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A melhor cena de “Super 8” não tem extraterrestres, soldados ou vagões voando pelos ares. Um punhado de adolescentes grava um filme de zumbis numa estação ferroviária e Alice Dainard, a garota que fora convocada apenas porque Charles precisava de uma atriz, começa a interpretar. Ela diz suas falas, chora no momento certo e deixa os meninos em silêncio. Até Charles, pequeno tirano atrás da câmera, demora um instante para mandar cortar. Joe Lamb olha para ela como quem acaba de descobrir duas coisas simultaneamente: que cinema pode ser magia e que ele está apaixonado.

J.J. Abrams sabia que “Super 8” seria comparado a Steven Spielberg antes mesmo de terminar o roteiro, então tomou a decisão mais sensata: convidou Spielberg para produzir e transformou a dívida em assunto. O filme se passa em 1979, numa pequena cidade industrial de Ohio, e carrega deliberadamente a memória das aventuras juvenis que a Amblin transformaria numa língua universal alguns anos mais tarde. Crianças de bicicleta, pais emocionalmente atrapalhados, militares escondendo coisas, uma criatura incompreendida, ruas suburbanas vazias à noite. Está tudo lá. Só que Abrams acrescenta outra camada: aqueles garotos não querem apenas viver uma aventura. Querem filmá-la.

Joe perdeu a mãe num acidente de trabalho alguns meses antes. Joel Courtney interpreta o garoto sem fazer do luto uma exibição permanente de sofrimento; a ausência aparece nos lugares mais inesperados, sobretudo no pequeno medalhão que ele guarda e na relação emperrada com o pai, Jackson, delegado-adjunto vivido por Kyle Chandler. O homem também perdeu a esposa, mas cada um ficou isolado numa margem distinta da mesma dor.

Louis Dainard, pai de Alice, ocupa a terceira ponta dessa tragédia. Jackson culpa-o pela morte da mulher porque ele faltara ao trabalho e ela assumira seu turno. Ron Eldard faz de Louis um homem esmagado pela culpa, alcoólatra, agressivo às vezes, incapaz de estabelecer com a filha qualquer relação que não passe pelo próprio fracasso. Naturalmente, Alice e Joe aproximam-se.

O trem vem depois

A outra começa quando as crianças posicionam a câmera junto à estação para conseguir “valor de produção” para o filme de Charles. Um trem vem ao longe, eles continuam rodando e uma caminhonete invade os trilhos. O descarrilamento que se segue é Abrams em sua face mais espalhafatosa: vagões saltam, metal despenca do céu, explosões estouram em todas as direções e os garotos sobrevivem a uma sequência que provavelmente mataria um batalhão. É excessivo, quase cômico. Também é impossível desviar os olhos.

Dentro da caminhonete está o professor Woodward, que manda as crianças esquecerem o que viram. Logo chegam militares comandados pelo coronel Nelec e recolhem estranhos cubos espalhados pelos destroços. Alguma coisa saiu daquele trem.

Abrams administra o mistério com habilidade porque passa bastante tempo sem mostrar a criatura. Cães desaparecem. Motores somem dos carros. Pessoas são levadas. A energia elétrica oscila. O xerife tenta entender o que está acontecendo, enquanto os adolescentes fazem aquilo que adolescentes sensatos fariam diante de uma conspiração militar e um possível monstro: continuam terminando seu filme.

Charles, interpretado por Riley Griffiths, seria facilmente a caricatura do garoto gordinho e mandão não fosse o roteiro dar-lhe uma pequena ferida narcísica. Ele percebe muito antes de Joe que Alice prefere o amigo, mas precisa dos dois para concluir sua obra-prima zumbi. O ciúme aparece misturado à camaradagem, e “Super 8” é especialmente bom quando se permite permanecer nessas insignificâncias gigantescas da adolescência. Um alienígena pode estar devorando gente do lado de fora, mas descobrir que a garota de quem você gosta está interessada em seu melhor amigo continua sendo um problema considerável.

Elle Fanning já exibia aqui aquela capacidade pouco comum de parecer vulnerável sem fazer da vulnerabilidade o personagem inteiro. Alice carrega o pai nas costas emocionalmente, sente culpa por uma morte pela qual não tem qualquer responsabilidade e, quando está com Joe, experimenta talvez pela primeira vez uma relação que não lhe cobra reparação. Por isso sua abdução pela criatura funciona melhor que a sucessão de operações militares que ocupa parte do terceiro ato. Joe não vai atrás dela para salvar a cidade. Vai buscar Alice.

Quando o monstro ganha um rosto

Quanto mais Abrams explica o alienígena, contudo, menos fascinante o filme fica. Descobrimos os experimentos militares, a ligação psíquica com Woodward, a intenção de reconstruir uma nave e partir. Tudo é coerente e até emocionalmente bem amarrado, mas o desconhecido era mais poderoso. A criatura passa de presença aterradora a prisioneiro maltratado que apenas deseja voltar para casa, e então Spielberg entra pela porta da frente. Difícil não pensar em “E.T.”.

A diferença é que Joe também quer voltar para uma casa que já não existe.

Essa aproximação entre o luto do garoto e a violência do alienígena é bonita sem precisar ser perfeita. Os dois foram privados de alguma coisa que os ligava ao mundo e reagiram de formas evidentemente distintas — Joe fazendo maquetes e ajudando amigos num filme de zumbis; o outro pendurando seres humanos no teto de uma caverna —, mas Abrams aposta na ideia de que até a criatura mais monstruosa pode reconhecer a dor de alguém.

O acerto decisivo está em não terminar “Super 8” com a vitória militar. Os homens do coronel Nelec estão quase sempre um passo atrás, presos à necessidade de controlar aquilo que não compreenderam. Os pais também precisam abandonar um pouco essa ilusão. Jackson e Louis, inimigos unidos pela mesma mulher morta, percebem que seus filhos avançaram para um lugar ao qual eles próprios ainda não chegaram.

No céu, os cubos começam a juntar-se. A nave recompõe-se. Objetos metálicos da cidade são atraídos pela força que se forma sobre eles. O medalhão da mãe de Joe deixa seu pescoço, permanece alguns segundos preso em sua mão e, enfim, sobe.

Ele poderia segurá-lo. Não segura.


Filme: Super 8
Diretor: J.J. Abrams
Ano: 2011
Gênero: Ficção Científica/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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