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Foi assim que Adi e Oto descobriram que havia uma Copa do Mundo: de repente, o Zoológico de Ljubljana começou a receber um número incomum de brasileiros vestidos de amarelo.

Um mês depois:

— Adi… Adi… Acorda!

— Ah, me deixa… A Copa já acabou… Hoje não tem jogo.

— Eu sei.

— Então me deixa dormir mais um pouquinho…

— É justamente sobre isso que eu quero conversar.

Adi abre um olho apenas. Segue dormindo com o outro.

— Diga.

— A Copa acabou.

— Sim.

— Então por que o Brasil ainda está perdendo?


Adi escala o morrinho vizinho àquele em que Oto já estava instalado. Ambos observam o vaivém dos visitantes. Então chega um grupo grande e barulhento. Brasileiros. Em comum, trajam a camisa amarela.

— Estranho… — diz Oto. — Continuam uniformizados.

— Humanos demoram para aceitar derrotas.

— Mas faz semanas!

Eles têm comportamentos diferentes daqueles que só falavam em Vini Jr. e cornetavam um tal Ancelotti. Adi nota que vários gravam vídeos apontando o dedo. Alguns gritam para o celular. Vestem-se também de forma inusitada, muitos colocando um blazer por cima da camisa de futebol — apesar dos termômetros marcarem altas temperaturas no verão europeu.

— Será que estão treinando para a próxima Copa? — pergunta Oto.

— Não.

E, depois de uma pausa, Adi prossegue:

— Não se treina para torcer. Estão é treinando para outra coisa.


— Repara só, Oto.

— Repara o quê?

— Ninguém está falando sobre futebol.

— Verdade.

— Nem sabem que a bola é redonda. Vai ver também são terraplanistas, aliás.

— Verdade também.

— Mas todos se comportam como quem acredita ter a certeza absoluta. De alguma coisa. De tudo.

— Então… Isso é religião? — pergunta Oto.

— Pior.

— Guerra?

— Pior ainda.

— Alguma dieta nova?

— Isso aí se chama eleição. Tempo de campanha lá no Brasil.

Os dois ficam só observando, em silêncio. O mais engomadinho dos turistas chega perto. Acha graça. Bate no vidro, ignorando a placa que proíbe assustar os animais. Os suricatos nem se movem.

— Mas por que usam uniforme?

— Porque uniforme economiza pensamento.

No dia seguinte, Oto ainda está encafifado com o assunto:

— Eles torcem, Adi?

— Não.

— Então por que a camisa?

— Desconfio que eles descobriram uma coisa fabulosa: vestir uma opinião é mais fácil do que construir uma.

Quando chega a primeira turma de brasileiros daquela manhã, Oto não se contém e vai para perto do vidro. Ele está fascinado com esse comportamento dos humanos, sincronizados. Parece que marcham em um próprio histrionismo. São paradoxos ambulantes.

— Adi…

— Hum?

— Eles vestem a mesma roupa, então, para convencer os outros?

— Não.

Adi termina de comer a ração matinal de insetos.

— Vestem a mesma roupa para convencer a si mesmos.

— E funciona?

— Tão bem que eles até se esquecem que podem trocar de roupa.


— E na Copa eles torciam pelo Brasil?

— Sim.

— E agora?

— Agora torcem contra os brasileiros.

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.

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