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“O Wikiota” é o segundo romance de Ademir Luiz. Sátira de uma geração, a obra já mereceu comentários elogiosos de autores de renome, como Cíntia Moscovich e Edson Aran. Reli a obra, e, ao fazê-lo, achei-a mais interessante e divertida que da primeira vez, o que constitui um ganho para mim, enquanto leitor, e necessariamente para seu autor.

O livro, que conta a história de um influencer digital chamado Mike Jardim, é estruturado em duas partes — “Se está na Internet é verdade” e “Fake News é tudo mentira” —, cada uma delas subdividida em dez capítulos. A primeira cobre um período de quase cinco anos, entre os 16 e os 22 anos do protagonista. Não queremos fazer spoilers, mas é inevitável informar algumas coisas elementares. Primeiro, que a fama deste típico representante da geração Z começa quando, ao completar os 16, publica um vídeo despretensioso dizendo que quer a carteira de motorista. Com isso ele consegue, legitimamente, repercutir a demanda de milhões de jovens do país, tornando-se, da noite para o dia, um fenômeno de massas.

A partir daí, acompanhamos em detalhes a trajetória de Mike Jardim, baseada, até o capítulo 10, numa sequência estrita, entre suas lives do dia a dia: uma performática apresentação para o serviço militar, dois livros lançados — escritos por ghostwriters —, palestra numa universidade pública, uma entrevista para o narrador do livro e participação num reality show, seguida esta de dois filmes, sendo que, durante as gravações do último, ele sofre um grave acidente de carro. Terá morrido?

O Wikiota
O Wikiota, de Ademir Luiz (Reformatório, 170 páginas)

Essa resposta é dada na segunda parte do livro, “Fake News é tudo mentira”. Desconhecendo a verdade, seus fãs disputam versões, até que Mike ressuscita dos mortos e relata uma originalíssima experiência de quase morte (EQM): seu purgatório — talvez o nosso purgatório comum — é um aterrador feed quântico. Ainda no hospital, o influencer inicia uma cruzada contra a “já calejada tradicional família brasileira” (a ideia é expor as contradições moralistas de todo mundo). Saindo de lá, concede uma segunda entrevista para o narrador do livro, depois conquista um mandato de deputado federal e um título de dr. honoris causa, conferido pela universidade onde palestrou. Os lances finais dessa história escoam numa terceira entrevista, na escandalosa renúncia ao mandato parlamentar e num sumiço repentino de quarenta dias. Meio à maneira de Forrest Gump, Mike Jardim parece se cansar do próprio espetáculo e frustra seus seguidores apalermados. Quando reaparece, socializa suas senhas e cria uma rede colaborativa de milhões de pessoas.

Descritivamente, essa é a sequência dos acontecimentos em “O Wikiota”. Mas é chata e empobrecedora, como é empobrecedor reduzir Dante Alighieri a uma viagem pelo inferno, purgatório e paraíso, “à procura de uma menina gata”. Contrariando o espírito de síntese apregoado por Mike Jardim, a graça está nas entrelinhas, e quem ler “A Divina Comédia” (e “O Wikiota”) possivelmente concordará que a arte é bem mais que isso.

O idiota e seu escritor fantasma

Narrada em terceira pessoa, a história de Mike Jardim é contada pelo segundo personagem que importa no livro, a nosso ver, tão ou mais interessante que o próprio Mike Jardim. Trata-se do Escritor Fantasma (por razões óbvias, o mesmo assim se identifica). Ele é o verdadeiro conteudista de “O Wikiota”, a pessoa que torna esse livro de vacuidades um produto mais denso. Desconfio que um jornalista real, Hunter S. Thompson, foi intencionalmente mencionado por Ademir Luiz — trata-se de uma pista exegética. Porque Hunter é pioneiro de uma coisa chamada jornalismo gonzo: aquele jornalismo no qual ele podia participar da própria narrativa. Hunter, portanto, seria o insight para modelar o Escritor Fantasma, uma vez que este se propõe explicitamente, em dado momento, a “duelar” com Mike Jardim, assumindo desta forma um papel ativo na própria história que conta.

Wikiota

Embora seja autor de três entrevistas e do segundo livro lançado por Mike, o Escritor Fantasma tem o pior conceito possível de seu biografado, a quem chama, a certa altura, de “cotonete gigante com cheirinho de moita”, autor de “platitudes e obviedades”, “vulgarizador da cultura ocidental, para idiotas”, “proselitista oco”, “espantalho”, e por aí vai. Para ele, o imprevisível Mike Jardim é o símbolo de todos aqueles que refletem o efeito Dunning-Kruger: indivíduos que têm pouco conhecimento e, por isso mesmo, têm total convicção. Todos nós conhecemos um punhado deles.

