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Ry não quer ser curada do verão. Quer apenas que ninguém o interrompa. Essa talvez seja a melhor maneira de entrar em “O Último Nascer do Sol”, romance de Carlson Young sobre uma jovem que aprendeu a viver cercada por cuidados, recomendações e temores até chegar a Maiorca e descobrir que proteção excessiva pode ser apenas uma forma bem-intencionada de confinamento. Maia Reficco interpreta uma universitária com uma doença crônica que viaja à ilha espanhola acompanhada da mãe, Isolde, vivida por Eva Longoria, e encontra em Julián, o rapaz de Fernando Lindez, aquilo que histórias dessa natureza invariavelmente prometem: um amor de verão. A diferença é que o verdadeiro conflito começa antes dele.

Ry e Isolde se amam de um jeito cansativo. A mãe vigia porque tem medo; a filha se irrita porque precisa respirar. Nenhuma das duas está exatamente errada, o que torna essa relação muito mais interessante que qualquer duelo elementar entre uma jovem libertária e uma matriarca controladora. Quem já precisou cuidar de alguém sabe como é fácil atravessar, sem perceber, a fronteira entre o zelo e a tutela. Quem já foi objeto desse cuidado conhece o outro lado: chega uma hora em que até o afeto começa a produzir falta de ar.

Carlson Young encontra nessa tensão seu filme mais promissor. Ry chega a Maiorca com a sensação de que sua vida acontece sempre sob autorização alheia. O corpo impõe limites, a mãe acrescenta outros e, em volta das duas, existe aquele azul mediterrâneo quase ofensivamente bonito, como se a ilha inteira fosse uma provocação. O mundo está ali, aberto, ensolarado, barulhento, cheio de gente que permanece na rua até tarde, enquanto ela aprendeu a medir riscos antes de desejos. Maia Reficco entende essa contradição e não faz de Ry uma mártir. Há nela impaciência, curiosidade e uma certa raiva de ter de ser prudente num momento da vida em que quase todo mundo usufrui do privilégio de fazer bobagens.

Julián e a promessa do verão

É então que aparece Julián.

Fernando Lindez entra no longa com a função ingrata de encarnar não apenas um homem, mas uma possibilidade. Ele é a ilha convertida em pessoa: espontâneo, bonito, solar, aparentemente livre das planilhas invisíveis que organizam o cotidiano de Ry. O interesse entre os dois surge depressa, talvez depressa demais, e “O Último Nascer do Sol” começa a se render aos códigos já muito conhecidos do romance jovem — passeios, olhares demorados, pequenas transgressões, a descoberta física do outro, noites que parecem maiores justamente porque o verão termina. Young filma tudo com gosto, mas nem sempre encontra tempo para que a atração amadureça antes que o roteiro a declare amor.

Esse é um problema considerável porque o filme precisa convencer o espectador de que Julián representa uma transformação profunda na vida de Ry, não apenas férias com um homem excepcionalmente bonito. Reficco e Lindez têm uma afinidade leve, mais eficiente nas cenas em que conversam sem grande propósito do que nos instantes em que o texto exige deles declarações capazes de sustentar todo o melodrama. Quando apenas caminham, brincam, se provocam e permitem que Maiorca faça parte do encontro, o romance respira. Quando começam a carregar nas costas o destino, a doença, segredos familiares e uma quantidade respeitável de obstáculos, o casal fica menor.

O relacionamento mais complexo está em outro lugar

Talvez porque o relacionamento mais complexo esteja em outro lugar.

Eva Longoria faz de Isolde uma mulher que transformou o medo em método. A rigidez com a filha não nasce de uma perversão emocional ou de alguma necessidade vulgar de domínio, mas da experiência prolongada de saber que uma pessoa amada pode sofrer uma crise quando menos se espera. A tragédia íntima desse tipo de cuidado é que ele raramente sabe a hora de terminar. Para Ry, cada pergunta da mãe parece uma invasão; para Isolde, não perguntar seria negligência. Young acerta ao não resolver facilmente esse impasse, e nos melhores momentos o romance com Julián funciona menos como o assunto do filme que como o detonador de uma discussão antiga entre mãe e filha.

