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Anos depois do fim dos conflitos na Irlanda do Norte, no norte da Inglaterra, Jem Stoker (Sean Bean) deixa a família para procurar Ray Stoker (Daniel Day-Lewis), seu irmão desaparecido há décadas. Ele viaja até uma floresta remota porque Brian Stoker (Samuel Bottomley), filho biológico de Ray, atravessa uma crise marcada por violência, ressentimento e dúvidas sobre o pai que nunca conheceu.

Dirigido por Ronan Day-Lewis, “Anêmona” acompanha uma família que vive sob as consequências de escolhas feitas durante o período conhecido como The Troubles. A luta política terminou, mas seus efeitos permanecem dentro de casa, nos relatos incompletos, nas ausências prolongadas e no medo de que o comportamento de um pai seja repetido pelo filho.

Uma missão entre irmãos

Jem arruma uma bolsa, despede-se de Nessa Stoker (Samantha Morton) e de Brian, sobe na motocicleta e segue até a cabana onde Ray vive sozinho. Não há celebração quando os irmãos voltam a se ver. O anfitrião recebe a visita com desconfiança, enquanto Jem tenta encontrar uma maneira de levá-lo de volta para casa.

Ray abandonou Nessa e Brian muitos anos antes. Jem assumiu a criação do garoto e formou uma família com os dois, embora nunca tenha conseguido preencher inteiramente o espaço deixado pelo irmão. Sua viagem nasce dessa responsabilidade. Brian precisa conhecer a própria história, e Ray já permaneceu distante por tempo demais.

O problema é que a cabana virou uma fortaleza emocional. Ray corta madeira, cuida de suas coisas e ocupa os dias longe de qualquer pessoa capaz de lhe cobrar explicações. Quando fala, despeja lembranças dolorosas em monólogos carregados de raiva. Jem escuta quase tudo em silêncio, talvez por paciência, talvez porque interromper Daniel Day-Lewis nesse estado pareça uma péssima ideia.

Sean Bean trabalha com gestos discretos, olhares cansados e pequenas hesitações. Seu personagem viaja, insiste e suporta o temperamento do irmão, mas o roteiro reserva a maior parte das falas para Ray. Essa diferença deixa Jem numa função ingrata. Ele movimenta a história, porém passa boa parte do encontro ouvindo o outro homem dominar a conversa.

Um filho cercado pelo passado

Enquanto os irmãos permanecem na floresta, Brian enfrenta seus próprios problemas. O jovem sofre provocações relacionadas a Ray e aos atos atribuídos a ele durante os anos de violência na Irlanda do Norte. As agressões atingem um ponto perigoso quando Brian reage e percebe em si uma brutalidade parecida com aquela associada ao pai.

Samuel Bottomley oferece ao rapaz uma mistura convincente de raiva e insegurança. Brian não possui informações suficientes para defender Ray, tampouco razões afetivas para fazê-lo. O pai biológico existe para ele como uma reputação sombria, alimentada por comentários alheios e pelo silêncio mantido dentro de casa. Quanto menos conhece, mais espaço sobra para o ressentimento.

Nessa tenta proteger o filho e, ao mesmo tempo, explicar por que Ray desapareceu. Samantha Morton transforma essa tarefa numa das partes mais humanas de “Anêmona”. Sua personagem precisa administrar a angústia do rapaz enquanto espera pelo retorno de Jem, embora tenha sido uma das pessoas mais prejudicadas pela ausência de Ray.

O roteiro, porém, dedica pouco tempo a Nessa. Ela guarda informações essenciais, conhece os homens envolvidos e enfrenta as consequências cotidianas do abandono, mas permanece afastada das conversas centrais. Os irmãos ganham a floresta inteira para discutir suas dores. Nessa recebe a casa, a preocupação e um adolescente furioso. A divisão é injusta com a personagem e também com Morton.

