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Em algum momento da vida, todos já nos perguntamos se fazíamos a coisa certa. Conforme o tempo avança, tomamos a real dimensão quanto ao impacto de nossas escolhas, para nós mesmos. E se viver já parece uma aventura sem que tenhamos de fazer nada, esse aspecto meio fictício, até farsesco da vida recrudesce nas quadras em que fomos confrontados a respeito do que pensamos ser pouco ético, indecente ou imoral.

Ser um criminoso perverso, que faz seu trabalho sem se deixar envolver com os dramas e as tragédias de quem quer que seja, definitivamente não deve ser nada fácil. Questões como essas definem o ritmo de “Danos Colaterais”, e uma premissa meio surrada vai virando um suspense instigador. Nick Stagliano faz a mágica acontecer levando o público pelo labirinto de maquinações sussurradas e gestos irrefletidos de dois homens que travam uma luta contra um inimigo que nunca se revela. Mas que não se esconde.

Gatos e ratos

Um martírio silencioso liga essas duas figuras, apresentadas somente como Virtuoso e Mentor. O primeiro é o assassino de aluguel que chega a uma pequena cidade sem saber muito sobre seu alvo, o que o obriga a dirigir-se a uma lanchonete e observar seus fregueses, dispondo da ajuda da garota que lá trabalha.

Stagliano e o corroteirista James C. Wolf são habilidosos ao manejar clichês já empregados com alguma frequência, puxando a narrativa para mais perto de uma leitura subjetiva da alma humana, com ênfase na alma masculina. Logo na primeira sequência, o matador vivido por Anson Mount passa de um sujeito à prova de qualquer chance de remorso a um verdugo de si mesmo, por ocasião de um erro trágico.

Para piorar, o tal Mentor, experiente no meio, quer que ele execute uma nova operação. É quando o diretor sofistica esse joguinho de gato e rato ajustando as interpretações — diversas, todavia complementares — de Mount e do espantosamente versátil Anthony Hopkins. Abbie Cornish fecha o trio como a anti-heroína que reproduz estereótipos, sim, mas que nem por isso deixa de ser relevante na história.


Filme: Danos Colaterais
Diretor: Nick Stagliano
Ano: 2021
Gênero: Drama/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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