Vidas são feitas de sonhos e quanto mais vivemos, mais nos damos conta de que nossos sonhos só se completam na medida em que achamos a pessoa com quem vamos dividi-los. O que se assiste em “Cemitério”, entretanto, é que a vida muitas vezes segue por caminhos tão imprevisíveis e sobrevêm perigos tão aniquiladores que nos vemos forçados a tomar atitudes fora de propósito, em pleno desacordo com nossa própria natureza, e ninguém é capaz de arriscar nenhuma promessa de final ditoso. O feminicídio, uma modalidade de crime que sempre foi encarada como uma chaga sem remédio, uma circunstância natural da vida em sociedade, é a matéria-prima que os diretores Ömer Baykul e Abdullah Oguz usam para levar catorze episódios de um drama cheio de paradoxos, moderno e arcaico, protagonizado por assassinos e vítimas que já foram um casal.
A arte imita a vida
Remexer a lama do mundo é o ganha-pão de Önem Özülkü. Chefe da Unidade de Crimes Especiais, a comissária Özülkü investiga homicídios cruentos, desdobra-se para entender a filha adolescente e lida com a insegurança raivosa de colegas homens, assuntos que os roteiristas Onur Böber, Evren Oguz e Özden Uçar entrelaçam já na abertura. Önem não aceita ser menosprezada ou tratada com condescendência apenas por ser mulher, faz disso sua lei maior e com ela vai subindo, até ser designada para um caso escandaloso. Istambul reproduz a funesta tendência mundial de aumento na taxa de mulheres assassinadas por questões de gênero, e agora ela é quem estará à frente dessas ocorrências, degredada no tal cemitério, um arquivo morto no porão da superintendência da polícia local. A partir de Mais Quente que o Sol, o capítulo inicial, Birce Akalay atravessa a narrativa batendo na tecla da independência de Önem Özülkü, que desde sempre experimenta o peso da misoginia em seu trabalho e jamais precisou de machos salvadores para executar as suas missões.