Há também um passado que Maiorca insiste em devolver a Isolde. Como todo lugar abandonado, a ilha preserva versões de quem foi embora que nem sempre combinam com aquilo que essa pessoa construiu de si mesma depois. Segredos familiares entram na narrativa, velhas relações reaparecem sob novas circunstâncias e o paraíso começa a adquirir uma topografia menos turística. O roteiro poderia ter explorado melhor essa duplicidade. Maiorca é lindíssima em “O Último Nascer do Sol”, mas muitas vezes permanece apenas lindíssima, como fundo de tela de um celular caro. Faltam-lhe cheiro, sujeira, calor, gente demais, algum desconforto. Um amor que pretende ensinar alguém a viver o presente deveria acontecer num lugar que parecesse mais vivido.

Ainda assim, Maia Reficco impede que Ry se dissolva entre praias e melodrama. A atriz conserva na personagem uma inquietação que nem sempre está no diálogo. Ry não quer morrer, como certos romances de doença parecem estranhamente empenhados em sugerir a respeito de seus protagonistas. Muito pelo contrário. Ela quer viver a ponto de incomodar aqueles que confundiram a possibilidade da perda com a obrigação de antecipá-la. Há algo de genuinamente bonito nisso, sobretudo porque o filme se recusa a reduzir sua condição de saúde a uma contagem regressiva romântica.

Esse detalhe é particularmente importante numa narrativa oriunda de Anna Todd, escritora associada a paixões grandiosas, jovens belíssimos e sentimentos vividos como se o universo fosse desaparecer na manhã seguinte. “O Último Nascer do Sol” conserva bastante desse imaginário. Há desejo, riqueza, paisagens fotogênicas, conflitos familiares e personagens que às vezes parecem possuir tempo demais para conversar sobre o próprio coração. Carlson Young, contudo, encontra pequenas brechas para algo menos convencional, e quase todas estão em Ry quando Julián não está por perto.

Amar também é deixar viver

É significativo que a personagem cresça mais nas discussões com a mãe que nas cenas de sedução. O amor romântico oferece-lhe coragem, mas é o enfrentamento com Isolde que exige maturidade. Amar Julián pode ser uma experiência deliciosa; convencer a própria mãe de que viver envolve aceitar riscos é uma tarefa muito mais árdua. E também o inverso se aplica: Isolde precisa aprender que não pode manter uma filha a salvo de tudo sem, no processo, mantê-la distante de alguma coisa.

Fernando Lindez sofre um pouco com essa desigualdade. Julián é agradável, tem presença e oferece ao filme aquilo que o gênero pede, mas permanece por tempo demais definido pelo efeito que exerce sobre Ry. Quando os conflitos de sua família ganham espaço, há uma oportunidade de tirá-lo da posição de príncipe mediterrâneo e dar-lhe uma vida que não comece com a chegada daquela americana. O roteiro experimenta esse caminho, mas retorna depressa à engrenagem central. Há sempre mais uma urgência esperando.

O resultado é um filme muito mais interessante quando hesita entre ser um romance e um drama familiar do que quando resolve definitivamente ser o primeiro. O casal é bonito, Maiorca ajuda, o verão faz sua parte e ninguém pode acusar Carlson Young de ignorar o apelo quase ancestral de duas pessoas jovens descobrindo-se enquanto o sol desaparece no horizonte. Mas Reficco e Longoria encontram uma camada que o romance de Ry e Julián alcança apenas de vez em quando: aquela região desconfortável em que amar alguém implica aceitar que não podemos decidir como essa pessoa deve viver.

Talvez por isso o nascer do sol do título seja menos romântico do que parece. Para Ry, ver o dia começar não significa receber a promessa de que tudo ficará bem. Significa apenas estar ali quando a luz chega, sem saber exatamente quanto dela terá, e finalmente admitir que uma vida protegida de todo perigo também pode acabar protegida de quase tudo que a torna vida.


Filme: O Último Nascer do Sol
Diretor: Carlson Young
Ano: 2026
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
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