Os tempos eram outros, mesmo assim, continuavam a chamar o Valdir pelo apelido de Mico. Aliás, os amigos não se tratavam pelos nomes de batismo. Usavam alcunhas bisonhas, politicamente intoleráveis, que remontavam aos tempos de escola: Mico, Calcinha, Manteigão e Greta Rabo. Quando Valdir chegou ao Barrabás, foi recepcionado com a tradicional ola, com os companheiros se levantando das cadeiras, em sequência, para formar uma espécie de onda, com os braços estendidos para cima, como se estivessem num estádio de futebol. Só que eles estavam numa mesa de boteco, a cerca de cinco chopes de distância do amigo retardatário, ou seja, com a razão em avançado estado de decomposição.
— Salve, amigos. Como vão?
— Bêbados. Aliás, você está atrasado e formalmente advertido — brincou Greta Rabo.
— Tive um mau dia. Preciso de uma bebida, urgente.
— O que foi, Mico? — perguntou Manteigão.
— Acho que tô gamado numa dona.
— Acha que tá gamado numa dona? O que diabos é isso, meu velho? Ninguém mais diz que está “gamado numa dona”. Que coisa mais old-fashioned. Tá precisando atualizar o seu vocabulário. Quem é a mulher? Espero que não seja uma das nossas digníssimas.
Todos riram.
— Falo sério. Estou num mato sem cachorro. O nome dela é Wanessa. Trabalha como advogada trabalhista.
— Em qual vara?
— Quem tem vara é juiz, Greta. Você tá misturando as bolas — advertiu Calcinha. — Tem uma foto da meliante? — ele completou.
— Meliante?
— Meliante. Se ela roubou o seu coração, é meliante. Tem uma foto da criatura?
Valdir pegou o smartphone e mostrou o perfil da mulher numa rede social da internet.
— Uau! A mulher é um colosso… — comentou Calcinha.
— Colosso? O que diabos está acontecendo com vocês? Isso aqui tá parecendo uma resenha de asilo. Daqui a pouco vão chamar a moça de beldade. Vocês estão conversando como se estivessem no século passado. Aposto uma rodada de chope que ninguém aqui nessa birosca sabe o significado da palavra colosso — brincou Manteigão. — A loira é bonita, Mico. Quantos anos? Uns trinta?
— Quarenta e dois.
— Quarenta e dois?! É o meu número. Parece mais nova. Como você conheceu a figura?
— Pelo celular.
— Pelo celular?
— Você tá com algum problema auditivo, Manteiga? Pelo celular, eu já disse. Foi conversando fiado nessas porcarias de redes sociais da internet. Ela disse que já tinha me visto no IML. Daí, perguntou o meu nome para uma funcionária e futricou na web até me encontrar.
— Despertando paixões, hein, Mico? — brincou Greta Rabo.
— Começamos a trocar ideias e a coisa foi tomando uma crescente.
— Já tá pegando?
— Pegando?
— É. Pegando. Transando. Trocando o óleo. Fazendo amor. Tico-tico no fubá.
— Não.
— Tá de brincadeira. Só na conversinha? — brincou Calcinha.
— Não vou me deitar com uma mulher que eu não conheço. Preciso saber com quem estou lidando, em que terreno estou pisando.
— Em que terreno está pisando… Era só o que me faltava. Você agora virou geólogo, Mico? É pra acabar com os pequis de Goiás…
— O Mico tá certo. Vai que essa mulher é doida, casada ou coisa pior. Psicopata, por exemplo. Há poucos dias, uma mulher cortou com uma peixeira o pênis de um sujeito. Fica esperto, Mico — advertiu Greta.
— Wanessa existe. A gente já conversou por videochamada.
— A galega é graúda. Acho que você não dá conta dela, amigo — brincou Manteigão.
— Não sei mais o que fazer. Wanessa me deu um ultimato. Quer se encontrar comigo o mais breve possível.
— Ela sabe que você é casado? — perguntou Calcinha.
— Foi a primeira coisa que eu disse a ela quando a gente se conheceu.
— Trouxa! A sua mulher já sabe?
— Como assim “a sua mulher já sabe”? Tá ficando doido, Calcinha?
— Qual o motivo da vacilação, Mico? Por que você ainda não passou o rodo nessa belezinha?
— Não seja vulgar, Manteigão. Não vou passar o rodo em ninguém.
— Você é muito certinho. Anda tanto na linha que, qualquer dia um trem te pega.
— Morro de medo. Essa mulher é magnética. Parece que colocou feitiço em mim. Ela é linda. Culta. Inteligente. Politizada. Gosta de ler livros. Tem um gosto musical tão refinado que coloca qualquer um de nós no chinelo. Ela ouve Supertramp, imaginem. Dá pra contar nos dedos quem conhece essa banda. Estou correndo um sério risco.
— Do tipo se apegar?
— Do tipo me apegar. Eu amo a Sônia, ela é a mulher da minha vida, vocês sabem. Mas a Wanessa tá mexendo demais com a minha cabeça.
— Corta a cabeça, Mico. Bate uma punheta. Você não leva o menor jeito para pular a cerca. Já teve algum caso extraconjugal na sua vida?
— Nunca.
— Tô falando. É tragédia anunciada. Vai dar merda. Nem saiu com a mulher e já tá desse jeito, amuado. É como o doutor Placidônio, o meu urologista, sempre diz: Calcinha, não saia com outras mulheres. A traição é um vício pior do que o crack.
— Troca de urologista, Calcinha. Tantos toques retais estão te fazendo mal. Esse tal de doutor Placidônio, além de meter o dedo no seu rabo, tá te enchendo de maus conselhos — zombou Manteigão.
— Vou embora, turma.
— Mas você acabou de chegar, Mico.
— A cabeça tá doendo. Alguém paga a minha parte. Depois, eu acerto.
Valdir foi para casa. Ficou sumido uns dias. Mas acabou retornando ao Barrabás e, claro, foi recebido pelos velhos amigos, todos eles remanescentes dos anos 1980, com uma calorosa ola. O encontro com Wanessa melou. Quando, finalmente, tinha criado coragem para encontrá-la, ficou sabendo pelos noticiários locais que a polícia havia desbaratado uma quadrilha que operava golpes pela internet, usando recursos de IA (inteligência artificial) para enganar vítimas do sexo masculino, geralmente homens maduros com idades superiores a cinquenta anos. Wanessa era um simulacro. Naquela tarde, sem conseguir disfarçar o alívio, Valdir pagou sozinho a conta do boteco. E acabou agraciado pelos amigos com uma salva de olas.

