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Em 2024, S.J. Clarkson levou aos cinemas “Madame Teia”, suspense de ação ambientado em Manhattan, com Dakota Johnson no papel de Cassandra Webb, uma paramédica que descobre a capacidade de prever acontecimentos próximos. O filme acompanha essa mulher acostumada a salvar vidas no asfalto de Nova York quando ela passa a enxergar acidentes antes que eles aconteçam. O problema é que esse poder chega sem manual, sem pausa para café e sem qualquer gentileza com a agenda de quem trabalha em ambulância.

A história começa com Cassie Webb (Dakota Johnson) em uma rotina de emergência, ao lado do colega Ben Parker (Adam Scott). Ela atende chamados, circula pelas ruas da cidade e parece mais interessada em cumprir o plantão do que em descobrir qualquer grande destino. Após um acidente durante uma ocorrência, Cassie começa a viver episódios estranhos. Ela antecipa perigos, volta a situações que ainda não terminaram e percebe que pequenas escolhas podem salvar alguém por uma diferença mínima de tempo.

Esse ponto de partida dá ao filme sua melhor ideia. Cassie não acorda empolgada com os poderes. Ela fica desconfiada, irritada e, em muitos momentos, quase ofendida por ter sido escolhida para algo tão complicado. Dakota Johnson interpreta a personagem com uma secura curiosa, entre o cansaço profissional e a surpresa de quem gostaria apenas de terminar o expediente sem precisar decifrar o futuro. A graça involuntária está aí. Cassie age como alguém que recebeu uma missão cósmica, mas ainda tem expressão de quem só queria sentar em silêncio por cinco minutos.

Três garotas em perigo

A vida da paramédica muda de vez quando ela cruza o caminho de três jovens que não sabem estar na mira de um homem perigoso. Julia Cornwall (Sydney Sweeney), Anya Corazón (Isabela Merced) e Mattie Franklin (Celeste O’Connor) aparecem como adolescentes comuns, cada uma com seu jeito e suas urgências, até virarem alvo de Ezekiel Sims (Tahar Rahim). Ele também tem ligação com visões do futuro e acredita que as três garotas representam uma ameaça ao seu próprio destino.

A partir desse encontro, “Madame Teia” assume a forma de uma perseguição. Cassie precisa manter Julia, Anya e Mattie vivas, embora nenhuma delas compreenda direito o motivo do perigo. As jovens não têm treinamento, não têm poderes em uso e não possuem qualquer preparo para lidar com um perseguidor que parece sempre chegar um passo antes. Essa escolha torna o filme menos interessado na glória super-heroica e mais atento à fuga, ao improviso e ao medo de estar no lugar errado na hora errada.

O vínculo entre Cassie e as três garotas nasce torto, o que favorece o tom da história. Ela não é uma mentora calorosa, tampouco parece pronta para discursos inspiradores. Cassie dá ordens, perde a paciência, tenta explicar o inexplicável e ainda precisa convencer as jovens de que suas visões não são delírio. Julia, Anya e Mattie reagem com espanto, irritação e desconfiança, algo bastante razoável quando uma desconhecida surge dizendo que o futuro acabou de colocar todas na lista de prioridades de um assassino.

O vilão que teme o amanhã

Ezekiel Sims (Tahar Rahim) é o motor da ameaça. Ele não persegue as garotas por acaso, nem age por impulso. O personagem teme aquilo que viu no futuro e decide atacar antes que qualquer uma delas possa se tornar poderosa. Essa inversão dá um aspecto interessante ao suspense. O perigo não vem de algo que as jovens fizeram, mas do que um homem acredita que elas ainda farão.

Tahar Rahim interpreta Ezekiel com rigidez e frieza, embora o roteiro não entregue ao vilão a mesma complexidade que promete. Ele tem função bem definida, coloca a história em movimento e cria pressão sobre Cassie, mas poderia ganhar mais camadas. Ainda assim, sua presença ajuda a manter a urgência. Cada aparição dele encurta o espaço de segurança das personagens e obriga Cassie a usar suas visões de maneira mais ativa.

