Quando Tom Jobim compôs “Zingaro”, em 1965, havia cansaço por trás da melodia. Vivendo nos Estados Unidos, o maestro experimentava uma persistente sensação de deslocamento. Sentia-se estrangeiro, quase um nômade, alguém que atravessava lugares sem pertencer inteiramente a eles. O próprio título da composição instrumental traduzia esse estado de espírito: zingaro é um termo italiano historicamente usado para se referir aos povos romani e hoje considerado pejorativo.
Dois anos depois, “Zingaro” apareceu no belíssimo álbum “A Certain Mr. Jobim”, lançado em 1967, com arranjos do alemão Claus Ogerman. Ainda não havia versos. Apenas uma melodia melancólica, carregada daquela espécie de tristeza sem espetáculo que se tornaria uma das marcas mais reconhecíveis da obra de Tom Jobim.
Foi Vinicius de Moraes quem incentivou o encontro daquela música com as palavras de Chico Buarque. Tom entregou ao jovem compositor algumas melodias para que ganhassem letras. Entre elas estava “Zingaro”. Nas mãos de Chico, a composição recebeu outro nome e uma nova dimensão: tornou-se “Retrato em branco e preto”, uma das mais belas canções do cancioneiro brasileiro.
Curiosamente, o cansaço permaneceu. Se em “Zingaro” havia o desconforto de quem se sente fora do lugar, em “Retrato em branco e preto” surge outra forma de exaustão: o cansaço amoroso de quem conhece antecipadamente o desfecho da própria história. O personagem sabe que está entrando outra vez pelo mesmo caminho, reconhece os sinais do fracasso e, ainda assim, segue adiante. A desilusão chega antes mesmo do fim. É o desalento de quem já sabe que aquilo não vai dar em nada, mas não consegue evitar a repetição.
A transformação de “Zingaro” em “Retrato em branco e preto” é uma das dez histórias apresentadas no novo episódio do podcast “Travessia”. Nesta quinzena, o programa parte justamente do cansaço para percorrer diferentes maneiras pelas quais a música popular brasileira transformou esgotamento, desencanto, rotina, desilusão e vontade de desistir em canção.
Conduzido pelos jornalistas Fernando Vives e Edison Veiga, “Travessia” é uma produção da Central 3 e pode ser ouvido aqui na Revista Bula.

