Em algum momento da vida, todos já nos perguntamos se fazíamos a coisa certa. Conforme o tempo avança, tomamos a real dimensão quanto ao impacto de nossas escolhas, para nós mesmos. E se viver já parece uma aventura sem que tenhamos de fazer nada, esse aspecto meio fictício, até farsesco da vida recrudesce nas quadras em que fomos confrontados a respeito do que pensamos ser pouco ético, indecente ou imoral.
Ser um criminoso perverso, que faz seu trabalho sem se deixar envolver com os dramas e as tragédias de quem quer que seja, definitivamente não deve ser nada fácil. Questões como essas definem o ritmo de “Danos Colaterais”, e uma premissa meio surrada vai virando um suspense instigador. Nick Stagliano faz a mágica acontecer levando o público pelo labirinto de maquinações sussurradas e gestos irrefletidos de dois homens que travam uma luta contra um inimigo que nunca se revela. Mas que não se esconde.
Gatos e ratos
Um martírio silencioso liga essas duas figuras, apresentadas somente como Virtuoso e Mentor. O primeiro é o assassino de aluguel que chega a uma pequena cidade sem saber muito sobre seu alvo, o que o obriga a dirigir-se a uma lanchonete e observar seus fregueses, dispondo da ajuda da garota que lá trabalha.
Stagliano e o corroteirista James C. Wolf são habilidosos ao manejar clichês já empregados com alguma frequência, puxando a narrativa para mais perto de uma leitura subjetiva da alma humana, com ênfase na alma masculina. Logo na primeira sequência, o matador vivido por Anson Mount passa de um sujeito à prova de qualquer chance de remorso a um verdugo de si mesmo, por ocasião de um erro trágico.
Para piorar, o tal Mentor, experiente no meio, quer que ele execute uma nova operação. É quando o diretor sofistica esse joguinho de gato e rato ajustando as interpretações — diversas, todavia complementares — de Mount e do espantosamente versátil Anthony Hopkins. Abbie Cornish fecha o trio como a anti-heroína que reproduz estereótipos, sim, mas que nem por isso deixa de ser relevante na história.

