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Ritchie Valens tinha dezessete anos quando morreu e, por essa razão brutal, qualquer filme sobre ele começa pelo fim mesmo quando tenta fingir o contrário. “La Bamba” sabe que o espectador está esperando o avião cair, sabe que aquela carreira que parece começar diante de nossos olhos durará apenas alguns meses e faz dessa certeza uma espécie de sombra sobre as cenas mais felizes. Luis Valdez poderia ter transformado a vida de Richard Valenzuela numa sucessão de números musicais ligados por uma tragédia célebre. Prefere outra coisa. O garoto que encontra uma guitarra e percebe que talvez exista um mundo além da pobreza é importante, mas o filme cresce mesmo quando deixa a estrela em formação de lado e olha para a família que será obrigada a continuar vivendo depois dele.

Valdez tinha boas razões para enxergar a história dessa maneira. Fundador do El Teatro Campesino e uma das figuras decisivas para a afirmação de uma dramaturgia chicana nos Estados Unidos, o diretor conhecia por experiência própria o universo dos trabalhadores rurais de origem mexicana na Califórnia. Quando começou a preparar “La Bamba”, ouviu parentes de Valens e construiu o roteiro a partir dessas lembranças, das poucas informações preservadas sobre a curtíssima carreira do músico e, talvez sobretudo, de uma experiência cultural que ambos partilhavam. Décadas depois, em 2017, o filme seria incluído no National Film Registry americano, reconhecimento que diz menos sobre solenidades oficiais que sobre a importância de uma produção de estúdio ter colocado uma família mexicano-americana no centro de sua própria narrativa, sem tratá-la como decoração exótica.

Ritchie, Bob e a família

Lou Diamond Phillips entra nesse universo sem a afetação de quem interpreta um morto famoso. Seu Ritchie ainda é um moleque que trabalha, toca violão, pensa em garotas e acredita que o talento pode ser suficiente para libertá-lo da vida apertada que conhece. A ingenuidade é essencial. Quando Bob Keane, o produtor vivido por Joe Pantoliano, percebe o que existe naquele garoto e resolve apostar nele, “La Bamba” acelera junto. Vêm o estúdio, as rádios, os shows e Donna, a adolescente branca cuja família não vê com particular entusiasmo o namoro da filha com um mexicano. O sucesso parece uma porta aberta para tudo aquilo que antes estava proibido.

Mas há Bob Morales. Esai Morales faz do meio-irmão de Ritchie um segundo protagonista sem precisar disputar ostensivamente o filme. Bob é mais velho, mais forte, mais ameaçador e muito mais frágil. Enquanto o irmão sobe, ele estaciona. Bebe, briga, machuca Rosie e experimenta a celebridade de Ritchie como se cada aplauso dirigido ao caçula confirmasse algum defeito em sua própria existência. O roteiro poderia condená-lo com facilidade, e talvez até tenha motivos de sobra para isso, mas Valdez mostra interesse maior pela humilhação silenciosa daquele homem. A rivalidade entre os dois dá à cinebiografia o conflito de que as canções, por melhores que sejam, jamais dariam conta sozinhas.

Rosana DeSoto, como Connie, a mãe, completa esse núcleo doméstico que impede o filme de ser apenas uma celebração do sucesso precoce. Ela conhece os dois filhos, entende o que há de luminoso num e de perigosamente quebrado no outro e parece perceber antes deles que a fama não reorganiza uma família por decreto. Elizabeth Peña acrescenta a Rosie uma tristeza que às vezes fica perdida em meio à exuberância musical, mas que ajuda a definir o lado menos festivo daquela ascensão.

É curioso que um dos momentos mais famosos da trajetória de Valens tenha surgido justamente da mistura cultural que o filme deseja defender. “La Bamba”, canção tradicional mexicana transformada por ele em rock, não é usada apenas como um grande número. Funciona como declaração de identidade. Ritchie pode aparecer de terno, cantar para adolescentes americanos e entrar na engrenagem comercial de uma indústria que já aprendera a fabricar ídolos, mas há alguma coisa nele que não se dissolve. Valdez entende isso e não precisa transformar o personagem em militante para demonstrá-lo.

A morte à espera

A morte, no entanto, continua à espera. O medo de voar acompanha Ritchie desde o início, alimentado por pesadelos e pela lembrança de um acidente aéreo perto de sua escola. Quando ele embarca na turnê que também reúne Buddy Holly e J. P. Richardson, o Big Bopper, o espectador já não acompanha uma cinebiografia. Acompanha uma contagem regressiva. Em 3 de fevereiro de 1959, o avião caiu em Iowa e matou os três músicos e o piloto Roger Peterson. Valens não chegara aos dezoito anos.

Valdez evita explorar demais o cadáver de seu herói. O que resta interessa mais. E então “La Bamba” volta para Bob, porque era ele quem precisava sobreviver ao irmão que amava e invejava. Esai Morales torna devastador o instante em que todas as pequenas guerras entre os dois perdem imediatamente qualquer importância. É aí que “La Bamba” deixa de ser a história de um rapaz que virou astro do rock depressa demais. Passa a ser a história de quem ficou.


Filme: La Bamba
Diretor: Luis Valdez
Ano: 1987
Gênero: Biografia/Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
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