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Durante mais de setenta anos, duas páginas de um dos livros mais lidos do mundo ficaram ali, à vista de todos e ilegíveis. Anne Frank não as arrancou. Fez algo mais doméstico e, por isso mesmo, mais adolescente. Colou sobre elas papel pardo gomado. Quem examinasse o primeiro diário, aquele caderno de capa xadrez vermelha e branca que ela ganhara ao completar 13 anos, encontraria uma pequena barricada artesanal.

As páginas tinham sido escritas em 28 de setembro de 1942. Anne estava havia menos de três meses escondida dos nazistas. E o que decidira esconder, descobriríamos muito mais tarde, não era o nome de um colaborador, uma informação comprometedora sobre a guerra ou algum plano de fuga.

Quatro delas, para ser exato. Anne as chamou de “piadas sujas”. Havia também cinco frases riscadas e 33 linhas em que a garota escrevia sobre menstruação, relações sexuais, contracepção, prostituição e aquilo que entendia, aos 13 anos, sobre como os adultos faziam crianças e depois fingiam diante delas que ninguém sabia direito como aquilo funcionava.

Anne Frank foi assassinada pelos nazistas aos 15 anos, depois de passar mais de dois anos escondida em Amsterdã com a família e outros judeus, ser descoberta em agosto de 1944, deportada e terminar em Bergen-Belsen. Seu pai, Otto, foi o único dos oito ocupantes do esconderijo a sobreviver à guerra. O diário que ela deixou se tornou um dos documentos mais célebres do Holocausto, publicado pela primeira vez em 1947 e depois traduzido, estudado, dramatizado, filmado, transformado em material escolar e objeto de peregrinação.

Com o tempo, o livro passou a carregar um peso que aquele caderno de adolescente evidentemente não tinha quando começou a ser escrito. Também estreitou, porém, a margem pela qual sua autora costuma ser lida.

Anne virou vítima exemplar, patrimônio da humanidade, uma espécie de adolescente oficial da civilização ocidental. E adolescentes oficiais da civilização ocidental, como se sabe, não contam piadas indecentes.

Naquele 28 de setembro de 1942, a menina que escreveu as duas páginas tinha acabado de entrar numa experiência de confinamento que ainda estava aprendendo a suportar. Os Frank haviam se escondido em 6 de julho. Anne trouxera consigo o diário recebido poucas semanas antes, no aniversário de 12 de junho. O caderno ainda não era “O Diário de Anne Frank”. Era um objeto particular de uma garota de 13 anos, e essa diferença foi ficando menos óbvia à medida que o livro se tornou célebre.

Ela escrevia muito. Relia o que tinha escrito, corrigia palavras, fazia acréscimos, riscava coisas. A ideia popular de um diário como despejo espontâneo de sentimentos, uma torneira aberta diretamente sobre a alma, explica mal o que Anne fazia.

Uma das páginas começa com Anne anunciando que vai aproveitar uma folha que considerava estragada para registrar algumas “piadas sujas”. Vêm então anedotas do tipo que adolescentes contam justamente porque adultos prefeririam que não contassem. Uma envolve soldados alemães e uma insinuação sexual. Outra gira em torno de um marido, uma mulher e um amante encontrado numa situação difícil de explicar. Apenas humor de recreio escolar, com o detalhe nada desprezível de que não havia recreio escolar algum para Anne naquela altura.

Anne começa a registrar o que sabe sobre o corpo feminino. Fala da primeira menstruação e de quando uma menina se torna fisicamente capaz de ter relações sexuais. Tenta explicar a reprodução. Escreve sobre contracepção. Chega à prostituição e demonstra possuir uma teoria bastante simplória segundo a qual homens “normais” recorriam a prostitutas, acrescentando que em Paris havia casas destinadas a isso e que seu pai conhecia o assunto.

Anne não sabe tudo, mas quer saber. E não entende muito bem por que certas coisas precisam ser envolvidas naquela fumaceira de segredo e vergonha. Em outros trechos de seus escritos ela voltaria ao corpo, à menstruação e à sexualidade. Aos 15 anos, quando começou a reescrever o diário pensando em transformá-lo num livro, olharia com alguma surpresa para a desinibição da menina que havia sido aos 13 e cortaria boa parte dessas passagens.

