Um balão parece a pior invenção possível para quem precisa escapar de uma conversa desagradável. Não há porta para bater, corredor por onde sair, carro esperando na esquina, banheiro onde se trancar enquanto o outro esfria a cabeça. Há uma cesta pequena, um céu enorme e a incômoda evidência de que, quando certas verdades começam a circular a milhares de metros do chão, qualquer tentativa de fugir pode ser muito mais perigosa que continuar ouvindo. Claudio Fäh entende essa ironia e faz dela a ideia mais interessante de “Turbulência”, thriller em que Zach e Emmy recorrem a um passeio pelos Dolomitas italianos na esperança meio infantil de que uma paisagem espetacular possa oferecer ao casamento aquilo que os dois já não conseguem encontrar dentro de casa. Naturalmente, não oferece.
Jeremy Irvine e Hera Hilmar são esse casal que ainda conserva os modos de quem se conhece muito bem, mas já não sabe exatamente o que fazer com esse conhecimento. Existe uma diferença considerável entre intimidade e proximidade, e “Turbulência” se beneficia dessa distinção ao colocar os dois num espaço ridiculamente exíguo, obrigados a conviver com Julia, a passageira interpretada por Olga Kurylenko cuja presença transforma uma excursão romântica em outra coisa. Julia não entra naquela cesta apenas como uma desconhecida um tanto inconveniente. Ela traz consigo a dúvida, e dúvida é combustível melhor para um thriller que qualquer tempestade.
Fäh demora pouco a perceber que o verdadeiro confinamento do filme não é físico. Vê-se céu por toda parte, montanhas magníficas avançam até o horizonte, o ar está livre e, paradoxalmente, ninguém poderia estar mais preso. É uma boa inversão do expediente tradicional do suspense de clausura, no qual corredores estreitos, porões, elevadores ou quartos sem janelas produzem a angústia que aqui surge em pleno espaço aberto. Quanto maior a paisagem, mais insignificantes ficam aquelas quatro criaturas dentro da cesta; quanto mais o balão sobe, menos alternativas elas têm. Uma porta fechada pelo menos oferece a fantasia de que existe algo atrás dela. Ali, embaixo dos pés, há apenas o vazio.
A dúvida viaja junto
O roteiro aproveita essa circunstância com uma desenvoltura que nem sempre se sustenta. A entrada de Julia altera a relação entre Zach e Emmy, e pouco a pouco o passeio deixa de ser uma tentativa de reconciliação para assumir a forma de um interrogatório involuntário. Olga Kurylenko sabe explorar muito bem personagens que parecem conhecer alguma coisa que os outros ignoram, e sua Julia é mais interessante quando não se tem certeza se aquela serenidade é domínio da situação ou apenas mais uma encenação. O problema começa quando o filme resolve explicar o que já havia sugerido com eficiência. Há momentos em que os diálogos parecem demasiadamente interessados em colocar a verdade em ordem, como se alguém, diante da possibilidade bastante concreta de despencar dos Alpes, ainda pudesse preocupar-se em organizar cronologicamente os pecados conjugais.
Jeremy Irvine encontra alguma dificuldade nessa mudança. Zach precisa oscilar entre culpa, medo, arrogância e desespero, e o personagem é mais convincente quando está acuado do que quando tenta reassumir o controle. Há nele uma natureza desagradavelmente prática: ele parece um daqueles homens habituados à convicção de que toda crise tem solução desde que alguém esteja disposto a pagar a conta. No casamento, contudo, essa matemática costuma falhar. Emmy entende antes.
Hera Hilmar vai assumindo o centro de “Turbulência” quase sem fazer anúncio. No início, Emmy poderia ser apenas a esposa convocada pelo roteiro para descobrir aquilo que o público já começara a suspeitar; à medida que a viagem se desarranja, é ela quem demonstra algum interesse real em continuar viva. Não por acaso, o filme melhora muito quando deixa de perguntar se aquele casamento pode ser salvo e passa a perguntar quem, afinal, consegue salvar quem. Relações longas criam uma espécie de mitologia particular, feita de pequenas concessões acumuladas, versões convenientes para fatos desagradáveis, lembranças reformadas até servirem ao presente. Quando o verniz começa a descascar, nem sempre existe alguma coisa bonita por baixo.
Quando o céu vira armadilha
Aí “Turbulência” abandona de vez qualquer pretensão de drama conjugal razoavelmente sóbrio e abraça o cinema-catástrofe. O balão enfrenta as montanhas, o vento passa a decidir boa parte do destino daquela gente e a natureza, até então ocupada em servir de cenário para fotografias bonitas, revela a velha indiferença com que observa os dramas humanos. Talvez fosse pedir demais que Fäh conservasse todas as regras da física intactas. O filme prefere a adrenalina à plausibilidade, e em determinados momentos essa escolha chega perigosamente perto do absurdo. Todavia, um thriller de 95 minutos sobre pessoas presas num balão não sobrevive se permanecer excessivamente preocupado com manuais de aeronáutica. Alguma licença precisa embarcar junto.
O curioso é que as sequências de perigo funcionam menos pelo medo de altura que pelo conhecimento já acumulado acerca dos passageiros. Um cabo que arrebenta ou uma mudança brusca de vento importam, claro, mas muito mais perturbadora é a transformação de aliados eventuais em adversários. A sobrevivência exige confiança justamente depois que todos passaram boa parte da viagem demonstrando por que não merecem confiança alguma. Nesse momento, a cesta torna-se uma pequena sociedade em colapso, com cada um tentando estabelecer sua própria hierarquia moral enquanto a gravidade continua indiferente a argumentos.
Kurylenko é particularmente útil nesse registro porque Julia desorganiza o filme tanto quanto o casal. A personagem provoca, acusa, ameaça, recua, volta a avançar, e sua presença impede que a narrativa encontre estabilidade. Hilmar reage por outro caminho, diminuindo a temperatura de Emmy quando o esperado seria aumentá-la. O contraste entre as duas mulheres acaba mais estimulante que a participação de Irvine no triângulo, e Fäh parece percebê-lo a tempo, permitindo que o filme se desloque do adultério e da desconfiança para uma disputa mais elementar acerca de quem conserva lucidez quando todo o resto entra em pane.
Reviravoltas acima da lógica
“Turbulência” não é um filme interessado em sutilezas por muito tempo. A certa altura, praticamente tudo que poderia dar errado resolve acontecer, e o exagero cobra seu preço. Há reviravoltas que chegam depois de o espectador já ter começado a montá-las sozinho, outras que funcionam mais pela audácia que pela lógica e algumas imagens digitais deixam evidente que aqueles atores não passaram 95 minutos flutuando sobre precipícios italianos. Não importa tanto. Fäh mantém uma espécie de prazer antigo em construir perigo com mecanismos simples, corpos vulneráveis e um lugar de onde ninguém consegue sair.
Quando o céu, antes associado à liberdade, transforma-se numa prisão sem paredes, o casamento de Emmy e Zach já parece quase um problema secundário. Talvez essa seja a pequena maldade que o filme acerta em cheio. Certas relações passam anos sendo mantidas pela convicção de que ainda há muito a perder. Basta que a vida ofereça uma perspectiva realmente assustadora para perceber-se que, às vezes, perder é exatamente o que faltava.

