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Quando o coronel Nicholson entra marchando no campo de prisioneiros japonês, enquanto seus homens assoviam a “Colonel Bogey March”, David Lean já deixou à mostra boa parte da matéria moral de “A Ponte do Rio Kwai”. Aqueles soldados estão derrotados, desarmados, exaustos e sob o comando do inimigo, mas Nicholson comporta-se como se ainda pudesse escolher em que guerra deseja lutar. Pode perder a liberdade, passar fome, apanhar e ser encerrado numa caixa de metal sob o sol tropical. O que não admite perder é a ideia que faz de si mesmo. A partir daí, o longa deixa de ser apenas uma história sobre a Segunda Guerra Mundial e começa a tratar de algo muito mais perigoso, a facilidade com que honra, disciplina e orgulho trocam de nome sem que ninguém perceba.

Do outro lado está o coronel Saito, comandante japonês interpretado por Sessue Hayakawa, homem que também não dispõe da liberdade que sua patente sugere. Ele precisa concluir uma ponte ferroviária dentro do prazo e sabe que o fracasso será uma humilhação insuportável. Nicholson recusa-se a permitir que oficiais britânicos executem trabalhos braçais e invoca as convenções militares; Saito responde com violência. Nenhum deles pretende ceder porque a discussão deixou de ser prática muito antes que percebam. Os dois estão defendendo a própria imagem. Lean conduz esse primeiro confronto com uma secura admirável, deixando que Alec Guinness e Hayakawa mostrem dois homens aparentemente incompatíveis e, no fundo, assustadoramente parecidos.

Nicholson e a ponte

Há uma ironia de bastidor quase perfeita para um filme tão interessado nos absurdos produzidos pela autoridade. Adaptado do romance de Pierre Boulle, “A Ponte do Rio Kwai” teve o roteiro escrito por Carl Foreman e Michael Wilson, mas os dois estavam na lista negra de Hollywood e seus nomes foram apagados dos créditos originais. Boulle apareceu oficialmente como roteirista e recebeu o Oscar pela adaptação, embora os verdadeiros autores só fossem reconhecidos posteriormente; a Academia concedeu postumamente o prêmio a Foreman e Wilson em 1984, e o crédito seria formalmente corrigido pela associação dos roteiristas pouco depois. Um filme sobre homens subordinados a estruturas que exigem obediência nasceu, ele próprio, de uma estrutura que fingiu que dois de seus criadores não existiam.

Nicholson vence Saito, ao menos segundo os critérios que estabeleceu para si, e é justamente aí que começa a perder tudo. Libertado do confinamento e novamente à frente de seus homens, decide que a ponte será construída da melhor maneira possível. A ideia parece razoável por alguns minutos. O trabalho devolveria disciplina aos prisioneiros, ocuparia homens debilitados, restauraria alguma dignidade num cotidiano pensado para destruí-la. Logo, contudo, a obra deixa de ser apenas uma tarefa imposta pelos japoneses e torna-se a ponte de Nicholson. Ele corrige os erros dos engenheiros inimigos, escolhe outro lugar para a construção, mobiliza oficiais quando a mão de obra escasseia e passa a falar daquela estrutura com a ternura de quem contempla alguma coisa destinada à posteridade.

Alec Guinness é magnífico precisamente porque não transforma Nicholson num louco convencional. Nada naquele homem sugere descontrole. Sua voz continua baixa, os modos permanecem impecáveis e até as decisões mais absurdas são defendidas mediante raciocínios aparentemente irrefutáveis. Esse autocontrole torna sua transformação muito mais inquietante. Ele sabe que está construindo uma instalação militar para o inimigo, mas pouco a pouco consegue convencer a si mesmo de que está erguendo um monumento à competência britânica. A colaboração ganha o nome de dever. A vaidade passa por disciplina. O absurdo começa a parecer virtude.

Enquanto Nicholson aperfeiçoa a ponte que deveria desejar inútil, Shears tenta apenas continuar vivo. William Holden dá ao americano uma insolência muito menos solene, e Lean precisa desse contraponto. Shears foge do campo, chega quase morto ao território aliado e imagina ter liquidado sua dívida com a guerra, até ser recrutado para voltar à selva junto do major Warden, interpretado por Jack Hawkins, numa operação destinada justamente a destruir o trabalho ao qual Nicholson agora dedica toda a energia. O desenho do filme fecha-se com uma perversidade saborosa. De um lado, prisioneiros britânicos empenhados em entregar aos japoneses uma obra perfeita. Do outro, aliados arriscando a vida para explodi-la.

A guerra de Nicholson

Saito vai desaparecendo do centro à medida que Nicholson assume, por vontade própria, a função que antes lhe fora imposta. Hayakawa aproveita esse deslocamento para compor um homem ferido pela derrota particular que ninguém pode testemunhar. A cena em que o comandante japonês se recolhe e deixa escapar a própria fragilidade impede que Lean faça dele apenas o vilão necessário a um filme de guerra. Saito e Nicholson são vítimas e agentes da mesma lógica. Precisam vencer mesmo quando a vitória já não tem qualquer significado razoável.

É também por isso que os 161 minutos não pesam. Lean trabalha a espera como elemento de suspense. A ponte cresce. A equipe de Warden avança pela mata. O trem aproxima-se. Os explosivos são instalados. A água baixa durante a noite e deixa à mostra aquilo que deveria permanecer escondido. O diretor não precisa inventar um grande antagonista porque o conflito verdadeiro já está dentro dos personagens, e então o clímax torna-se menos uma batalha entre japoneses e aliados que uma luta entre Nicholson e a evidência do que ele próprio fez.

Na manhã da inauguração, quando percebe o fio ligado aos explosivos, seu primeiro impulso é proteger a ponte. É um gesto quase automático, e justamente por isso devastador. Nicholson já não defende seus homens, o Exército britânico ou qualquer abstração patriótica. Defende sua criação. Só quando a engrenagem de morte volta a funcionar ao redor dele é que alguma rachadura aparece naquela certeza cultivada por quase três horas.

“A Ponte do Rio Kwai” venceu sete Oscars, entre eles Melhor Filme, Melhor Direção para Lean e Melhor Ator para Guinness, e a passagem do tempo não converteu essas distinções em mera arqueologia cinematográfica. O filme continua perturbador porque não pergunta apenas até onde um militar deve obedecer. Pergunta o que acontece quando um homem inteligente encontra argumentos suficientemente bons para justificar a própria cegueira. Quando Nicholson finalmente enxerga a ponte diante de si pelo que ela é, não há mais honra a preservar. Resta apenas a guerra — e a loucura que homens perfeitamente razoáveis conseguem produzir.


Filme: A Ponte do Rio Kwai
Diretor: David Lean
Ano: 1957
Gênero: Aventura/Drama/Guerra
Avaliação: 5/5 1 1
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