Apesar de tão culto e talentoso, o Escritor Fantasma se define como “puta pobre” que “aceitava tudo que ajudasse a pagar o chope e o leitinho das crianças”. Também se acha especial; mas, ao contrário de Mike, não é famoso, daí seu possível ressentimento. Possui tanto ódio e desprezo pelo influencer que deseja matá-lo sufocado, conforme revela em certo trecho. Sua ânsia persecutória é assumida, embora admita incapacidade para ir às vias de fato (seu silêncio a esse respeito torná-lo-ia mais interessante, creio eu). Não sabemos sua idade, mas podemos estimar que é de uma geração anterior à de Mike Jardim, visto que se considera “velho demais” para a cultura jovem. Qual antagonista, representa o intelectual analógico e é, claramente, um defensor da tradição.

Ele e Mike Jardim, porém, convergem na mania de fazer citações, a rodo. “Lembro-me”, diz o narrador, “que Chesterton observou que grandes artistas costumam escolher grandes idiotas e não grandes intelectuais para representarem a humanidade. Não acho que eu seja um grande artista, mas talvez Mike Jardim não seja tão idiota quanto faz parecer.” Aqui, o Escritor Fantasma demarca claramente as diferenças entre ele e o influencer: está convencido de que é o artista da parada, enquanto Mike é o idiota, embora nem tanto assim. Na terceira entrevista que fazem, a maioria de suas respostas são bem convincentes, e chegamos a sentir que repercutem a própria visão do livro sobre a juventude contemporânea. É quase um exercício de empatia, desmontando algumas teses negativistas sobre a geração digital. E há um trocadilho bem interessante:

MJ: A beleza vai salvar o mundo.
CP: “O Idiota”.
MJ: “O Idiota”.

O Escritor Fantasma, em nome do Caderno de Política (CP) de um jornal impresso, aproveita a deixa de Mike Jardim para referir-se ao príncipe Míchkin, do livro de Dostoiévski. Mas talvez, de maneira irônica, Mike Jardim esteja se referindo a si mesmo, e não ao russo.

Esfinge “talvez” indecifrável, não sei até que ponto Mike Jardim é capaz (ou deseja) virar o mundo de ponta-cabeça. No vídeo que o tornou famoso — a campanha pela CNH aos 16 anos —, o influencer agiu de forma inteiramente casual e egoísta. Tanto que não criou ansiedades, sendo surpreendido pelo engajamento, na manhã seguinte. Assim como a maioria dos jovens de sua geração, a política institucional interessa-lhe quase nada ou muito pouco, e não é um subversivo, de fato. Parece mais um conformista pragmático, porque assumidamente não faria nada que prejudicasse seus negócios. Logo, dizer a uma plateia de universidade que a juventude é “um coletivo” que “tem que construir junto o próprio futuro” não passa de oportunismo, uma vez que ele não pagaria o preço. É um ególatra, um individualista. Mas, obviamente, não é um Montaigne.

De maneira cômica, Cíntia Moscovich definiu Mike Jardim como “sequelado da internet”, além de “gênio”. A meu ver, o gênio — e “subversivo”, acredita Edson Aran — permanece ausente até o capítulo final de “O Wikiota”, quando ele faz uma coisa realmente inusitada. Depois de quarenta dias de sumiço, Mike deixa “de ser uma pessoa para se fundir em uma coletividade”. Segundo o Copilot, não há registro de influencer real e conhecido que tenha feito algo tão radical quanto abrir as próprias redes, entregando suas senhas aos usuários e convertendo-se numa grande ágora. Simplificando, numa democracia universal e irrestrita.

Mas não funcionou, e há ecos de Umberto Eco aqui. Logo houve o sequestro das senhas e a experiência virtual utópica de Mike Jardim foi para o espaço. O ser humano é complicado; os imbecis, principalmente, são muito complicados.

Se isto é uma profecia desencantada sobre os riscos da democracia direta — seriam já as redes sociais um simulacro dela? —, estamos todos ferrados, porque todo o resto já foi testado ao longo da História e também não deu certo. Ou não muito. Antagonista de Mike, o Escritor Fantasma poderia com razão ter estufado o peito e citado o primeiro-ministro Churchill: “A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras.” Tão conservador quanto nosso narrador (alter ego de Ademir Luiz?), Churchill acredita na democracia indireta, apregoada pelo conterrâneo John Stuart Mill.

Em matéria de gênero literário, “O Wikiota” seria uma “biografia que não se envergonha de ser um romance”. Biografia, no caso, de Mike Jardim. Eu acrescentaria que “O Wikiota” é um romance-tese (conceito de origem realista e naturalista), cuja premissa é a seguinte: “A mediocridade se retroalimenta”. O autor demonstra hábil e sistematicamente essa hipótese (e primeira e última frase desse livro, então circular), a partir de Mike Jardim e seu ecossistema.

Com ares de tratado sociológico, a sátira de Ademir Luiz demonstra por “a” mais “b” como a mediocridade repercute e se replica, na forma de games, fóruns de discussão, memes, enquetes, lives, campanhas, hashtags, teorias da conspiração e, claro, até teses universitárias. O próprio trabalho jornalístico do narrador é sugado por esse círculo vicioso, característico da Era Digital. São distrações absurdas e jogos de pura vacuidade, em torno de indivíduos rasos, envolvendo milhões de pessoas (jovens, quase sempre), para as quais “a única fonte de luz vem da tela”. Essa percepção resume bem o espírito nada transcendente (ao que parece) de uma geração hiperconectada, mas vazia. Para essa mesma geração (ou gerações), a cultura tradicional e livresca do Escritor Fantasma nada mais significa, apesar de seu conteúdo genuíno.

