Há artistas cuja obra envelhece com o tempo e outros para os quais o tempo parece fornecer novos argumentos. Siron Franco pertence ao segundo grupo. Violência, autoritarismo, desigualdade, intolerância, desastre ambiental e exclusão aparecem em trabalhos realizados há décadas e permanecem reconhecíveis no Brasil contemporâneo. É essa continuidade, mais temática do que cronológica, que sustenta “Expressões”, exposição que chega ao fim nesta segunda-feira, 31 de agosto, na Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia.
Depois de mais de três meses em cartaz e mais de 30 mil visitantes, a maior mostra já dedicada à trajetória do artista goiano encerra uma temporada que reuniu mais de 100 obras produzidas ao longo de cinco décadas. A entrada é gratuita.

Em vez de apresentar Siron como uma sequência organizada de fases, “Expressões” coloca períodos distintos da carreira em confronto. Trabalhos realizados nas décadas de 1960, 1970 e 1980 aparecem próximos de produções recentes, entre elas “Imigrantes”, de 2025. A distância temporal entre as obras acaba revelando uma proximidade incômoda entre os assuntos que mobilizavam o artista no passado e aqueles que continuam ocupando o presente.
Essa opção permite também observar algo essencial na produção de Siron: a mudança dos procedimentos não eliminou certas obsessões. O corpo ameaçado, a violência exercida pelo poder, a vulnerabilidade humana e a memória coletiva atravessam trabalhos de diferentes períodos sem transformá-los em ilustrações de causas políticas. Em Siron, a denúncia raramente existe sem matéria, cor, deformação e ambiguidade.
Há inclusive obras muito anteriores ao reconhecimento nacional do artista. “Arca de Noé” e “Pietà”, de 1961, foram realizadas quando Siron tinha apenas 14 anos. Colocadas ao lado de trabalhos recentes, ajudam a revelar não apenas a extensão de sua carreira, mas a precocidade de uma imaginação que encontraria na figura humana, na religião, no medo e na violência alguns de seus territórios permanentes.
A cidade contaminada
Um dos núcleos mais contundentes da exposição é dedicado ao acidente com o césio-137, ocorrido em Goiânia em setembro de 1987 e considerado um dos mais graves acidentes radiológicos já registrados fora de instalações nucleares.
O episódio ocupa um lugar particular na história de Siron porque sua resposta não se limitou ao testemunho artístico. Depois do acidente, ele produziu a série “Césio — Rua 57” e participou de mobilizações destinadas tanto a auxiliar as vítimas quanto a combater o estigma que rapidamente passou a cercar Goiânia e seus moradores.

Na exposição, o núcleo foi construído a partir de referências à cápsula que continha o material radioativo, ao aspecto prateado do pó e à luminosidade azul que se tornou uma das imagens mais perturbadoras associadas ao acidente.
Mas o interesse das obras está menos em reconstruir o episódio do que em enfrentar aquilo que permaneceu depois dele. Siron transformou uma catástrofe ocorrida no espaço físico da cidade em uma espécie de memória material. A terra de Goiás chegou a ser incorporada a algumas das telas num momento em que o próprio território goiano era tratado, fora do Estado, como sinônimo de contaminação.
Para o idealizador da exposição, Leopoldo Veiga Jardim, esse gesto explica parte da força que o conjunto ainda exerce sobre o público local.
“Há um gesto profundamente simbólico nisso: transformar a dor coletiva em arte, memória e resistência”, afirma.
É justamente no trabalho sobre o césio que uma característica recorrente de Siron se torna mais evidente. A tragédia nunca é apenas assunto. Ela interfere na própria matéria da obra. Aquilo que poderia permanecer no campo da documentação é deslocado para um terreno menos confortável, no qual memória pessoal, história pública e experiência estética deixam de ser separáveis.
As violências que permanecem
Outro núcleo aproxima uma instalação sobre feminicídio das Madonas produzidas por Siron principalmente nas décadas de 1970 e 1980. A figura tradicionalmente associada à maternidade, à pureza e ao sagrado é deslocada para um universo marcado por vulnerabilidade, violência e opressão.
O procedimento ajuda a compreender a lógica da própria exposição. “Expressões” não pretende provar que Siron antecipou os problemas brasileiros do século 21. Mostra algo talvez mais inquietante: muitos dos conflitos diante dos quais sua obra reagiu simplesmente não desapareceram.

Feminicídio, desigualdade, autoritarismo, exclusão social, intolerância e violência mudaram de contexto, vocabulário e intensidade, mas continuam suficientemente presentes para que pinturas realizadas décadas atrás dispensem uma arqueologia complicada antes de serem compreendidas.
“A nossa ideia é trazer reflexões sobre fatos que aconteceram na história e que ainda reverberam na sociedade, por meio da arte”, afirma Siron.
A frase poderia servir como chave para a exposição inteira. Aos 79 anos, o artista não aparece em “Expressões” apenas como personagem importante da história cultural de Goiás ou como um nome brasileiro consagrado internacionalmente. O que a reunião de mais de cem trabalhos permite perceber é uma continuidade mais difícil de produzir: a de uma obra que continua disputando o presente.
Talvez esteja aí a explicação mais interessante para os mais de 30 mil visitantes. Uma retrospectiva costuma convidar o público a olhar para trás. “Expressões”, embora percorra mais de meio século, faz o movimento contrário. Diante de algumas de suas obras mais antigas, é o presente que parece estar sendo observado.

