Todos somos obrigados a atravessar desertos de mil solidões com o cansaço de nossas pernas, enfrentando os demônios que fazemos questão de alimentar. Se, por encanto, um novo raio de sol invade-nos o espírito obscuro, uma promessa de felicidade nos renova, e a certeza de um horizonte menos nebuloso é magia pura. Narrativas de mistério que transcorrem em ambientes restritos, confinando os personagens-suspeitos no mesmo espaço em que serão obrigados a conviver por um tempo muitas vezes indefinido, até que se esclareça o crime que os une, não são uma novidade. James Ashcroft não propõe nenhuma mudança no gênero, mas “O Homem que Sussurra” é um filme cheio de boas intenções num ritmo célere, distribuído em cenas entre lúgubres e poéticas. Medos, neuroses, desencontros, uma tentativa de redenção e pistas falsas de um crime que vão se acumulando enchem os 111 minutos de uma história plena de circunvoluções, mas que também sabe ser bem direta e bem persuasiva.
Medos públicos em lugares privados
Tom Kennedy já cruzou uma fronteira e está prestes a atravessar outra. Tom nunca pensou viver nada parecido aos romances policiais que escreve, mas seu filho de oito anos desaparece e agora ele precisa recorrer ao pai, um velho detetive aposentado, se quiser ter algum indício do paradeiro da criança. Décadas antes, Peter colocou na cadeia o Homem que Sussurra, um assassino em série que impressionou a polícia pela violência e pelo talento de não ser notado, e agora seus métodos inspiram o novo bandido. Tom e Peter nunca foram exatamente próximos, mas a relação degringolou com a morte da mãe e esposa, ponto que Ashcroft esmiúça com as boas atuações de Adam Scott e Robert De Niro. Os roteiristas Ben Jacoby e Chase Palmer, por seu turno, usam o livro de mesmo nome de Alex North, de 2019, para chegar a um melodrama enxuto, adequado ao que se tem no desfecho.