A primeira escrevia sem saber exatamente que destino teriam aquelas páginas. A segunda já sonhava ser jornalista e escritora.

Essa transformação começou a ganhar forma concreta em março de 1944. Escondidos no anexo, os moradores ouviam clandestinamente a Radio Oranje, transmitida de Londres pelo governo holandês no exílio. No dia 28 daquele mês, o ministro Gerrit Bolkestein fez um apelo para que os holandeses guardassem cartas, diários e outros registros capazes de documentar, depois da guerra, a experiência da ocupação alemã.

No dia seguinte já imaginava que seu diário poderia se transformar num livro. Chegou a pensar no título, “O Anexo Secreto”. Em 20 de maio começou efetivamente a reescrevê-lo em folhas soltas. Cortava, deslocava passagens, acrescentava outras e mexia na linguagem. Em poucos meses produziria cerca de 50 mil palavras nessa nova versão.

Em 4 de agosto de 1944, a polícia entrou no esconderijo.

As duas páginas cobertas, porém, continuaram lá.

Não se podia simplesmente puxar o papel marrom para ver o que Anne tinha escondido. O diário é um documento histórico frágil e qualquer intervenção física poderia danificá-lo. Durante décadas, portanto, aquela espécie de tampa continuou fechada.

Até 2016.

Naquele ano, durante uma inspeção de conservação feita nos manuscritos, pesquisadores fotografaram as páginas cobertas. Usaram iluminação por trás do papel e imagens de alta resolução. O resultado parecia a princípio uma bagunça. A tinta escondida se misturava ao texto escrito no verso das folhas. Programas de processamento de imagem conseguiram separar os diferentes traços até que as palavras sob o papel pardo reaparecessem. Não foi preciso descolar nada.

Em maio de 2018, a Casa de Anne Frank, o Instituto Huygens e o NIOD, dedicado aos estudos de guerra, Holocausto e genocídio, divulgaram o conteúdo. Se Anne cobrira aquelas páginas, não seria justamente porque não queria que fossem lidas?

Toda publicação póstuma de um diário carrega alguma violência contra a fronteira entre o privado e o público, e neste caso a fronteira não precisava sequer ser deduzida.

Os pesquisadores sustentaram que as páginas eram importantes para compreender não apenas Anne, mas seu processo de escrita. Cortes também são escrita. Rasuras também. O fato de Anne ter voltado aos próprios textos, revisado passagens e preparado uma segunda versão para publicação mostra que seus manuscritos são algo mais complexo do que o registro involuntário de uma vítima.

As páginas não revelaram uma Anne Frank desconhecida. Quem lê seu diário sem a camada de santificação depositada sobre ele ao longo das décadas já encontra uma menina espirituosa, vaidosa, engraçada, sexualmente curiosa e às vezes injusta.

Não escrevia no esconderijo pensando em representar seis milhões de mortos. Queria viver. Queria voltar à escola. Brigava com a mãe. Implicava com os outros moradores. Gostava de cinema, olhava para meninos, pensava no próprio corpo e queria ser escritora. Às vezes escrevia coisas das quais se arrependia. Aos 13 anos contou piadas que aos 15 já talvez considerasse infantis.

O Holocausto lhe arrancou justamente o direito de descobrir que tipo de mulher sairia daquela menina.

Talvez por isso aquelas duas páginas banais sejam tão perturbadoras. Durante décadas procuramos atrás do papel pardo algum segredo à altura de Anne Frank. Quando a tecnologia conseguiu atravessá-lo, encontrou justamente aquilo que ela tentara esconder dos olhos alheios, um pedaço pequeno e indiscreto de sua intimidade adolescente.

Web Stuff

Web Stuff é o coletivo de curadoria cultural e experimentação editorial da Revista Bula, formado por Fernando Santos, Tainá Corrêa, Bruno Cantuária, Carlos Willian Leite, Ademir Luiz, Solemar Oliveira e Luiz Augusto. Reúne diferentes olhares sobre literatura, livros, cinema, artes e cultura e integra um projeto de pesquisa em jornalismo cultural digital, com experimentações em novos formatos de publicação e Progressive Web Apps (PWAs).

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