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Há uma espécie de contrato silencioso por trás de qualquer porta que se abre para um desconhecido. Quem pede ajuda aceita os limites da casa alheia; quem oferece abrigo confia que aquele estranho não carregará para dentro tudo aquilo que existe do lado de fora. “O Intruso” rompe esse acordo em poucos minutos, e Sam Miller encontra justamente nessa violação elementar a melhor justificativa para um suspense que não tem grandes novidades, mas sabe muito bem o que fazer com as velhas. Terri Granger abre a porta durante uma noite de tempestade para Colin Evans, um homem bonito, educado, molhado pela chuva e aparentemente azarado. O carro dele teria quebrado ali perto. Ele precisa apenas de um telefone. É claro que não precisa apenas de um telefone.

Antes, o roteiro de Aimee Lagos já revelara ao público quem Colin é, livrando Miller da obrigação de inventar um mistério que provavelmente duraria pouco. Condenado por homicídio, ele comparece a uma audiência de liberdade condicional e tenta vender aos membros da comissão a imagem de um homem regenerado. Idris Elba não faz muito esforço para parecer inocente, e nisso reside uma das decisões inteligentes do filme. Colin não é Hannibal Lecter, nem pretende vencer ninguém pela eloquência. Há nele uma irritação quase infantil com qualquer contrariedade, uma espécie de narcisismo homicida que torna especialmente perigoso o intervalo entre alguém dizer-lhe não e ele decidir o que fará a respeito. A liberdade lhe é negada. Pouco depois, ele escapa.

Terri não sabe disso. Ex-promotora, agora afastada da carreira e dedicada aos filhos, ela vive em Atlanta numa casa confortável demais para alguém que já percebeu que o casamento não anda tão confortável assim. Jeffrey, o marido interpretado por Henry Simmons, viaja, deixando-a sozinha com as crianças, e esse abandono provisório seria banal não fosse a aparição do homem que transforma a noite num cerco. O interessante é que Taraji P. Henson nunca deixa Terri cair completamente no arquétipo da dona de casa indefesa, embora o roteiro tente empurrá-la nessa direção. Ela observa Colin. Desconfia. Recua. Volta a confiar um pouco. A educação, nesse caso, é quase uma armadilha moral: seria mais fácil sobreviver se pudéssemos tratar todo desconhecido como um assassino.

Miller explora muito bem essa hesitação. O perigo está dentro de casa, mas durante algum tempo continua sentado à mesa, conversa, sorri, aceita uma bebida. Leslie Bibb entra como Meg, a amiga mais expansiva e muito menos cuidadosa, e a presença de uma terceira pessoa produz aquele falso alívio que bons suspenses domésticos conhecem de cor. Colin parece menos ameaçador porque agora há mais alguém ali. É o contrário. A morte de Meg, brutal e quase seca, elimina a possibilidade de que o visitante seja apenas um sujeito estranho e empurra a história para o conflito que realmente interessa.

Quando a casa deixa de ser abrigo

A partir daí, “O Intruso” abandona qualquer pretensão de sutileza. Telefones deixam de funcionar, facas desaparecem, portas tornam-se obstáculos, crianças passam a ser instrumentos de chantagem, e a residência de Terri vai se convertendo num mapa de pontos vulneráveis. Miller sabe que uma casa pode assustar mais que um beco justamente porque conhecemos suas saídas. A cozinha deveria ter uma porta. O quarto das crianças deveria ser seguro. Uma escada serve para escapar, até que alguém esteja em cima dela. O filme joga com essas certezas domésticas e as desmancha uma a uma.

Idris Elba tinha material para cair no histrionismo, sobretudo quando Colin deixa de precisar disfarçar a própria natureza, mas segura a personagem numa zona mais incômoda. Ele é violento sem parecer particularmente interessado na violência; mata como quem corrige um inconveniente. Essa frieza funciona melhor que algumas explicações psicológicas oferecidas pelo enredo. Quanto mais “O Intruso” tenta diagnosticar Colin, menos interessante ele se torna. Não precisamos saber a categoria clínica em que caberia um sujeito capaz de espancar uma mulher por ciúme e continuar a noite como se tivesse apenas perdido a paciência no trânsito.

Taraji P. Henson compreende melhor o jogo. Terri começa a reorganizar mentalmente tudo aquilo que vê, e a antiga promotora reaparece na dona de casa, não numa transformação miraculosa, mas porque aquela mulher nunca deixara de existir. Há momentos em que o filme parece quase constrangido com a possibilidade de sua protagonista resolver o problema sem precisar de um salvador masculino, mas Miller acaba confiando nela. A mudança é pequena e decisiva: Terri para de apenas reagir e começa a pensar em Colin.

A invasão que começara antes

O problema mais sério surge quando a história resolve explicar por que ele foi parar justamente naquela casa. O acaso, que até então servia muito bem ao suspense, revela-se menos casual do que parecia, e Jeffrey volta ao centro por uma relação extraconjugal que conecta Colin à família. É uma virada eficiente sob o ponto de vista mecânico, mas estreita um filme que até ali falava de algo mais aterrador: a possibilidade de que não haja motivo nenhum, de que alguém bata à porta certa simplesmente porque teve o azar de encontrar uma pessoa gentil do outro lado.

Ainda assim, a revelação ajuda Terri a compreender outra invasão que já vinha ocorrendo muito antes daquela noite. Colin entra pela porta da frente; Jeffrey já havia corroído a casa de dentro. A violência física do primeiro apenas deixa mais visível uma ruptura que o casamento tentava esconder.

“O Intruso” é um daqueles thrillers de orçamento e ambição moderados que não precisam transformar o assassino numa entidade metafísica ou a vítima numa heroína invulnerável. Miller dispõe de uma noite, uma casa, duas crianças, uma mulher que resolve não morrer e um homem que subestima a pessoa errada. O resto é porta fechando, vidro quebrando, medo e uma conta conjugal que terá de ser acertada quando o sol nascer. Caso Jeffrey ainda tenha coragem de voltar para casa.


Filme: O Intruso
Diretor: Sam Miller
Ano: 2014
Gênero: Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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