A referência no livro a Santo Isidoro de Sevilha é muito pertinente, uma vez que o mesmo teria salvo inúmeros textos clássicos da destruição pelos bárbaros, no início caótico da Alta Idade Média, associado não por acaso a uma dark age. Não temos esperança de que em nossa era tardia vá surgir um novo Santo Isidoro de Sevilha, embora a cultura livresca (toda a arte “tradicional”, na verdade) esteja em vias de extinção, dessa vez pelos algoritmos. Fora dos números binários e dos qubits, toda expressão artística está ficando irremediavelmente anacrônica. Em matéria de divertimento, talvez os vlogueiros sejam os novos Mark Twains, como propõe Mike Jardim, mas profundidade e superfície permanecem a um abismo de distância, uma da outra.

Profeta da ignorância, Mike Jardim acredita que ideias profundas podem caber num tweet. Podem, mas somente na forma de um lampejo. Não parece existir uma filiação clara entre “O Wikiota” e “O Idiota”, de Dostoiévski — ao contrário de Mike Jardim, o príncipe Míchkin é sábio e necessário —, mas a associação é um lembrete: com as milhares de páginas de seu universo ficcional, Dostoiévski provou que o ser humano é consideravelmente mais complexo que as fórmulas matemáticas, das quais Mike se vale para justificar sua tese mesquinha.

O estilo é o próprio homem

Para quem ainda lê, Ademir Luiz tornou-se um escritor facilmente reconhecível. Em parte, devido à sua afinidade com o universo geek, mas não apenas. Certos críticos apregoam que fazer citações é um defeito observável em muitos escritores novatos. Epígrafes são um bom exemplo desta tentação vulgar; alguns chegam mesmo a fazer pencas delas, logo na primeira página. De fato, a citação — que remete ao chamado “discurso de autoridade” — pode ter efeitos bastante indesejáveis. Um deles é sugerir insegurança de quem a utiliza, já que funcionaria como muleta inconsciente. Sem contar, é claro, o perigo de o escritor se deixar ofuscar por coisa melhor ou muito melhor.

Ademir Luiz
Ademir Luiz

Este seria um problema para “O Wikiota”, livro repleto de citações. Não é romance de um iniciante, mas as primeiras obras de ficção de Ademir Luiz — os contos de “O Beatle Palestino e Outras Pequenas Histórias da Grande História” e o romance “Apologia ao Fim” (antes intitulado “Hirudo Medicinallis”) — também estão saturadas deste recurso, provando que o autor volta a repetir um esquema.

Acontece que Ademir Luiz não é um escritor inseguro, e tampouco arrogante. Ele não soa pedantesco, apesar do aparente abuso de citações. Em sua produção esse uso parece configurar outra coisa: um estilo. Trata-se não de fraqueza, mas da coisa mais difícil de um artista encontrar: aquela espécie de digital que torna inconfundível um determinado artista e sua obra. Isso me força a me valer de uma conhecida citação, também, de Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon: “o estilo é o próprio homem”. Com efeito, conhecemos quem é Ademir Luiz, o escritor, sobretudo pela recorrência ao discurso de autoridade.

É talvez um ressaibo da academia, onde, ao contrário da ficção, a autoridade intelectual se assenta nos autores que o pesquisador, obrigatoriamente, deve mencionar, para ter credibilidade. Pois o estilo ademiriano de ficcionar é, sem nenhum prejuízo, imbuído dessa prática profissional (ele é historiador de formação e acadêmico). Enfim, o uso ostensivo do discurso de autoridade por Ademir Luiz prova algo importante aos críticos: não importa se um ficcionista goteja o nome de autores consagrados (no caso de “O Wikiota”, são mais de duas dezenas de citações diferentes). Mais uma vez, importa se ele escreve bem. Porque literatura é sobre escrever bem, sempre. O resto é mimimi.

Por fim, Ademir acertou ao colocar um influencer no centro de seu último romance. Isso faz dele um autor plenamente contextualizado e, por que não dizer, consciente: não de algum pretenso “dever” social, tão na moda (a arte contemporânea está profundamente ideologizada), mas daquilo que pode manter-lhe a importância e o frescor literário, no futuro. Quero dizer, alguém que o futuro lerá (assim esperamos) e do qual terá o que aprender sobre os dias atuais.

Ao contrário da tendência ainda dominante na literatura goiana — uma tendência gasta, presa a um passado rural ou no máximo semiurbano —, Ademir Luiz optou por criar personagens e ambientes de cidade grande. Eles são convincentes, inclusive na linguagem descolada, com a qual os jovens se identificam. Depois de estrear com “Apologia ao Fim”, ele reafirma com um segundo romance seu talento para ficcionar a cultura pop e juvenil, fundindo sem fissuras o universo highbrow (altamente elitista) à cultura de massas. Ao lado de Solemar Oliveira, Ademir possui o projeto literário mais ambicioso, entre os escritores goianos publicados, de sua geração.

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