O filme funciona melhor quando transforma a previsão do futuro em ferramenta de sobrevivência. Cassie enxerga um acidente, uma abordagem ou uma ameaça e precisa reagir antes que o evento aconteça. Nem sempre a visão vem completa. Às vezes, ela recebe apenas fragmentos, detalhes soltos, sinais de que algo está prestes a sair do controle. Isso cria bons momentos de suspense, pois a personagem trabalha com informação incompleta enquanto o tempo corre contra ela.

O passado entra na história

A investigação pessoal de Cassie também ganha espaço. Ao tentar compreender seus poderes, ela se aproxima de revelações sobre sua mãe, Constance Webb (Kerry Bishé), e sobre uma pesquisa ligada a aranhas raras. Essa parte do enredo leva “Madame Teia” para um terreno mais próximo da origem mítica de super-heróis, com explicações sobre nascimento, herança e destino. O filme quer costurar a vida atual de Cassie a algo anterior a ela, mas nem sempre dá peso suficiente a essas descobertas.

É nesse trecho que a produção mais oscila. A premissa tem potencial, pois liga o dom da protagonista a uma história familiar mal resolvida, mas algumas informações surgem de forma apressada. Em vez de deixar a descoberta crescer com mais tensão, o roteiro às vezes entrega respostas em falas que parecem querer resolver assunto demais em pouco tempo. O resultado não destrói a experiência, mas tira parte da força emocional que a origem de Cassie poderia alcançar.

Ainda assim, há algo simpático na maneira como “Madame Teia” tenta se afastar do modelo mais barulhento dos filmes de super-herói. A ação existe, as perseguições aparecem e o perigo é constante, mas a protagonista não veste um uniforme para provar grandeza. Cassie passa boa parte da história tentando manter quatro pessoas vivas, incluindo ela mesma. É uma missão modesta apenas na aparência, porque cada erro pode entregar as garotas a Ezekiel.

Uma aventura de fuga

S.J. Clarkson usa as visões de Cassie para brincar com tempo, repetição e antecipação. Quando a cena mostra uma ameaça antes de ela acontecer, o filme ganha ritmo de suspense. A pergunta deixa de ser apenas quem será atacado e passa a ser quanto tempo Cassie tem para mudar o resultado. Esse recurso rende bons instantes, especialmente quando a protagonista precisa agir sem conseguir explicar tudo às jovens ao redor.

O problema é que “Madame Teia” nem sempre sustenta essa tensão com a mesma firmeza. Algumas cenas de ação perdem nitidez, e certos diálogos soam mais explicativos do que naturais. Também falta ao filme um pouco mais de ousadia para aprofundar Julia, Anya e Mattie além da condição de garotas protegidas. Sydney Sweeney, Isabela Merced e Celeste O’Connor têm presença e carisma, mas poderiam receber conflitos mais fortes antes de seus destinos grandiosos entrarem em cena.

Mesmo com tropeços, “Madame Teia” possui um ponto de vista interessante dentro do universo dos heróis ligados à Marvel. O longa prefere acompanhar uma mulher assustada, irônica e pouco preparada para a própria missão, em vez de apresentar uma salvadora pronta. Cassie Webb não domina o futuro com elegância. Ela erra, improvisa, se irrita e segue em frente porque não há outra escolha aceitável quando três jovens dependem de sua visão.

O filme vale mais pela proposta de suspense do que pela grandiosidade da aventura. Quando aposta na perseguição, na urgência e no desconforto de Cassie diante do próprio poder, “Madame Teia” ganha personalidade. Quando tenta explicar demais sua mitologia, perde parte do frescor. Ainda assim, a figura de Dakota Johnson segurando o caos com cara de poucos amigos dá ao longa uma energia peculiar. No meio de tanto destino anunciado, ela parece a única pessoa honesta o bastante para admitir que salvar o mundo também pode ser uma enorme dor de cabeça.


Filme: Madame Teia
Diretor: S.J. Clarkson
Ano: 2024
Gênero: Ação/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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