Tão sublime quanto monstruoso, o amor é terreno fértil para desencontros, brigas, separações e juras que se escrevem no mar, com o vento. Buscando plenitude, o homem esbarra na constatação de que o amor é, muitas vezes, uma quimera. Idealizam-se romances, parceiros que só podem oferecer alegrias casuais são vistos como príncipes encantados e constrói-se no vapor o castelo que abrigará esse sonho de uma noite de verão. O mais humano dos sentimentos não é harmonia, mas, feito a vida mesma, um conto interminável de rumor e fúria sem sentido. Oliver Hermanus acrescenta música à equação enunciada por Shakespeare e “A História do Som” parece uma ode à brevidade do existir, minimizada por experiências a um só tempo repentinas e avassaladoras que não perecem. Claro que o amor se impõe aí.
Cantar para não esquecer
Lionel Worthing chega a Boston para estudar canto. Estamos em 1917, e sete anos antes, Lionel era um menino solto no Kentucky, ouvindo as velhas canções que o pai levava entre um e outro expediente na lavoura. Curioso, inquieto, ele explora a noite na nova cidade, ouve uma melodia ao piano e para. Alguém toca “Adaga de Prata”, uma tradicional canção folclórica sobre os perigos do amor que seu velho sabia de cor, gravada por Joan Baez 43 anos mais tarde, e ele vai lá puxar conversa. O pianista é David, aluno de composição do Conservatório de Boston, um pobre órfão rico de Newport, Rhode Island, os dois parecem se apaixonar de imediato e passam a noite juntos. Eles planejam correr o Maine catalogando registros do folk que desembocaram em praticamente tudo de relevante que se concebeu no cenário musical americano durante o século 20, e teriam levado a empreitada adiante, caso David não fosse obrigado a lutar na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Ben Shattuck adapta o conto que dá nome a sua coletânea de narrativas curtas prestando especial atenção aos lances mais soturnos, num contraste de que Paul Mescal e Josh O’Connor fazem muito bom proveito. Hermanus guarda para a iminência do desfecho uma grata surpresa, e na pele do Lionel idoso, Chris Cooper ressalta a indesejada natureza maldita de certos romances, que sete notas tentam amenizar.

