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Mente-se muito. Os escritores, por exemplo. Não. Escritores não mentem. Ao menos, não deveriam. Escritores inventam. É diferente. Escritores criam histórias a partir de inspirações repentinas ou de ideias perseguidas a ferro e a fogo. Ainda mais comum, observam, apreendem, anotam situações cotidianas que se transformam em valiosa matéria-prima para o processo criativo. Tudo, absolutamente tudo o que acontece — e até mesmo o que não acontece — na vida real vira pano pra manga a quem escreve.

É tudo verdade. Foi o Paulo quem me contou. Paulo é um setentão gente-fina. Moramos no mesmo condomínio de casas. Procurou-me logo pela manhã.

— Já soube da última, doc?

— Tô sabendo não, Paulo. O que houve?

— Um sujeito entrou lá em casa essa noite.

— Tá de brincadeira.

— Antes fosse, doc.

— Machucou vocês? Levou alguma coisa?

— Não ouviu o alvoroço das motos e da viatura policial aqui na porta de casa? Eram duas da matina.

— Não ouvi nada, Paulo.

— Soninho pesado, hein, doc?

— Desculpe. Você devia ter me ligado. Ou gritado. Sei lá. Eu teria acudido na hora.

— Relaxa, doc.

— Prenderam o meliante?

— Prenderam nada. Vou te contar. No meio da madrugada, a Paulinha entrou no meu quarto e disse pai tem alguém lá embaixo.

— Puta merda.

— Foi o que pensei. Perguntei se ela tinha certeza, se não era o Poliglota que estava fuçando nas coisas. Ela disse não, que não era o pulgolino. Então, me puxou pelo braço e descemos a escada na ponta dos pés, devagarinho.

— Que medo, Paulo.

— As luzes do térreo estavam todas acesas. Quis saber se a Paulinha não tinha esquecido de apagar quando subiu. Ela disse pai olha lá não tá vendo tem um homem na nossa sala. E tinha mesmo.

— Puta que pariu.

— Não tinha nem um porrete pra eu dar no cara, pra me defender. Mesmo assim, eu encarei. Pulei em cima do invasor, mais rápido do que o evacuar de um frango.

— Não acredito que você fez isso, Paulo. Na sua idade. Ficou doido? Podia ter tomado um tiro. Ou uma facada, sei lá.

— Podia mesmo, doc. Mas, enfim, agora já foi. Na hora do sufoco, a gente não pensa nas consequências. Segurei ele firme, por trás, e tombamos no assoalho. Nisso, a mulherada lá de casa aprontou um berreiro danado. Fico admirado de você não ter escutado a fuzarca, doc.

— Que vergonha. Sinto muito, Paulo.

— Esquenta não. Arranjando forças, sei lá de onde, virei o sujeito de barriga pra cima e montei sobre ele como se fosse um cavalo.

— Que loucura, Paulo.

— Nesse ínterim, a Paulinha ligou na recepção para avisar o povo.

— Teve luta corporal, Paulo?

— Doc, ele era um senhorzinho. Um homem franzino, bem mais velho do que eu.

— Não acredito.

— Juro. Em tempo de quebrar os ossos do pobre diabo. Falei pra ele ficar quietinho, que a polícia estava chegando e ia ajeitar as coisas.

— Tenso.

— O velhinho desandou a falar. Não dizia coisa com coisa. Falou que tinha ido buscar sal pro gado. Doc, ele fuçou em tudo. Mexeu na despensa e pegou um saco de gesso em pó que tinha sobrado da reforma. Disse que aquilo era sal. Que ia colocar no cocho pro gado lamber. Perguntou onde é que tava a Maria.

— Que Maria?

— Sei lá que Maria. Provavelmente, a esposa. Logo percebi que o velhinho era tantã. A casa ficou toda revirada, um verdadeiro peteco. Até na bolsa da Dora o danado mexeu, largando tudo jogado sobre a mesa, inclusive o dinheiro.

— Então, não era um ladrão?

— Exato. Botei ele sentado numa cadeira e fiquei de mutuca, enquanto os seguranças estavam a caminho. Podia estar se fazendo de doido, sabe como é. Perguntei o nome, onde morava, como tinha entrado no condomínio, coisa e tal. Ele disse que se chamava João, que estava na fazenda dele, que ia moer café e matar um capado.

— Um doidivanas, tadinho.

— Os vigilantes chegaram e repetiram o interrogatório. Enquanto isso, a Dorinha coou café pra gente. Todos beberam, inclusive o velhote. Por fim, encontraram uma carteira com documentos no bolso dele. Sua graça era mesmo João. Jogaram o nome completo no computador da portaria, para certificar nos registros se era um morador novato ou um andarilho que burlou a segurança. Finalmente, identificaram que ele era pai de um morador.

— Tá zoando.

— Falo sério. Sabe o dono do supermercado?

— Aquele que mora na esquina e não cumprimenta a gente nem se passar com o carro por cima dele?

— O próprio.

— Paulo, ele é um homem muito estranho. Já desisti de dar bom dia, boa tarde, boa noite.

— Concordo, doc. Só sei que foram lá na casa do bocó, acordaram ele e ele chegou todo esbaforido, de pijamas, não cumprimentou ninguém, só pra variar, e puxou o velho pela mão, de uma forma grosseira, sabe, meio agressiva, dizendo pai pelo amor de Deus o que é que o senhor tá fazendo aqui vambora pra casa. Não deu explicação nenhuma e, claro, vazou sem se despedir.

— Inacreditável. Já pensou se o velhinho entra na casa dum vizinho que tem arma? Poderia ter tomado tiro. Que perigo.

— Verdade, doc. Esse povo atira primeiro e pergunta depois. Mas sabe o que me deixa mais chateado nisso tudo? Não foi o susto de me deparar com um intruso dentro de casa no meio da noite. Nem foi o fato de ele ter revirado tudo. Fico magoado é com o filho.

— O dono do supermercado?

— O dono do supermercado. Não é de ver que até agora o sujeito não deu as caras? É como se nada tivesse acontecido.

— Tem dinheiro, mas não tem elã. A primeira coisa que qualquer um faria seria retornar e se desculpar pelos transtornos. O pobre velhinho não tem culpa. Deve estar doente da cabeça. Alzheimer ou coisa que o valha.

— Pois é. Eu pensei que o dono do supermercado fosse apenas um homem tímido, retraído. Agora, fica claro que ele não dá a mínima pra vizinhança. Imagino que ele trouxe o pai birutinha para passar uns dias com ele, mas não tomou os devidos cuidados. Como é que deixa um idoso desajuizado sair de casa no meio da madrugada?

— Que história incrível, Paulo. Se eu contar, ninguém acredita.

— Doc, a Dorinha me disse que você escreve umas coisinhas de vez em quando, certo? Um homem culto.

— Ninguém é perfeito, Paulo.

— Posso te pedir um favor?

— É claro.

— Não escreve sobre isso não. Pode me dar problema com o homem do supermercado, sabe como é. Esse tipo de gente calada demais é imprevisível, pode ser um sujeito perigoso, sei lá.

— Fique tranquilo, Paulo. O assunto morre aqui.

O assunto não morreu ali. E eu menti para o Paulo.

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.

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