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Nathan Algren já está derrotado antes de pôr os pés no Japão. As medalhas que carrega pertencem a um homem que ele não suporta mais; o uniforme recorda massacres que gostaria de esquecer; o álcool tornou-se uma maneira rudimentar de atravessar as noites. “O Último Samurai” poderia ter sido apenas a velha história hollywoodiana do estrangeiro branco que desembarca numa cultura exótica e, em pouco tempo, entende-a melhor que aqueles que nasceram nela. Edward Zwick chega perigosamente perto disso em alguns momentos. Felizmente, há Katsumoto.

Tom Cruise aparece primeiro como atração publicitária de um fabricante de armas, reproduzindo diante de uma plateia as façanhas que o arruinaram por dentro. O capitão Algren lutara nas campanhas militares contra povos indígenas americanos e obedeceu ordens que agora voltam sob a forma de pesadelos. Quando recebe a proposta de viajar ao Japão para treinar o novo Exército Imperial, aceita pelo dinheiro e porque homens destruídos nem sempre escolhem com muita cerimônia a próxima parada.

O Japão da década de 1870 atravessa a Restauração Meiji, processo muito mais complexo do que o embate quase didático apresentado pelo filme entre tradição e modernização. Zwick sabe disso, mas prefere o mito. De um lado, ferrovias, armas de fogo, interesses comerciais e um governo decidido a aproximar-se do Ocidente; do outro, Katsumoto e seus samurais, defensores de um código antigo que o roteiro trata com uma reverência quase religiosa. A história real certamente suportaria mais zonas cinzentas. O cinema épico raramente resiste à tentação de escolher suas cores.

Algren é encarregado de transformar camponeses recém-recrutados em soldados. Eles mal sabem empunhar um rifle quando Omura, empresário e conselheiro imperial interpretado por Masato Harada, decide mandá-los ao combate. É um massacre anunciado. A batalha na floresta, encoberta por névoa, apresenta os samurais primeiro como aparições, cavaleiros surgindo entre árvores antes de cair sobre homens apavorados. Algren luta até não conseguir mais, mata Hirotaro, um dos guerreiros inimigos, e espera a execução. Katsumoto manda poupá-lo. É aqui que o filme começa de verdade.

O inverno entre inimigos

Levado para a aldeia durante o inverno, Algren fica hospedado justamente na casa de Taka, viúva do homem que matou. A escolha é cruel demais para ser apenas um dispositivo romântico, e Koyuki trabalha a personagem numa contenção que muitas vezes diz mais que os discursos do protagonista. Taka alimenta o assassino do marido, cuida de seus ferimentos, tolera sua presença diante dos filhos. O que nasce entre eles não é exatamente absolvição. Há um constrangimento que Zwick às vezes apressa em nome do arco sentimental, mas que permanece como uma das forças do filme.

Enquanto isso, Algren observa. Crianças brincam. Homens treinam. Mulheres trabalham. O povoado obedece a uma disciplina que ele, militar de carreira, nunca havia relacionado à paz. Aos poucos, aprende japonês, abandona a bebida, treina com Ujio, personagem em que Hiroyuki Sanada consegue caber inteiro mesmo dispondo de menos espaço do que merecia, e cria um vínculo com Nobutada, filho de Katsumoto. A transformação é previsível. O modo como Zwick a deixa acontecer, nem tanto.

Ken Watanabe impede “O Último Samurai” de ser um filme sobre Tom Cruise descobrindo o Japão. Katsumoto tem humor, vaidade, fé, melancolia e uma consciência muito clara de que sua luta provavelmente está perdida. Ele não quer deter o tempo — ainda que o roteiro eventualmente o represente dessa forma —, mas impedir que modernizar signifique apagar. A diferença é importante.

As melhores conversas entre Katsumoto e Algren não dizem respeito à guerra. Falam de poesia, beleza, morte e da dificuldade de encontrar a flor perfeita, imagem que poderia resultar numa pieguice monumental não fosse Watanabe tratar o personagem com tamanha serenidade. Algren vê naquele homem uma possibilidade de disciplina para a culpa; Katsumoto encontra no americano a prova de que o inimigo também pode mudar.

Quando os dois retornam a Tóquio, a cidade já parece outra. Uniformes ocidentais espalham-se pelas ruas, armas substituem espadas e a etiqueta tradicional passa a ser tratada como atraso. O filme exagera o contraste, claro, mas Zwick sabe usar o exagero. A humilhação de Nobutada, obrigado a ter o cabelo cortado por homens que zombam de sua aparência, é uma violência pequena quando comparada às batalhas e por isso mesmo atinge de outro modo.

A guerra final

A prisão de Katsumoto encaminha tudo para a guerra final. Algren já fez sua escolha. Não será novamente o soldado que mata porque alguém de patente superior mandou.

Há uma ironia incômoda e produtiva na sequência em que Taka entrega a Algren a armadura do marido morto. Um americano veste as roupas de um japonês que ele próprio matou para lutar ao lado dos japoneses contra um exército modernizado com conhecimento americano. Zwick talvez não tenha desejado complicar tanto a imagem, mas ela complica-se sozinha. É melhor assim.

A última batalha é grandiosa na acepção antiga do termo. Cavalos, flechas, espadas, canhões e homens que sabem que provavelmente não verão a noite. Os samurais conseguem algumas vantagens pela técnica, mas a tecnologia termina cobrando sua parte. Diante das metralhadoras Gatling, coragem deixa de ser atributo militar e vira matéria para epitáfio.

Katsumoto cai. Os soldados imperiais, muitos treinados pelo próprio Algren, suspendem o fogo e se ajoelham diante dele. A cena manipula sem vergonha o espectador, como quase todo grande épico sabe fazer, e funciona porque Watanabe conquistara esse gesto muito antes.

O ponto mais frágil vem depois, quando o filme ainda precisa permitir que Algren explique ao jovem imperador o significado daquilo tudo. É a concessão mais evidente ao salvador estrangeiro: o americano torna-se porta-voz da memória japonesa diante do próprio Japão. Zwick tenta amenizar o problema transferindo o espírito da fala para Katsumoto, mas não consegue apagá-lo.

Assim mesmo, “O Último Samurai” sobrevive à simplificação histórica porque seu verdadeiro assunto não é a extinção dos samurais. É um homem que encontra uma maneira de continuar vivendo depois de descobrir que obedecer também pode ser uma forma de covardia. Algren chega ao Japão querendo esquecer os mortos. Katsumoto ensina-lhe outra coisa: talvez a única saída seja aprender a lembrá-los direito.


Filme: O Último Samurai
Diretor: Edward Zwick
Ano: 2003
Gênero: Drama
Avaliação: 4/5 1 1
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