabokov provavelmente teria detestado a ideia, Borges encontraria algum precursor persa para desmenti-la, Hemingway talvez chamasse todo mundo para beber e Kawabata, imagino, permaneceria em silêncio — hipótese inteiramente minha e, portanto, sem valor documental.
Também não existe grande semelhança estilística entre eles. Pelo contrário. Colocar numa mesma página uma frase de Nabokov e outra de Hemingway é quase realizar um experimento sobre os limites da prosa. Um trabalha cada palavra como quem lapida uma joia que pode conter veneno; o outro busca eliminar da superfície tudo o que pareça dispensável. Nabokov quer que vejamos o escritor fazendo mágica. Hemingway gostaria que prestássemos atenção no coelho e esquecêssemos a cartola. Kawabata abre vazios; Borges os povoa com conceitos.
No entanto, há nos quatro uma desconfiança profunda daquela velha prosa transparente, a segurança herdada do século 19 segundo a qual existiriam um mundo estável de um lado, palavras igualmente estáveis do outro e, entre os dois, um narrador suficientemente ajuizado para fazer a ponte. Isso não quer dizer que tenham rompido com o século 19 — nenhum grande escritor rompe de verdade com os grandes mortos. Nabokov adorava Tolstói, Flaubert e Tchekhov. Hemingway devia muito a Twain e à Bíblia. Borges transformou livros antigos em matéria-prima de um modernismo que às vezes parecia saído de uma biblioteca medieval. Kawabata negociou a vida inteira com uma tradição estética japonesa secular.
O que já não havia ali era inocência. Hemingway esconde, Kawabata suspende, Borges falsifica, Nabokov trapaceia. São caricaturas, naturalmente, úteis apenas para enxergar melhor a distância entre eles e, por um caminho meio torto, certa proximidade. Todos obrigam o leitor a fazer algum trabalho que a narrativa tradicional estava habituada a fazer por ele.
Em Hemingway, é preciso escutar aquilo que o diálogo cala. Em Kawabata, perceber a carga emocional depositada no intervalo, no objeto, na pequena alteração de uma cena. Em Borges, aceitar que dez páginas podem exigir a imaginação de uma biblioteca inteira. Em Nabokov, desconfiar do homem encantador que segura nossa mão enquanto nos leva tranquilamente para o abismo. Seus caminhos são opostos, mas a confiança no leitor — ou a crueldade com ele, dependendo do caso — é enorme.
Talvez seja aí que 1899 tenha alguma coisa a dizer. Aqueles homens nasceram cedo demais para pertencer por nascimento ao século 20 e tarde demais para escapar dele. Quando chegaram à idade adulta, o mundo de seus pais estava sendo desmontado com uma brutalidade difícil de exagerar. Nabokov perdeu a Rússia. Hemingway encontrou a guerra antes dos vinte anos. Borges saiu de Buenos Aires e encontrou uma Europa que começava a se destruir. Kawabata cresceu num Japão que passava em poucas décadas por transformações que em outros lugares haviam levado séculos e viveria depois a expansão imperial, a guerra, Hiroshima, Nagasaki, a derrota e a ocupação americana. Nenhum deles recebeu intacto o mundo em que nasceu, e seria esquisito esperar que a literatura produzida por eles saísse intacta.
Isso não explica o talento, claro. Contexto histórico explica muita coisa até o instante em que precisamos explicar por que, entre milhões de pessoas submetidas ao mesmo contexto, apenas uma escreveu “O jardim dos caminhos que se bifurcam”. A sociologia explica o contexto; não explica o salto.
Também seria fácil demais transformar sofrimento em combustível artístico, como se revoluções, guerras, orfandade, exílio e perda fossem bolsas de estudos concedidas pela História. Não são. Catástrofes produzem muito mais mortos e infelizes do que escritores. O talento não nasce do trauma; na melhor das hipóteses, encontra alguma forma de trabalhar com aquilo que a vida lhe atira na cara.
Há, porém, uma coincidência geracional objetiva escondida dentro da coincidência cronológica. Os quatro tinham 14 ou 15 anos quando começou a Primeira Guerra Mundial. Tinham cerca de quarenta quando começou a Segunda. Chegaram à maturidade literária justamente no período em que a cultura ocidental — e também a japonesa — precisou repensar ideias de indivíduo, verdade, consciência, progresso, nacionalidade, tradição, linguagem. Quando Freud publicou “A interpretação dos sonhos” naquele mesmo 1899, ainda faltavam décadas para que palavras como inconsciente, trauma e desejo se tornassem moeda corrente. Aqueles quatro meninos cresceriam num mundo em que até o “eu”, velho proprietário da própria cabeça, começava a sofrer uma ação de despejo.
Talvez por isso seja impossível imaginar qualquer um deles escrevendo como se a linguagem fosse uma janela limpa, nem mesmo Hemingway, o mais enganadoramente simples.
A história posterior ainda produz uma bela ironia. Hemingway e Kawabata, tão diferentes entre si, receberam o Nobel. Nabokov e Borges, dois escritores cuja influência sobre a literatura contemporânea se tornou quase impossível medir, morreram sem ele. Kawabata foi o primeiro japonês premiado; Hemingway recebeu da Academia Sueca reconhecimento explícito pela influência de sua maneira de narrar sobre a prosa contemporânea. A Academia acertou duas vezes e deixou de acertar outras duas.
Então, voltando à pergunta, o que diabos havia em 1899? Havia quatro famílias que não se conheciam, em quatro pontos do planeta que mal pareciam pertencer ao mesmo mundo. Uma Rússia czarista prestes a desaparecer, um Japão em transformação acelerada, uns Estados Unidos descobrindo a própria força imperial, uma Buenos Aires que crescia à base de navios carregados de estrangeiros. Freud publicava um livro de 1899 com a data de 1900 na capa. O século velho ainda dava as ordens, enquanto o novo já começava a desobedecer. E, por acaso, havia quatro crianças.
O resto não estava em 1899. Estava nelas e, sobretudo, no trabalho monstruoso que fariam depois com aquilo que o século lhes entregou. A coincidência continua sendo coincidência. Explicá-la por inteiro estragaria a história.

