Discover

Em “Persuasão”, Anne Elliot (Dakota Johnson) reencontra na Inglaterra o homem que rejeitou oito anos antes por pressão familiar. Agora rico e respeitado, o capitão Frederick Wentworth (Cosmo Jarvis) volta à vida da antiga noiva quando a família dela está endividada e prestes a deixar sua propriedade. Dirigida por Carrie Cracknell, a adaptação do romance de Jane Austen acompanha uma mulher dividida entre o arrependimento, as convenções sociais e a possibilidade de recuperar um amor que parece ter seguido adiante.

Anne vive em Kellynch Hall com o pai, Sir Walter Elliot (Richard E. Grant), e a irmã mais velha, Elizabeth Elliot (Yolanda Kettle). Os dois dedicam bastante tempo à aparência, ao prestígio e às vantagens de um bom sobrenome. O dinheiro, porém, está acabando. Sir Walter precisa alugar a propriedade e mudar-se para Bath, embora continue agindo feito um aristocrata cuja maior preocupação seja encontrar alguém suficientemente bonito para merecer sua companhia.

A situação financeira abre caminho para o retorno de Wentworth. Kellynch Hall é alugada ao almirante Croft (Stewart Scudamore) e à esposa, parentes do oficial. O capitão regressa à região com fortuna, reconhecimento profissional e ótimas perspectivas de casamento. Anne, por sua vez, ainda carrega o peso da escolha feita na juventude, quando aceitou o conselho de Lady Russell (Nikki Amuka-Bird) e rompeu o noivado porque Wentworth não tinha dinheiro nem posição social.

O antigo amor volta diferente

Quando se apaixonou por Wentworth, Anne era muito jovem e dependia da aprovação da família. Lady Russell, amiga de sua mãe falecida, considerou o casamento arriscado e convenceu a moça a desistir. O oficial partiu ressentido, entrou para a Marinha e construiu uma carreira bem-sucedida. Oito anos depois, ele retorna com tudo o que os Elliot julgavam indispensável, mas já não demonstra a mesma disposição para confiar em Anne.

O reencontro acontece na casa de Mary Musgrove (Mia McKenna-Bruce), irmã mais nova da protagonista. Mary é casada, confortável e dona de uma capacidade admirável para transformar pequenos incômodos em crises familiares. Anne costuma cuidar dela, dos sobrinhos e de qualquer problema que os parentes prefiram colocar em suas mãos. Essa disponibilidade faz da personagem uma presença útil para todos, embora quase ninguém lhe pergunte o que deseja.

Wentworth passa a frequentar a casa dos Musgrove e desperta o interesse de Louisa Musgrove (Nia Towle). Jovem, animada e espontânea, Louisa oferece ao capitão uma companhia livre das mágoas antigas. Anne acompanha a aproximação dos dois enquanto tenta preservar a elegância. Ela ainda ama Wentworth, mas não sabe se ele voltou apenas indiferente ou disposto a exibir o quanto sua vida prosperou depois da rejeição.

Anne divide seus segredos

Carrie Cracknell apresenta Anne como uma mulher espirituosa, irônica e muito próxima do público. Dakota Johnson olha para a câmera, comenta o comportamento dos parentes e compartilha lembranças que não consegue revelar aos demais personagens. O recurso cria intimidade e deixa a história mais acessível, principalmente para quem costuma manter certa distância dos romances de época.

A protagonista também bebe vinho, faz comentários mordazes e reage às inconveniências familiares com uma expressão que dispensa palavras. Algumas passagens são genuinamente divertidas. Richard E. Grant aproveita a vaidade de Sir Walter e entrega um homem convencido de que beleza e posição social deveriam resolver qualquer dívida. Mia McKenna-Bruce dá a Mary uma irritação permanente, dessas capazes de esgotar uma sala antes mesmo do chá.

Essa atualização, porém, cobra um preço. A Anne escrita por Jane Austen guarda sentimentos que as regras sociais obrigam a permanecer escondidos. A versão de Dakota Johnson fala com tanta liberdade ao espectador que parte dessa contenção desaparece. Ela parece segura, perspicaz e consciente das fraquezas ao redor, o que torna mais difícil acreditar que ainda esteja presa à opinião de pessoas tão superficiais.

Um segundo pretendente surge

A mudança para Bath apresenta outro caminho à protagonista. William Elliot (Henry Golding), primo de Anne e herdeiro das propriedades da família, reaparece bonito, rico e interessado nela. O sobrenome agrada a Sir Walter, enquanto a fortuna oferece a segurança que os Elliot perderam. Para Anne, a aproximação representa uma escolha confortável, embora envolva aceitar um homem cujas intenções permanecem difíceis de decifrar.

Henry Golding interpreta William com simpatia e uma dose discreta de desconfiança. O personagem sabe conversar, elogia Anne e ocupa o espaço deixado pela frieza de Wentworth. A presença dele também estabelece uma disputa amorosa sem transformar a protagonista em simples prêmio. Anne observa os dois homens enquanto tenta descobrir quanto de sua decisão pertence ao presente e quanto ainda nasce da culpa por ter obedecido à família.

Cosmo Jarvis compõe Wentworth com rigidez e ressentimento. O capitão fala pouco sobre a antiga relação, mas sua distância deixa Anne insegura. Há afeto escondido sob a educação formal, embora o personagem proteja os próprios sentimentos com uma seriedade que às vezes esfria o romance. Dakota Johnson sustenta a ligação entre os dois por meio dos olhares e dos silêncios, mesmo quando o roteiro prefere uma frase moderna à delicadeza de uma hesitação.

Uma Austen mais próxima do presente

“Persuasão” mistura romance, drama familiar e comédia de costumes em uma adaptação assumidamente contemporânea. As roupas, as casas de campo e os salões pertencem ao século 19, enquanto a linguagem busca familiaridade com o público atual. Esse contraste oferece leveza, mas também cria passagens que parecem deslocadas do universo de Austen.

O enredo permanece fácil de acompanhar. Anne rejeitou Wentworth porque foi persuadida a acreditar que ele não oferecia segurança. Quando os dois voltam a conviver, ele possui dinheiro, prestígio e outras pretendentes. Ela precisa decidir se ainda há espaço para uma segunda chance, enquanto a família, Lady Russell e William Elliot apresentam caminhos mais convenientes.

Carrie Cracknell acerta ao preservar a inteligência de Anne e o desconforto de viver cercada por parentes autocentrados. Richard E. Grant e Mia McKenna-Bruce tornam esse ambiente mais divertido, enquanto Nikki Amuka-Bird oferece humanidade a Lady Russell. A personagem aconselhou Anne de maneira desastrosa, mas não é tratada como vilã. Sua interferência nasceu dos valores e receios de uma sociedade em que um casamento ruim poderia comprometer toda a vida de uma mulher.

“Persuasão” perde parte da tristeza silenciosa do livro ao aproximar Anne de uma heroína romântica moderna. Ainda assim, a história mantém sua força porque fala sobre escolhas feitas sob influência alheia e sobre o constrangimento de reencontrar alguém que conheceu nossa versão mais insegura. Entre jantares desconfortáveis, parentes vaidosos e pretendentes bem vestidos, Anne tenta recuperar o direito de escolher por conta própria. A segunda chance depende de sua coragem para falar antes que Wentworth volte ao mar.


Filme: Persuasão
Diretor: Carrie Cracknell
Ano: 2022
Gênero: Comédia/Drama/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

Leia Também