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Há dois filmes lançados nos últimos anos que conversam entre si de maneira inesperada e mostram a dureza da vida contemporânea. O romeno “Não Espere Muito do Fim do Mundo” (2023), de Radu Jude, e o alemão “Toni Erdmann” (2016), de Maren Ade, escolhem a Romênia como cenário para observar esse mundo que perdeu as promessas de futuro. Em ambos, aquele país ocupa uma posição periférica na Europa e é o espaço onde os rastros do passado comunista convivem com a brutalidade do capitalismo.

O que emerge nos dois filmes não é uma narrativa sobre transições históricas bem-sucedidas. Aparece mais a sensação de que o tempo mudou de forma, sem alterar a experiência cotidiana da sobrevivência e brutalidade. A violência se manifesta nas mínimas coisas do dia a dia.

Radu Jude é um dos diretores mais estranhos da atualidade. Em “Não Espere Muito do Fim do Mundo”, disponível no Mubi, ele constrói uma das obras mais elucidativas a respeito da vida contemporânea. As imagens em preto e branco produzem uma sensação constante de irrealidade, perfeitamente ajustada às situações por vezes delirantes que atravessam o filme.

A história acompanha Ângela (interpretada por Ilinca Manolache) desde o momento em que acorda. A câmera entra em seu dia sem preparação e apenas acompanha seu ritmo. Ela é uma motorista, prestadora de serviço, e passa o tempo inteiro dirigindo pelas ruas congestionadas da capital Bucareste. Sua tarefa naquele dia específico é recolher depoimentos para uma empresa austríaca que pretende produzir um vídeo institucional sobre segurança do trabalho.

A narrativa é essa sucessão de visitas que ela faz aos personagens vítimas de acidentes de trabalho. Cada um fala de sua própria vida, seu acidente. Nesses relatos, aparecem lado a lado a Romênia comunista e a posterior ao comunismo. São dois mundos que nunca chegaram a se encaixar e que revelam como pouca coisa realmente melhorou.

Nos intervalos dessa rotina, Ângela grava vídeos para TikTok e Instagram. Utilizando um filtro, ela cria Bobita, um personagem machista e misógino que reproduz exatamente a linguagem dominante nas redes sociais: violência, supremacia masculina e todo o lixo discursivo que circula continuamente nos meios digitais. Ela monetiza esse personagem, porque Bobita faz parte desse universo que se espalha sem fronteiras.

Presente infernal

O filme de Jude introduz ainda outro movimento. Intercala a história da Ângela atual com cenas de um filme produzido durante o período comunista, também protagonizado por uma motorista chamada Ângela. O encontro entre essas duas personagens na coleta para o vídeo institucional estabelece um diálogo entre passado e presente. O contraste é simples. Se a vida não era boa sob o comunismo, tampouco melhorou com o capitalismo.

Não Espere Muito do Fim do Mundo
Não Espere Muito do Fim do Mundo: o filme expõe a exaustão e o absurdo da vida na Romênia pós-comunista

O pós-comunismo é um desastre silencioso, construído pela justaposição das imagens. Daí vem o título do filme. Não se deve esperar muito do fim do mundo porque o próprio fim parece incapaz de produzir alguma transformação. Os romenos vivem uma situação infernal, e dela não surge nenhuma redenção. Também não há qualquer expectativa em relação ao capitalismo que sucedeu o regime totalitário.

A narrativa criada por Jude avança numa sequência de pequenos fragmentos. Poderiam ser cortes de internet, stories, reels ou vídeos de TikTok. Tudo acontece rapidamente, muitas vezes de maneira hilariante, sem que uma cena precise explicar a outra.

Uma das sequências mais reveladoras ocorre quando Ângela busca no aeroporto a diretora austro-alemã da empresa para a qual trabalha. Descendente de Goethe, a executiva traz consigo o peso da cultura europeia. A conversa entre elas revela apenas preconceitos, ressentimentos e tensões históricas que atravessam aquela região marcada pelas guerras e pelo lugar onde nasceu o nazismo. O encontro evidencia o choque entre o centro europeu e uma Romênia periférica.

