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Habitam no mais fundo de cada um os monstros pequenos e grandes de que estamos sempre a fugir e que sempre terminam por nos encontrar, mormente quando pensávamos já tê-los sob controle. Nem todos conseguem usufruir do grande privilégio de dar-se conta de que a vida é exatamente o que se desejava, que não há razão para mudanças, que todos os momentos de brandura vieram depois de uma sequência de escolhas felizes. Além de um espírito inquebrantável, precisa-se ter disposição para reescrever a própria história, desta vez com as tintas quentes da coragem, torcendo para que a sorte valorize o esforço. Emoções discrepantes coroam um verdadeiro enigma em “A Mulher Secreta”, e a partir desse argumento a dinamarquesa Barbara Topsøe-Rothenborg conduz um enredo pleno de reviravoltas cujo ponto inicial custa a se deixar conhecer. Ela acerta em mantê-lo assim.

Uma vida (quase) perfeita

Louise Andersen vive um sonho. Ela e o parceiro, Joachim, são donos de um café em Hidra, uma ilha com cerca de seiscentos habitantes no sul da Noruega, não têm preocupações nem maiores anseios e ostentam a felicidade que aquele paraíso lhes inspira. Ninguém duvida que eles continuarão nessa aura de idílio para sempre, até um cliente encarar Louise, como se a conhecesse bem, quiçá de outra vida, e ir cumprimentá-la. Baseado no romance de mesmo nome lançado em 2017 por Anna Ekberg, pseudônimo da dupla de escritores policiais dinamarqueses Jacob Weinreich e Anders Rønnow Klarlund, o roteiro de Klarlund e Anders Frithiof August mira essa tal mulher secreta, revelando que Louise é, na verdade, Helene Söderberg, herdeira de um estaleiro na Dinamarca e desaparecida pouco depois da morte do pai. Topsøe-Rothenborg costura os acontecimentos esdrúxulos por trás da metamorfose de Helene, incluindo uma temporada como prostituta, e vai subindo o tom, até que as máscaras caiam. Com uma atuação segura, Natalie Madueño garante que as tantas revelações soem naturais e, mais importante, mostra-se hábil em marcar a instabilidade de alguém que perdeu-se de si.


Filme: A Mulher Secreta
Diretor:
Ano: 2026
Gênero: Drama/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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