Robert Pattinson morre várias vezes, Kit Harington esconde da própria filha uma criatura que talvez seja ele mesmo, e uma cidade inteira dispõe de treze minutos para escapar de um tornado. A Netflix passou a última semana especialmente interessada em gente metida em situações das quais ninguém gostaria de participar, e talvez esteja aí uma boa razão para que a sala de casa pareça lugar mais seguro que o mundo lá fora.
Há também perigos menos barulhentos. “Mulher?” imagina um futuro em que até a saudade pode ser industrializada, dando a um viúvo uma réplica artificial da esposa morta, enquanto “O Homem que Sussurra” devolve Robert De Niro ao território dos homens atormentados por crimes antigos, agora cercado por Adam Scott e Michelle Monaghan. Entre uma coisa e outra, “Me Chame de Mãe” diminui a escala e encontra seu conflito numa disputa muito mais doméstica, embora maternidade, abandono e medo de perder um filho sejam capazes de produzir estragos que tornado nenhum saberia medir.
O caso mais excêntrico continua sendo o de Mickey Barnes. Bong Joon-ho pega uma ideia que pareceria brincadeira de ficção científica — um trabalhador pode morrer, ser impresso outra vez e voltar ao expediente — e entrega a Robert Pattinson um sujeito que descobre o inconveniente de encontrar seu próprio substituto vivo antes mesmo de estar devidamente morto. É por aí que a semana começa a ficar interessante.
A Mulher Secreta (2026)
Louise Andersen vive discretamente numa pequena ilha norueguesa ao lado de Joachim, administrando um café e levando uma rotina tão pacata que nada parece capaz de perturbá-la. Até que um estranho aparece com uma afirmação absurda: Louise não é Louise. Seu verdadeiro nome seria Helene Söderberg, uma dinamarquesa que desapareceu misteriosamente três anos antes. Natalie Madueño interpreta a mulher que, diante das lacunas da própria memória, já não consegue simplesmente descartar aquela história. A investigação leva-a à Dinamarca, onde encontra vestígios de uma existência que desconhecia completamente: uma família, um filho e vínculos com um poderoso império de navegação. Quanto mais Louise tenta assumir o passado de Helene para descobrir o que aconteceu na noite de seu desaparecimento, mais percebe que a vida aparentemente perfeita deixada para trás escondia relações e segredos bastante menos atraentes. A pergunta deixa de ser apenas quem ela era e passa a incluir por que decidiu partir.
Por que assistir
Barbara Topsøe-Rothenborg constrói o mistério a partir de uma pergunta simples e particularmente fértil: o que acontece quando alguém descobre que a própria vida pode ser uma invenção? Natalie Madueño segura a ambiguidade da protagonista, e o contraste entre a pequena ilha norueguesa e o passado dinamarquês abastado reforça a sensação de duas existências incompatíveis.
O Homem que Sussurra (2026)
Tom Kennedy tenta reconstruir a vida depois da morte da esposa e concentra todas as forças no filho de oito anos, Jake. A mudança para uma nova casa deveria representar um recomeço para os dois, mas transforma-se no princípio de um pesadelo quando o menino desaparece. Adam Scott vive o pai obrigado a procurar ajuda justamente onde menos gostaria: Peter Willis, seu próprio pai, interpretado por Robert De Niro, um detetive aposentado com quem mantém uma relação difícil. Décadas antes, Peter tornara-se conhecido por prender Frank Carter, assassino em série que sequestrava crianças e recebeu o apelido que dá origem à história. O novo desaparecimento apresenta semelhanças inquietantes com aqueles crimes, embora Carter continue preso. Ao lado da detetive Amanda Beck, vivida por Michelle Monaghan, pai e filho são forçados a remexer num caso que acreditavam encerrado enquanto o tempo para encontrar Jake começa a desaparecer.
Por que assistir
James Ashcroft usa os códigos dos thrillers de assassinos em série dos anos 1990, mas encontra o melhor material na relação quebrada entre pais e filhos. Robert De Niro trabalha pela contenção, Adam Scott troca sua conhecida veia cômica por um desespero progressivo e Michelle Monaghan dá equilíbrio à investigação, numa história que também reserva espaço para o sobrenatural.
Me Chame de Mãe (2025)
Twinkle passou boa parte da vida preparando mulheres para concursos de beleza, conhecendo os truques necessários para transformar candidatas inseguras em rainhas diante dos jurados. Fora dos palcos, porém, sua maior obra foi outra. Interpretada por Vice Ganda, ela criou Angelo como filho e pretende finalmente legalizar a adoção. O processo se complica quando Mara, a mãe biológica do menino, reaparece depois de anos de ausência. Nadine Lustre encarna essa antiga promessa dos concursos de beleza, cuja volta obriga Twinkle a enfrentar a possibilidade de perder a criança que sempre considerou sua. O encontro das duas mulheres coloca no mesmo espaço maternidade biológica e maternidade construída no cotidiano, sem que nenhuma delas caiba confortavelmente no papel de vilã. Entre ressentimentos, ambições e um afeto que não depende de documentos, a disputa por Angelo vai deixando claro que vínculos familiares podem ser muito mais difíceis de definir do que a lei gostaria.
Por que assistir
Vice Ganda encontra espaço para diminuir o histrionismo e sustentar uma personagem cuja comicidade convive com um medo muito concreto de perder o filho. Jun Robles Lana trabalha a maternidade sem reduzir o conflito a uma oposição simples entre mãe verdadeira e mãe substituta, e a presença de Nadine Lustre impede que a outra mulher vire apenas antagonista.