A filmografia de Radu Jude insiste justamente nessa degradação da experiência cotidiana, sobretudo europeia. Não há teses grandiosas, apenas a exposição do mundo inviável e fora dos eixos. A sequência do empreendimento imobiliário construído sobre um antigo cemitério é, ao mesmo tempo, hilariante e deprimente. Seria apenas esse capitalismo o que vem depois do fim do mundo?

O dia de cão de Ângela (trânsito, trabalho precário, visitas surreais para gravar um vídeo publicitário, a convivência permanente entre passado e presente) transforma-se num retrato da vida contemporânea. Restaram apenas imagens de redes sociais, exaustão, memória comunista e promessas capitalistas que nunca chegaram. É justamente nesse ponto que “Toni Erdmann” conversa com “Não Espere Muito do Fim do Mundo”.

Espírito animal

No filme alemão, a consultora Inês (interpretada por Sandra Hüller) recebe um elogio do chefe depois de apresentar um plano de demissões em massa para uma empresa de petróleo instalada justamente na Romênia. “Você é um animal”, diz ele. Pouco antes, seu pai Winfried (feito por Peter Simonischek) havia formulado uma pergunta despretensiosa e decisiva: “Você é um humano?”. Nessas duas frases, está a questão central do filme.

Toni Erdmann
Toni Erdmann transforma o choque entre afeto e lógica empresarial numa sátira da Europa contemporânea.

Na cabeça globalizada de Inês, o espírito animal governa a economia e a própria existência de uma cidadã dita civilizada. O mundo dos negócios exige eficiência, desempenho e capacidade permanente de adaptação. Isso tudo ela cultiva. Também aqui a Romênia surge como palco onde convivem a brutalidade dos novos ricos e as marcas persistentes do passado comunista.

Winfried representa a tentativa de romper essa lógica. Com piadas, gestos absurdos e um humor deslocado, ele inventa o personagem Toni Erdmann, que é uma boia de salvação para resgatar a humanidade da filha. Existe um tom pedagógico em sua insistência com a filha. Aos poucos, Inês cede aos pequenos desvios do comportamento estimulados pelo pai. São justamente os momentos aparentemente sem sentido que a tornam novamente humana: a cena do canapé com o namorado, a interpretação de uma música de Whitney Houston, a festa surreal que encerra o filme.

Em determinado momento, Inês pergunta diretamente ao pai qual é o propósito de sua vida. Para ela, o sentido de uma existência parece residir apenas na engrenagem da globalização econômica. Para Winfried, ele está nos pequenos instantes do presente.

Os personagens vivem como se aguardassem alguma coisa que jamais acontece — quem sabe um depois do fim do mundo. Esperam, na verdade, um nada produzido pela Europa posterior à crise de 2008. Se ainda existe alguma possibilidade de humanidade, sinaliza o filme, ela sobrevive apenas nos devaneios, nos absurdos e nos momentos em que a lógica econômica deixa de organizar completamente a experiência.

Na cena final, Inês coloca a dentadura utilizada pelo pai em suas brincadeiras e veste um chapéu estranho. Torna-se uma figura semelhante a uma personagem saída das peças de Samuel Beckett. Inês e Winfried assumem as figuras de clowns beckettianos perguntando, cada um à sua maneira, o que ainda se pode esperar da vida.

Talvez a resposta esteja justamente naquilo que Radu Jude sugere desde o título de seu filme. Não se deve esperar muito do fim do mundo. Nem do fim do comunismo. Nem da promessa capitalista que veio depois. Como observa Wolfgang Streeck, nos resta apenas comprar tempo. Ganhar tempo. Sobreviver enquanto o fim não chega. Antes disso, permanece a brutalidade do mundo do dinheiro, que compra mais tempo e alimenta (ou anestesia) as infelicidades.

Enio Vieira

Jornalista, mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília (UnB) e consultor na área de comunicação.

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