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Uma nação é feita de homens e mitos. No caso dos Estados Unidos, o Velho Oeste, uma terra sem lei ao longo do século 19, era pródiga de homens imbuídos de um desejo de retaliação, que atiravam-se de cabeça numa jornada contra quem mexia com a concórdia de seus domínios. Esses personagens tornaram-se sacerdotes mundanos, mestres na arte de fazer de seu lado mais primitivo uma força temida não só por quem os rodeia, mas por todos. Com “Hostis”, Scott Cooper junta-se a nomes como John Ford (1894-1973), John Sturges (1910-1992), Sergio Leone (1929-1989), Lawrence Kasdan e Jon Cassar e passa à galeria de diretores que souberam explorar o gênero americano por natureza, malgrado faça questão de comprar algumas brigas ruidosas. Scott tira o pesado véu de mistificação que esconde passagens francamente vergonhosas da história da colonização do Oeste americano, pondo o dedo na ferida centenária de um genocídio, que volta e meia sangra.

Fronteiras do heroísmo

No Novo México de 1892, uma pequena legião de guerreiros ameríndios ataca o rancho dos Quaid, uma família de camponeses brancos pobres, mata seus moradores, incluindo-se aí um bebê, ateia fogo à casa e rouba os cavalos. Rosalee é a única sobrevivente da fúria dos comanches, e segue com o capitão Joseph Blocker, um amotinado que não acha certo arriscar a pele de seus homens para escoltar até Montana Yellow Hawk, um líder cheiene. Scott revisa a história original de Donald E. Stewart (1930-1999) escapando de soluções fáceis e maniqueístas e jogando luz nas zonas cinzentas de Blocker e Yellow Hawk, faces de uma só moeda. Percebe-se a rivalidade dos dois antípodas, bem como a humanidade de cada um, com Christian Bale e Wes Studi oscilando entre esses dois polos num misto de força e sutileza. Particularmente inspirada, Rosamund Pike soma mais um grande trabalho ao currículo, fazendo de Rosalee a mocinha possível no cenário de uma guerra sem vencedores.


Filme: Hostis
Diretor: Scott Cooper
Ano: 2017
Gênero: Aventura/Drama/Faroeste
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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