Tom Cruise corre porque Ethan Hunt não sabe fazer outra coisa diante do fim. Corre contra bombas, governos, traidores, relógios digitais, helicópteros, trens, submarinos e, agora, contra uma inteligência artificial que parece ter chegado à conclusão bastante razoável de que a humanidade não precisa de muita ajuda para destruir-se. “Missão: Impossível — O Acerto Final” transforma essa velha obstinação física do personagem numa ideia quase melancólica. Aos 62 anos durante boa parte da produção, Cruise continua dependurando o corpo onde pessoas sensatas jamais colocariam nem uma câmera, mas Christopher McQuarrie percebe que o verdadeiro espetáculo já não está apenas no risco. Está no tempo.
O oitavo filme prolonga diretamente o embate iniciado em “Acerto de Contas”, quando Ethan e sua equipe descobriram que a Entidade, uma inteligência artificial capaz de penetrar sistemas de defesa e manipular informações, havia se tornado mais perigosa que qualquer terrorista que a IMF enfrentara antes. Gabriel, interpretado por Esai Morales, continua funcionando como intermediário humano desse poder sem rosto, porém o duelo entre os dois homens perde importância perto do conflito maior: pela primeira vez, Hunt enfrenta um inimigo que não pode agarrar pelo pescoço.
McQuarrie entende o paradoxo e constrói o filme inteiro em torno dele. Contra uma entidade digital, Ethan só tem corpos. Grace corre. Benji sangra. Luther envelhece. Paris carrega as marcas do longa anterior. E Tom Cruise, como sempre, põe a própria carne em circulação, transformando uma produção de centenas de milhões de dólares numa curiosa defesa do trabalho manual.
Nem tudo flui com a mesma energia. “O Acerto Final” tem 169 minutos e, sobretudo na primeira hora, sente necessidade de carregar consigo quase três décadas de história. Imagens dos filmes anteriores aparecem, personagens mortos voltam pela memória, velhos nomes recuperam importância, decisões tomadas quando Cruise ainda tinha trinta e poucos anos retornam com a solenidade de documentos secretos encontrados num cofre. É compreensível que o oitavo capítulo queira prestar contas com a própria mitologia; menos compreensível é McQuarrie agir em alguns momentos como se a série tivesse sido concebida em 1996 para chegar exatamente aqui. Não foi. E ninguém precisa fingir que foi.
O homem no fundo do oceano
Quando o filme deixa de explicar a franquia e volta a fazer “Missão: Impossível”, porém, quase não há concorrência.
A ida de Ethan até o Sevastopol, o submarino russo naufragado que guarda uma peça fundamental para neutralizar a Entidade, é talvez o trecho que melhor sintetiza o que Cruise e McQuarrie fizeram juntos desde “Nação Secreta”. Pouco importa a sucessão de nomes técnicos, módulos, códigos e dispositivos que o roteiro despeja sobre o espectador. Há um homem entrando numa estrutura metálica destruída no fundo do oceano, sujeito à pressão, à falta de oxigênio e a toneladas de aço que começam a mover-se. A câmera fica com ele. O espetáculo nasce da dificuldade concreta.
Cruise sempre entendeu que o público pode não saber exatamente por que Ethan precisa chegar ao outro lado de um abismo, mas compreenderá instantaneamente que cair significa morrer. Essa clareza física sustenta a franquia melhor que qualquer conspiração.
O mesmo vale para a perseguição aérea que empurra o longa ao clímax, com Ethan agarrado a um biplano enquanto Gabriel tenta se livrar dele. Há computadores capazes de iniciar uma guerra nuclear em escala planetária, mas a solução volta a depender de um sujeito segurando-se com as mãos numa máquina voadora. É tão absurdo quanto coerente. A tecnologia avança; Ethan Hunt continua sendo analógico.
Entre uma façanha e outra, McQuarrie tenta finalmente conferir à personagem uma dimensão elegíaca. Luther Stickell, vivido por Ving Rhames desde o primeiro filme, deixa de ser apenas o hacker que resolve o problema impossível poucos segundos antes da explosão. A amizade entre ele e Ethan ganha um peso que a série, sempre apressada para chegar à próxima missão, raramente permitia. Quando Luther faz sua escolha mais dura, a reação de Cruise é pequena. Funciona por isso.
Simon Pegg também está mais contido como Benji, e Hayley Atwell consolida Grace como uma boa substituta para a figura do parceiro que Ethan precisa salvar ao mesmo tempo que aprende a confiar. A franquia repetiu esse desenho inúmeras vezes, de Claire Phelps a Ilsa Faust, mas Atwell impede que Grace seja apenas mais uma peça no tabuleiro. Ela preserva algo de ladra, de aventureira involuntária, de pessoa que ainda não foi completamente convertida à religião de Ethan Hunt segundo a qual uma missão só termina quando todos voltam para casa.
A ausência de Ilsa, contudo, continua a doer mais do que o roteiro admite. Rebecca Ferguson havia conferido aos filmes uma parceria em pé de igualdade que nem McQuarrie consegue substituir integralmente. “O Acerto Final” olha para trás com tamanha insistência que essa falta se torna ainda mais perceptível.
Uma máquina contra um homem analógico
Há também um excesso de destino. Ethan já foi um agente extraordinário, depois virou o único sujeito capaz de salvar seus amigos, depois seu país, depois o mundo, e agora parece responsável pela continuação da própria espécie. A escalada é natural numa franquia, mas existe um ponto em que aumentar o tamanho da bomba diminui a emoção. A ameaça de aniquilação nuclear produz menos nervosismo que Ethan sem ar dentro do submarino. O planeta inteiro pode acabar; o que realmente importa é aquele homem conseguir respirar.
Talvez aí esteja a grande inteligência de Cruise como estrela. Ele sabe que cinema de ação depende menos da magnitude do desastre que da credibilidade do perigo. McQuarrie oferece-lhe máquinas, aviões, oceano e precipícios; Cruise responde com o corpo.
A Entidade deseja calcular todas as possibilidades, dominar todos os cenários, antecipar cada movimento humano. Ethan Hunt vence porque faz justamente aquilo que uma máquina não consegue considerar razoável. Ele se atira. Quase sempre sem paraquedas. Há trinta anos, era apenas uma característica do personagem. Agora parece uma profissão de fé.

