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Machado de Assis, como bem sabemos, é atemporal, embora sua existência e obra tenham ficado presas ao século 19 e aos costumes e idiossincrasias da sociedade da época.

Impossível negar, entretanto, que os trabalhos do bardo carioca transcendem suas próprias observações, frequentemente apontadas por seus detratores como carregadas de leviandade e futilidade dos hábitos e assuntos em voga naquele Brasil oitocentista — o adultério, a castidade, o dote (financeiro) das noivas e, claro, os tílburis que perambulavam pelo Rio de Janeiro imperial, pré- e recém-republicano.

Mas a realidade é que Machado foi capaz de levar a lume composições das mais diversas facetas, desde a mutação de pequenos boatos em exageradas histórias de “Quem conta um conto” até viagens filosóficas, como a teoria humanitista de Quincas Borba.

Quincas Borba e o Nosferatu, de Edson Aran (Faria e Silva, 320 páginas)
Quincas Borba e o Nosferatu, de Edson Aran (Faria e Silva, 320 páginas)

É com essa deixa que começo a falar do romance “Quincas Borba e o Nosferatu”, de Edson Aran, que não deixa por menos o recurso a várias referências sobre a ideia central do humanitismo machadiano (a bem da verdade, quincasborbiano), segundo o qual o homem é o centro do universo e isso justifica toda sorte de crueldade necessária para atingir seus objetivos, afinal, “ao vencedor, as batatas!”

Na versão que Aran produz sobre Quincas Borba, o filósofo abre um “escritório de investigação filosófica”, no qual passa a contar, a partir de determinado momento, com o auxílio de seu amigo Brás Cubas, notadamente quando um certo Bento de Albuquerque Santiago o procura para descobrir se sua amada Capitu estava ou não o traindo.

E é assim, nesse clima de brotheragem, que Quincas, Brás Cubas e Bentinho passam a interagir pelas divertidas páginas do romance. Lembremos que a interação entre esse trio não ocorreu nas obras do Machado, portanto, é como se passássemos a presenciar diálogos imaginários entre aqueles personagens (reais ou fictícios) que sempre sonhamos terem um dia se encontrado — Cristo e Sócrates, Garrincha e Ronaldinho Gaúcho, Batman e Homem de Ferro, Donald Trump e Mahatma Gandhi etc.

Bem… nesse último caso antes do et cetera… melhor evitar a fadiga.

No caminho do realismo para a investigação do comportamento de dona Capitolina, todavia, entra em cena o fantástico, o sobrenatural: o Conde Vlad Tepes Drácula está radicado no Rio de Janeiro, onde o vampiro dava palestras defendendo sua linhagem transilvânica no Paço Imperial, local em que também se hospedava a convite do Conde d’Eu.

Entre palestras, mordidas e trapalhadas, o soturno estrangeiro chama a atenção de Capitu e Sancha, duas senhoras enfadadas com a rotina da maternidade e do casamento. Mas as atitudes suspeitas do nosferatu não passam despercebidas aos sentidos aguçados do esperto investigador filosófico.

Quincas passa, então, a correr atrás desse mistério e o que acontece, a partir daí, deve ser lido, já que a capacidade de fabular os sucessivos episódios que ocorrem na trama é realmente divertida e prende a atenção do leitor como poucos.

E não é só paródia: há diversas passagens com jogos de palavras e reflexões filosóficas, ainda que animadas pela ironia fina que caracteriza o estilo do escritor, que já nos brindou, por exemplo, com “Histórias Jamais Contadas da Literatura Brasileira” e “O Imbecilismo e Outros Textos de Humor”.

Também é importante frisar: não há meias palavras, pois o texto corre e nos apresenta personagens e situações sem rodeios ou pieguismos; não há platitudes ou falsas demonstrações de erudição; o autor nos remete ao riso sem culpa nos episódios de ação e à reflexão madura e sem moralismos nas passagens mais introspectivas.

Não há concessões à novilíngua que nos é empurrada com frequência pela nova moralidade e pelos gritos de ordem das agendas identitárias; os personagens são ambientados em sua época e vivem conforme seus costumes, sem qualquer revisionismo literário, somente a sátira leve que conforta o leitor e nos lembra de que já vivemos dias melhores que os atuais.

O desfecho tem reviravoltas (ou plot twists, se você é mais moderninho) e a obra é muito mais do que eficiente em seu propósito: divertir e provocar. Leia!

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