Poppy e Alex cometeram um erro muito comum entre pessoas que gostam demais uma da outra. Resolveram chamar aquilo de amizade. O nome é confortável, diminui expectativas, permite que um telefone fique semanas sem tocar e ainda oferece uma explicação razoável para viagens em dupla, conversas madrugada adentro, intimidades que namorado algum aceitaria sem alguma suspeita e uma saudade que ninguém admite porque, afinal, amigos sentem saudade. “De Férias com Você”, adaptação do romance de Emily Henry dirigida por Brett Haley, trabalha durante quase duas horas em cima dessa mentira consensual, e seria preciso um milagre para o espectador não saber desde o início onde ela vai terminar. A graça, portanto, teria de estar no caminho.
Poppy é movimento. Alex é permanência. Ela gosta da sensação de chegar a um lugar onde ninguém a conhece; ele parece mais interessado naquele ponto do mapa em que pode deixar os sapatos no mesmo canto todos os dias. Emily Bader e Tom Blyth recebem personagens construídos para a velha fórmula dos opostos que se atraem, porém Haley tenta suavizar o mecanismo deixando que eles primeiro aprendam a ser amigos, ou imaginem que aprenderam.
Os dois se conhecem ainda jovens e, de algum modo, instituem um pacto. Uma vez por ano, farão uma viagem juntos. Não importa o que esteja acontecendo nas respectivas vidas, haverá aquele período em que poderão escapar da rotina e voltar a ser a versão de si mesmos que só existe na presença do outro. A ideia é boa porque férias são um território onde quase todo mundo mente um pouco a respeito de si. Vestimos roupas diferentes, comemos coisas que não comeríamos em casa, gastamos dinheiro que fingimos não fazer falta e durante alguns dias acreditamos que aquela criatura bronzeada e sem compromissos é nossa verdadeira personalidade.
As férias como pacto
Poppy torna isso profissão, ou quase. Ela deseja o mundo. Alex deseja um lugar.
Brett Haley percorre os anos dessa amizade sem muita pressa, usando as viagens como marcações do tempo e como pequenos laboratórios do casal que ainda não se sabe casal. Há uma vantagem evidente nessa estrutura. Em vez de acompanhar apenas o nascimento de uma paixão, “De Férias com Você” precisa convencer que existe ali uma história compartilhada, feita de piadas cujo significado só os dois conhecem, irritações antigas, pequenas concessões, namorados que entram e saem, expectativas engavetadas. Não basta que Poppy e Alex se achem bonitos. Eles precisam carregar no corpo a memória um do outro.
É justamente aí que o filme oscila.
Emily Bader injeta em Poppy uma energia quase excessiva, coerente com a mulher que prefere qualquer aeroporto a uma tarde imóvel em casa. A personagem fala muito, ocupa espaço e transforma desconforto em brincadeira, como fazem as pessoas que intuem ser perigoso ficar em silêncio tempo demais. Blyth segue por uma trilha mais contida. Seu Alex parece ter concluído bem cedo que desejar menos é uma boa estratégia para sofrer menos, e o ator mantém essa reserva mesmo nas cenas em que o roteiro exige dele um arrebatamento maior.
Essa diferença produz bons momentos, embora nem sempre produza química. Há instantes em que Poppy e Alex parecem, de fato, duas pessoas que passaram anos construindo uma intimidade sem sexo. Em outros, soam como colegas escalados para interpretar um casal que ainda não sabe que é casal. Para uma comédia romântica, esse é um problema sério.
Talvez Emily Henry tenha concebido a equação mais facilmente no papel. Na literatura, basta que alguém pense uma frase errada sobre o amigo para que o leitor entenda o tamanho da confusão. No cinema, o desejo precisa aparecer em alguma parte do corpo, mesmo quando os personagens não o confessam. Um olhar que permanece, uma aproximação interrompida, a irritação desproporcional com um novo parceiro. Haley encontra alguns desses momentos, mas perde outros em meio à obrigação de percorrer tantos anos e tantos destinos.
Ainda assim, há alguma inteligência na maneira como “De Férias com Você” desmonta aos poucos o romantismo das próprias viagens. Poppy corre o mundo porque ama viajar, claro, mas também porque um lugar novo nunca teve tempo suficiente para decepcioná-la. Alex permanece perto de suas raízes porque aprecia estabilidade, mas talvez também porque estabilidade seja o nome socialmente aceito do medo. Os dois passam anos admirando no outro precisamente aquilo que não conseguem suportar em si mesmos.
Quando a ausência começa a falar
A amizade funciona enquanto não lhes exige escolha.
Quando um acontecimento os afasta, a ausência passa a dizer o que nenhum deles teve coragem de dizer enquanto viajavam juntos. Poppy continua sendo Poppy, Alex continua sendo Alex, só que as férias perdem parte do sentido. O filme então faz aquilo que toda comédia romântica desse tipo precisa fazer e os aproxima outra vez, dando-lhes uma última oportunidade de descobrir se aquela história era mesmo feita de companheirismo ou se os dois desperdiçaram uma década procurando em outras pessoas o que levavam na mala desde o início.
Há coadjuvantes mais interessantes do que o espaço que recebem, sobretudo porque relações longas nunca existem isoladas. Amigos e parentes veem o óbvio antes dos apaixonados, uma convenção milenar da comédia que funciona porque também é verdade. Quando essas figuras entram, “De Férias com Você” ganha ar e humor; quando desaparecem para que Poppy e Alex tornem a discutir o que não conseguem nomear, a narrativa ameaça girar no mesmo lugar.
Haley parece saber que o público não exige surpresa. Quer apenas acreditar.
É esse o contrato secreto das boas comédias românticas. Ninguém entra para descobrir se os dois terminarão juntos, da mesma forma que ninguém compra uma passagem de férias esperando saber se o avião chegará ao destino. Queremos apreciar a viagem. “De Férias com Você” não encontra sempre as melhores paisagens, alonga algumas escalas e demora um pouco mais do que deveria para deixar seus protagonistas fazerem aquilo que todo mundo já compreendeu, mas Bader e Blyth conseguem manter a torcida.
Poppy passou anos colecionando lugares. Alex, anos tentando não sair do lugar. Talvez por isso precisassem viajar tanto para descobrir uma coisa bastante simples. A casa de um podia estar no outro.

