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Em 22 de maio de 1889, Friedrich Nietzsche está aborrecido. São dez e meia da noite, quase ninguém na clínica psiquiátrica de Jena lhe deu parabéns e nem Apolo e Dioniso, destinatários da carta que escreve à luz de uma vela, tiveram a delicadeza de lembrar a data. A mãe tampouco escreveu. Peter Gast e Franz Overbeck, nada. Elisabeth, a irmã que ele detesta, melhor assim. Há um detalhe registrado numa nota ao pé da página capaz de reorganizar a cena inteira. Nietzsche nasceu em 15 de outubro. Vinte e dois de maio era o aniversário de Richard Wagner.

É justamente aí que o Nietzsche de “As Máscaras de Nietzsche”, romance de Matheus Arcaro publicado pela Editora Patuá em 2026, com 136 páginas, funciona melhor. Quando se engana. Quando a memória se embaralha. Quando Wagner invade o lugar que deveria pertencer a ele próprio. O filósofo que passou boa parte da vida tentando desmascarar as ilusões humanas se mostra incapaz de perceber as suas.

Arcaro
As Máscaras de Nietzsche, de Matheus Arcaro (Editora Patuá, 136 páginas)

Arcaro arma a brincadeira desde as primeiras páginas. Uma “Nota do Organizador” informa que, durante a demolição do prédio da clínica de Jena, em 2002, escavadores encontraram dentro de um recipiente metálico cartas que Nietzsche teria escrito durante a internação iniciada após seu colapso mental em Turim, em janeiro de 1889. Os papéis teriam exigido duas décadas de restauração e estudos. Há trechos ilegíveis e correções editoriais de datas e nomes. Naturalmente, o documento é falso. Estamos diante de um romance que se fantasia de edição histórica com uma cara suficientemente séria para pedir ao leitor alguns minutos de cumplicidade.

As cartas são endereçadas principalmente a Apolo e Dioniso, dupla que qualquer leitor de “O Nascimento da Tragédia” reconhecerá sem dificuldade. Na clínica, Nietzsche resolve compor uma ópera. Quer provar que é músico e, como não poderia deixar de ser, acertar as contas com Richard Wagner, antigo ídolo, amigo, mestre e depois inimigo. O drama musical ganha até nome, “Transmusicação”, e vai crescendo junto com a instabilidade do narrador. Wagner começa sendo uma lembrança, transforma-se em obsessão e por fim já circula pela clínica com a naturalidade dos vivos.

A escolha é boa porque Wagner foi uma das grandes paixões intelectuais de Nietzsche, e paixões contrariadas costumam render personagens melhores do que ideias bem resolvidas. O jovem filólogo aparece primeiro deslumbrado diante do compositor. Anos depois, está convencido de que Wagner representa tudo aquilo de que precisou se libertar, o nacionalismo alemão e a grandiloquência, entre outras coisas. Só que o ressentimento insiste em desmentir a pretendida libertação. Nietzsche fala tanto em superar Wagner que começa a parecer um homem que não consegue sair de sua órbita.

É nessa contradição que o livro encontra seu melhor personagem. O filósofo célebre, dono do martelo, vai sendo diminuído até caber num quarto de hospital. Tem enxaqueca, precisa do braço de uma enfermeira para caminhar e se preocupa com o bigode. Lembra do pai morto quando ele tinha cinco anos, da mãe religiosa e do fascínio por Lou Salomé. Numa das melhores passagens, depois de uma visita materna marcada pela velha incompatibilidade entre o ateu militante e a senhora devota, ele volta para o quarto e passa mais de uma hora abraçado ao xale que ela esqueceu sobre a cama. Arcaro não precisa explicar nada ali. Nem sempre resiste à tentação.

Há momentos em que “As Máscaras de Nietzsche” parece recear que o leitor não conheça Nietzsche o bastante e passa a lhe fornecer uma pequena introdução à sua filosofia. Conceitos entram na correspondência já desembalados e com manual de instruções. Em outras passagens, a brincadeira histórica se entusiasma consigo mesma. Machado de Assis aparece porque Nietzsche teria lido “Memórias Póstumas de Brás Cubas”; Jesus circula pela clínica; Sócrates e Schopenhauer são convocados; o próprio Brás Cubas acaba correspondendo-se com o filósofo. A primeira surpresa diverte. A segunda também. Depois de certo ponto, a porta do hospício parece dar acesso ao camarim de um congresso internacional de mortos ilustres.

O excesso é especialmente curioso porque Arcaro prova diversas vezes que consegue fazer mais com menos. A relação com o jovem Thomas, a quem Nietzsche toma por enfermeiro e confidente, ganha interesse justamente porque demora a revelar sua natureza. O mesmo ocorre com as pequenas falhas introduzidas nas cartas e corrigidas pelas notas editoriais. Uma data errada, uma memória impossível ou um interlocutor que talvez não exista produzem efeito melhor do que páginas em que o próprio narrador discorre longamente sobre a precariedade da memória. O livro ganha quando deixa a rachadura à vista e perde alguma coisa quando aponta para ela.

Isso vale também para a linguagem. Arcaro se permite aforismos, metáforas e pequenos exibicionismos vocabulares para construir uma voz que não pretende reproduzir filologicamente Nietzsche, empreitada tão inviável quanto inútil. A liberdade é legítima. O problema surge quando quase toda ideia pede uma imagem e quase toda imagem parece querer provar que é uma imagem. Nietzsche já oferece barulho suficiente sem que seja preciso aumentar o volume.

A loucura vai então corroendo aquilo que Nietzsche escreve. O leitor percebe que não há terreno firme nas cartas, que lembrança e invenção trocaram de roupa e que as notas supostamente encarregadas de restabelecer a ordem talvez sejam apenas outra peça da brincadeira. O Nietzsche internado começa a fabricar a própria biografia enquanto tenta recordá-la. Às vezes uma nota corrige um nome. Em outras, uma data trai o narrador. E aquele aniversário de maio, celebrado pelo homem errado, acaba dizendo bastante sobre um livro em que ninguém conserva por muito tempo o rosto com que entrou.

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