Jupiter Jones (Mila Kunis) vive em Chicago, nos dias atuais, trabalhando como faxineira para ajudar a família, até descobrir que seu código genético lhe dá direito a uma herança disputada por uma poderosa dinastia espacial. Dirigido por Lana e Lilly Wachowski, “O Destino de Júpiter” acompanha a jovem enquanto ela deixa uma rotina cansativa na Terra e entra numa guerra familiar que envolve planetas, riquezas e a vida de bilhões de pessoas.
Jupiter nasceu durante uma viagem marítima feita por sua mãe, Aleksa Jones (Maria Doyle Kennedy), após a morte violenta de seu pai, Maximilian Jones (James D’Arcy). Anos depois, a família vive nos Estados Unidos e trabalha na limpeza de casas. Ela acorda cedo, enfrenta banheiros alheios e guarda dinheiro para comprar um telescópio parecido com aquele que pertenceu ao pai.
A rotina muda quando seres desconhecidos tentam matá-la durante um procedimento médico. Jupiter é salva por Caine Wise (Channing Tatum), um ex-soldado modificado geneticamente que foi enviado à Terra para localizá-la. Ele explica que a jovem possui a mesma assinatura genética de uma antiga matriarca da família Abrasax. Essa coincidência lhe concede direitos sobre uma fortuna de proporções planetárias.
A notícia parece um delírio, mas Jupiter não ganha tempo para digeri-la. Caçadores passam a persegui-la, Caine precisa mantê-la viva e diferentes membros dos Abrasax procuram levá-la para fora da Terra. Em poucas horas, a faxineira descobre que sua existência ameaça interesses mantidos há milhares de anos.
A herança dos Abrasax
A família Abrasax pertence a uma elite que trata planetas inteiros como propriedades particulares. Seus três herdeiros disputam os bens deixados pela mãe e enxergam Jupiter como uma ameaça aos respectivos planos. Cada um tenta atraí-la por um caminho diferente, seja pela força, pela sedução ou por uma delicadeza que dura enquanto houver vantagem financeira.
Balem Abrasax (Eddie Redmayne) é o mais perigoso dos irmãos. Dono de uma voz baixa que subitamente vira grito, ele administra seus domínios com frieza e considera a Terra parte de seus negócios. Redmayne entrega uma interpretação carregada, por vezes perto da caricatura. Ainda assim, sua presença combina com um universo no qual ninguém parece disposto a entrar discretamente numa sala.
Kalique Abrasax (Tuppence Middleton) recebe Jupiter com gentileza e revela parte da origem daquela riqueza. Titus Abrasax (Douglas Booth), o irmão mais jovem, prefere encantá-la com luxo, proteção e promessas românticas. Jupiter passa de um palácio a outro sem saber em quem confiar. Todos conhecem as leis, os costumes e os riscos daquele universo melhor do que ela, o que deixa a recém-chegada sempre um passo atrás.
Caine tenta protegê-la enquanto enfrenta problemas ligados ao próprio passado militar. Ele conta com a ajuda de Stinger Apini (Sean Bean), antigo companheiro que vive afastado com a filha. Stinger conhece a estrutura política dos Abrasax e sabe quanto vale a identidade de Jupiter. Sua participação ajuda a explicar parte das regras, embora o roteiro apresente tantos nomes, títulos e interesses que acompanhar tudo exige alguma disposição.
Uma princesa diante do balcão
Uma das passagens mais divertidas leva Jupiter a uma repartição interplanetária. Para ter sua identidade reconhecida, ela precisa passar por balcões, formulários, filas, carimbos e funcionários pouco interessados em facilitar o serviço. Mesmo num universo de naves velozes e tecnologia avançada, a burocracia continua firme, forte e aparentemente imortal.
A sequência resume uma das qualidades de “O Destino de Júpiter”. Lana e Lilly Wachowski criam uma ficção científica grandiosa, mas reservam espaço para situações bastante familiares. Jupiter pode ser herdeira de uma dinastia, porém ainda precisa apresentar documentos e esperar sua vez. A coroa espacial, pelo visto, não oferece atendimento preferencial.
O problema está na quantidade de informações lançadas durante as perseguições. O longa apresenta povos, leis, linhagens, soldados modificados e disputas comerciais enquanto Jupiter escapa de novos ataques. As cenas de ação avançam depressa, mas o enredo pede atenção a detalhes que mal permanecem em cena. Em alguns trechos, o espectador ainda tenta lembrar quem ordenou uma captura quando outra nave já atravessa o quadro.
Romance entre perseguições
A aproximação entre Jupiter e Caine oferece a parte romântica da aventura. Ela confia nele porque o soldado arrisca a vida sem demonstrar interesse pela herança. Caine, por sua vez, carrega culpa por erros antigos e vê naquela missão uma possibilidade de recuperar a dignidade perdida. Channing Tatum interpreta o guerreiro com seriedade, ainda que seu figurino, suas botas antigravitacionais e suas características genéticas produzam momentos involuntariamente engraçados.
Mila Kunis dá humanidade à protagonista ao reagir com irritação, medo e desconfiança. Jupiter não se transforma subitamente numa combatente treinada. Ela continua sendo uma mulher comum, retirada de casa e cercada por desconhecidos que dominam informações essenciais. Essa escolha deixa a personagem próxima do público, embora o roteiro a mantenha durante muito tempo dependente dos resgates de Caine.
A relação entre os dois cresce em meio às fugas, mas recebe menos espaço do que poderia. Quando o casal começa uma conversa mais íntima, alguma ameaça costuma interrompê-los. A química existe, especialmente quando Jupiter abandona a formalidade e trata Caine com a sinceridade de quem já perdeu a paciência com a nobreza espacial.
Uma aventura cheia de ideias
“O Destino de Júpiter” reúne ação, romance, intrigas familiares e uma crítica ao modo como os poderosos transformam vidas em mercadoria. Os Abrasax possuem palácios, exércitos e tecnologia, mas sua riqueza depende de um negócio brutal. Jupiter precisa descobrir o que recebeu antes de decidir o que fará com esse patrimônio.
Lana e Lilly Wachowski criam mundos extravagantes, figurinos majestosos e naves que ocupam a tela com gosto pelo excesso. Essa abundância também pesa contra o filme. Há material suficiente para várias histórias, enquanto a protagonista corre de uma revelação para outra sem tempo para observar o tamanho da armadilha.
Mesmo confuso em alguns trechos, o longa preserva uma energia simpática. Mila Kunis sustenta a aventura com naturalidade, Channing Tatum assume o herói romântico sem ironia e Eddie Redmayne transforma cada ordem de Balem numa pequena apresentação teatral. “O Destino de Júpiter” pode tropeçar na própria ambição, mas dificilmente será acusado de falta de imaginação. Quando Jupiter reconhece o perigo ligado à sua herança, ela precisa escolher quem merece sua confiança antes que os Abrasax decidam seu futuro por ela.