Daniel Day-Lewis volta com fúria

“Anêmona” marca o retorno de Daniel Day-Lewis ao cinema após oito anos. Sua última atuação havia sido em “Trama Fantasma”, lançado em 2017. O reencontro com as telas acontece sob a direção do filho, Ronan Day-Lewis, com quem também escreveu o roteiro.

Ray carrega marcas físicas e emocionais da passagem pelas forças britânicas durante os conflitos na Irlanda do Norte. Daniel Day-Lewis interpreta esse homem com uma presença intimidante. Um olhar basta para tornar a cabana desconfortável. Quando o personagem começa a falar, cada recordação surge carregada de culpa, ressentimento e raiva contra as pessoas que o feriram.

A atuação possui força, mas o texto depende demais dela. Ray fala por vários minutos, Jem escuta e a história avança pouco. Depois, a dinâmica retorna com outra lembrança e uma nova descarga emocional. O talento de Daniel Day-Lewis sustenta muitas dessas passagens, embora nem mesmo ele consiga esconder todas as repetições.

Ronan Day-Lewis parece tão fascinado pela presença do pai quanto pelos conflitos dos personagens. Isso cria um desequilíbrio. Ray recebe tempo para detalhar suas feridas, enquanto Jem, Nessa e Brian ficam com espaços menores para desenvolver as próprias experiências. A família possui quatro perspectivas relevantes, mas uma voz ocupa quase toda a sala.

A floresta protege e aprisiona

A fotografia de Ben Fordesman transforma a região florestal num lugar bonito e ameaçador. A vegetação densa cerca a cabana, as nuvens parecem anunciar uma tempestade e os rios escuros reforçam a sensação de isolamento. Ray escolheu aquele território porque ali controla quem entra, quanto tempo permanece e quais assuntos podem ser discutidos.

Ronan Day-Lewis inclui imagens surreais e criaturas quase sobrenaturais no meio dessa paisagem. Algumas passagens traduzem a confusão emocional de Ray, enquanto outras parecem pertencer a outro filme. O diretor possui evidente interesse por pintura e composição, mas certas escolhas chamam mais atenção para si do que para a crise familiar.

A música de Bobby Krlic também pesa sobre os encontros. Guitarras agressivas e sons inquietantes reforçam a instabilidade de Ray, mesmo quando a atuação de Daniel Day-Lewis já comunica essa ameaça. Há ocasiões em que “Anêmona” confia pouco na força de seus próprios silêncios.

Uma família à espera de Ray

O maior mérito de “Anêmona” está na maneira sensível com que relaciona a violência política à intimidade familiar. Ray voltou da Irlanda do Norte incapaz de permanecer perto das pessoas que dependiam dele. Jem ocupou o lugar deixado pelo irmão. Nessa criou o filho em meio a versões incompletas. Brian cresceu carregando um sobrenome associado a atos que desconhece.

Essas relações oferecem material suficiente para um drama doloroso e próximo da realidade. O problema surge quando o filme prefere repetir a angústia de Ray em vez de permitir que os demais personagens participem com a mesma força. O resultado é uma obra intensa, bem interpretada e, por vezes, cansativa.

Daniel Day-Lewis retorna com a autoridade de um ator que sabe dominar cada pausa. Sean Bean responde com contenção, Samuel Bottomley representa uma geração ameaçada por erros anteriores e Samantha Morton oferece firmeza a uma mulher obrigada a manter a casa funcionando. Ronan Day-Lewis estreia com ambição e um olhar apurado, embora ainda precise confiar mais nas relações e menos nas imagens grandiosas.

Sem dizer o destino dessa aproximação, “Anêmona” mantém a pergunta essencial até os últimos movimentos. Jem conseguirá tirar Ray da floresta e colocá-lo diante da família que abandonou? A resposta importa menos pelo reencontro físico do que pela possibilidade de Brian finalmente conhecer o homem escondido atrás das histórias. Para chegar até o filho, Ray primeiro precisa aceitar sair da cabana.


Filme: Anêmona
Diretor: Ronan Day-Lewis
Ano: 2014
Gênero: Drama
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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