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Steven Spielberg compreende que o fim do mundo não começa quando aparecem os extraterrestres. Começa no instante em que as pessoas percebem que ninguém virá salvá-las. “Guerra dos Mundos” não é propriamente uma história sobre a invasão da Terra, embora gigantescas máquinas caminhem pelas cidades pulverizando seres humanos; é um filme sobre a rapidez com que tudo aquilo que chamamos civilização desaparece quando uma multidão descobre que sobrou apenas uma vaga num carro.

Ray Ferrier não tem a menor vocação para herói. Tom Cruise interpreta-o como um sujeito ainda meio adolescente apesar dos filhos, operário de porto em Nova Jersey, separado de Mary Ann e emocionalmente distante de Robbie e Rachel. Quando a ex-mulher deixa as crianças com ele por um fim de semana, Spielberg não perde tempo idealizando a paternidade. Ray sequer sabe o que a filha come, não consegue conversar com o adolescente e parece acreditar que manter um teto já cumpre boa parte das obrigações. Então o céu começa a estalar.

A primeira aparição do tripé continua sendo uma das grandes cenas de destruição do cinema deste século. Não porque Spielberg multiplique explosões — embora elas estejam ali —, mas porque demora alguns minutos para explicar ao público a nova regra do mundo. Raios atingem repetidamente o mesmo ponto. As máquinas param. Pessoas saem de casa. Forma-se uma roda de curiosos diante de uma fissura no asfalto, como provavelmente ocorreria em qualquer rua. Alguma coisa emerge do chão. E começa a matar. Ray corre.

Quando chega em casa, traz o rosto e a roupa cobertos pelo pó daqueles que acabaram de ser desintegrados. Rachel pergunta o que há sobre ele. O pai não responde. Spielberg poderia mostrar milhares de cadáveres; prefere deixar uma menina olhando para as cinzas de desconhecidos coladas ao corpo de Tom Cruise. Vinte anos depois, a imagem continua terrível.

A adaptação do romance de H.G. Wells passa pela América traumatizada pelo 11 de Setembro sem transformar o filme numa alegoria de uma só chave. Há gente correndo sem saber para onde, fotografias de desaparecidos, roupas abandonadas, famílias procurando parentes, autoridades que não conseguem dizer o que está acontecendo. Spielberg filma um país acostumado a imaginar-se seguro e repentinamente obrigado a descobrir que também pode ser o lugar de onde se foge.

Uma família no meio do fim

Ray pega os filhos e parte para Boston, onde Mary Ann está com os pais. O roteiro de Josh Friedman e David Koepp reduz uma guerra planetária a esse itinerário quase ridículo: um pai precisa devolver duas crianças à mãe. É justamente essa pequena missão que impede o espetáculo de engolir o filme.

Robbie quer fazer o contrário. Justin Chatwin incorpora a irritação do adolescente que enxerga no pai tudo aquilo que não gostaria de ser e passa a fantasiar um heroísmo inútil diante da invasão. Quando militares surgem na estrada, ele quer juntar-se a eles. Ray tenta segurá-lo enquanto Rachel precisa ser protegida do caos à volta, e Spielberg oferece a seu protagonista uma escolha moral sem solução boa: abandonar um filho que exige partir ou soltar a filha pequena que depende dele. Ele deixa Robbie.

Dakota Fanning, então com onze anos, é talvez a presença mais importante do longa depois de Cruise. Rachel grita muito, como reclamaram alguns espectadores à época, mas crianças de dez anos provavelmente gritariam se máquinas de dezenas de metros começassem a beber o sangue das pessoas. Fanning não interpreta uma miniatura de adulto; sua personagem tem ataques de pânico, faz perguntas inadequadas, tenta entender por que ninguém lhe explica nada. Quando canta para si mesma ou pede ao pai garantias que ele não pode oferecer, “Guerra dos Mundos” torna-se ainda mais cruel.

A sequência da minivan confirma que os extraterrestres são apenas metade do problema. Ray consegue manter funcionando um dos raros veículos da região e rapidamente é cercado por uma multidão. Aquele carro não significa conforto, mas sobrevivência, e pessoas comuns transformam-se em predadores numa questão de segundos. Spielberg filma mãos batendo nos vidros, gente agarrando portas, armas aparecendo. Não há vilão. Todos querem viver.

Mais tarde, um trem atravessa a noite completamente em chamas. Ninguém sabe quem está dentro. Ninguém o para. É uma imagem que poderia ter sido cortada sem alterar um centímetro do enredo e talvez por isso permaneça tanto tempo na memória. O mundo acabou, mas certas máquinas continuam andando.

O porão e a escolha impossível

No segundo ato, Tim Robbins entra como Harlan Ogilvy e Spielberg diminui a escala. Depois de cidades arrasadas, estradas tomadas e uma balsa atacada pelos tripés, Ray e Rachel escondem-se num porão. Harlan quer resistir. Quer cavar túneis, lutar, organizar uma insurreição. Ray já entendeu uma verdade menos nobre: sobreviver às vezes exige permanecer quieto.

É nesse porão que o filme chega a seu ponto mais sombrio. Uma sonda vasculha o espaço, extraterrestres entram na casa, a vegetação avermelhada avança pelo terreno e Harlan vai perdendo o juízo. Quando ele ameaça denunciar a presença dos três com seus gritos, Ray percebe o que terá de fazer. Fecha uma porta para que Rachel não veja e mata o homem.

O pai displicente do começo agora é capaz de tirar uma vida para proteger a filha. Não há vitória nisso.

Spielberg escorrega perto do final ao devolver Robbie praticamente intacto. Depois de fazê-lo desaparecer numa batalha envolta em fogo, permitir que atravesse sozinho o apocalipse e esteja esperando pela família em Boston é uma indulgência que destoa da dureza de tudo quanto veio antes. A própria conclusão herdada de Wells, com os invasores vencidos pelos microrganismos terrestres, funciona melhor porque não recompensa ninguém. A humanidade não derrota os extraterrestres. Os seres mais poderosos do planeta morrem porque respiraram.

Ray chega ao destino levando Rachel pela mão. Ele não salvou o mundo, não compreendeu a invasão, não matou a criatura central nem descobriu qualquer fraqueza decisiva. Apenas conseguiu entregar a filha de volta à mãe. Para aquele homem, dadas as circunstâncias, talvez seja a primeira coisa verdadeiramente paterna que fez na vida.


Filme: Guerra dos Mundos
Diretor: Steven Spielberg
Ano: 2005
Gênero: Ficção Científica/Suspense
Avaliação: 4.5/5 1 1
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