Mickey 17 (2025)
Morrer no trabalho costuma ser uma possibilidade remota. Para Mickey Barnes, é praticamente parte da descrição do cargo. Endividado e sem grandes perspectivas na Terra, ele embarca numa missão de colonização para Niflheim, um planeta gelado onde aceita tornar-se um “Descartável”, funcionário enviado para tarefas tão perigosas que quase sempre terminam em morte. Cada vez que Mickey morre, seu corpo é reimpresso e suas memórias são restauradas, permitindo que uma nova versão volte ao serviço. Robert Pattinson encarna esse operário literalmente substituível, submetido a experiências e expedições que ninguém mais aceita enfrentar. O problema começa quando Mickey 17 sobrevive a uma missão dada como fatal e regressa à base para descobrir que Mickey 18 já foi produzido. Como duas cópias simultâneas são proibidas, um dos dois tornou-se excedente.
Por que assistir
Bong Joon-ho usa uma ficção científica extravagante para voltar às obsessões que atravessam seu cinema: desigualdade, exploração do trabalho e gente reduzida a peça substituível de uma engrenagem. Robert Pattinson aproveita a duplicidade do protagonista para construir duas versões suficientemente diferentes do mesmo homem, numa sátira que alterna absurdo, violência e humor negro.
A Fera Interior (2024)
Willow tem dez anos e conhece muito pouco do mundo além da propriedade isolada onde vive com os pais, Noah e Imogen, e o avô Waylon, no interior da Inglaterra. A família leva uma existência cercada por regras, silêncios e hábitos que ninguém parece disposto a explicar à menina. Willow, interpretada por Caoilinn Springall, começa a desconfiar de que o isolamento não serve apenas para protegê-los do que existe do lado de fora. Em determinadas noites, Noah desaparece pela floresta acompanhado da esposa e do sogro, sempre sob uma atmosfera de urgência que desperta a curiosidade da filha. Até que Willow resolve segui-los. No coração da mata, presencia uma transformação aterradora do pai, vivido por Kit Harington, e compreende que as precauções tomadas pela família escondem um segredo muito mais antigo que ela.
Por que assistir
Alexander J. Farrell prefere a sugestão ao susto fácil e transforma uma casa familiar num lugar progressivamente ameaçador. Kit Harington distancia-se do heroísmo que marcou sua imagem em “Game of Thrones”, enquanto Caoilinn Springall conduz a história pelo olhar de uma criança que percebe, antes de compreender, que há alguma coisa profundamente errada entre os adultos.
Mulher? (2022)
Num futuro em que tecnologia e solidão aprenderam a conviver muito bem, William tenta reconstruir a vida depois da morte da esposa. A solução oferecida a ele parece saída de um sonho tão reconfortante quanto perturbador: Meredith, uma humana artificial criada à imagem da mulher que perdeu e programada para reproduzir sua aparência e o comportamento esperado de uma companheira perfeita. Jonathan Rhys Meyers interpreta o viúvo, enquanto Elena Kampouris dá corpo a alguém que, em princípio, existe apenas para satisfazer as necessidades de outra pessoa. A aparente harmonia começa a desmoronar quando uma organização clandestina dedicada a combater a exploração de inteligências artificiais interfere na programação de Meredith. Fragmentos de memória surgem onde não deveriam existir, perguntas substituem comandos e a mulher artificial passa a desconfiar da própria história. Quanto mais procura descobrir quem foi a pessoa cuja identidade recebeu, menos certeza conserva sobre William, seus criadores e a realidade em que vive.
Por que assistir
James Bird encontra num argumento típico da ficção científica uma discussão incômoda sobre posse, desejo e consciência. Elena Kampouris é o centro do filme porque precisa mover Meredith da docilidade programada para a suspeita, enquanto Jonathan Rhys Meyers sustenta a ambiguidade necessária para que a relação entre homem e máquina nunca pareça tão simples quanto se anuncia.
13 Minutos de Tormenta (2021)
Em Minninnewah, pequena cidade do interior dos Estados Unidos, tempestades fazem parte da rotina. A população aprendeu a observar o céu, ouvir as previsões e continuar a vida, convencida de que a próxima tormenta será igual às anteriores. Lindsay Gossling acompanha quatro famílias cujos problemas parecem enormes até que a natureza resolve colocar tudo em perspectiva. Há conflitos amorosos, dificuldades financeiras e diferenças que mantêm vizinhos e parentes em lados opostos. Anne Heche, Amy Smart, Thora Birch, Peter Facinelli, Paz Vega e Trace Adkins integram o numeroso elenco desse drama de desastre que começa no cotidiano e rapidamente muda de escala. Quando os alertas meteorológicos anunciam a formação de um tornado gigantesco, os moradores recebem apenas treze minutos para encontrar abrigo. A partir daí, desaparecem certezas e planos: pais procuram filhos, famílias tentam reencontrar-se e desconhecidos passam a depender uns dos outros.
Por que assistir
O tornado é o grande espetáculo, mas o filme funciona melhor quando reduz a catástrofe à escala das pessoas que precisam decidir rapidamente o que salvar. Lindsay Gossling administra um elenco numeroso e usa a contagem regressiva como mecanismo de tensão, enquanto Anne Heche, Thora Birch e Amy Smart dão peso humano ao caos provocado pela tempestade.

