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Basquiat não precisou morrer para que o dinheiro começasse a disputar espaço com sua pintura. Em fevereiro de 1985, ele apareceu na capa da “New York Times Magazine”, descalço, de terno escuro, sentado diante de uma de suas pinturas. Tinha 24 anos. O título da reportagem dispensava delicadeza. “New Art, New Money, The Marketing of an American Artist”. Não era exatamente uma matéria sobre pintura. Era uma matéria sobre o que estava acontecendo com um pintor. Basquiat já havia entrado naquele estágio perigoso da celebridade em que a obra passa a dividir o corpo do artista com uma personagem inventada por galeristas, jornalistas, compradores e pelo próprio sujeito que está sendo observado.

Trinta e dois anos depois, numa noite de maio de 2017, um quadro seu fez algo que provavelmente nem o mais imaginativo comerciante de arte de Manhattan teria ousado prever naquela época. “Untitled”, de 1982, foi vendido pela Sotheby’s por 110,5 milhões de dólares. O comprador, o empresário japonês Yusaku Maezawa, adquiriu uma cabeça enorme, óssea, feroz, pintada sobre um azul quase infantil. A mesma obra havia sido comprada em 1984 por 19 mil dólares. Basquiat estava morto havia quase três décadas. É difícil imaginar demonstração mais perfeita da estranha matemática da posteridade.

O rapaz que transformara palavras, ossos, músicos e homens negros em uma espécie de alfabeto nervoso tornou-se ele próprio uma mercadoria rara. Quanto menos Basquiats disponíveis, mais caro Basquiat. Quanto mais caro Basquiat, maior Basquiat parece para quem considera o leilão uma extensão da história da arte.

“Untitled” continuava sendo, depois do leilão, a mesma superfície construída em 1982 com acrílica, spray e bastão de óleo. A cabeça continuava possuindo dentes demais, interior demais, exposição demais. O rosto não se deixa decidir entre máscara, crânio e organismo aberto. Nada foi acrescentado à composição quando seu preço ultrapassou cem milhões de dólares. Acrescentou-se outra coisa. Uma cifra à história de Basquiat. E cifras são criaturas particularmente vorazes. Elas comem contexto.

Basquiat nasceu no Brooklyn em 1960, filho de pai haitiano e mãe nova-iorquina de ascendência porto-riquenha. Desenhava quando criança, frequentava museus levado pela mãe, conheceu cedo as imagens anatômicas de “Gray’s Anatomy”, escreveu com Al Diaz as frases de SAMO pelas paredes de Manhattan, vendeu cartões, fez música e entrou no sistema de galerias com velocidade desconcertante. Entre 1981 e 1983 produziu boa parte do repertório que faria dele uma das figuras incontornáveis da pintura norte-americana do fim do século 20. Cabeças, boxeadores, palavras cortadas, coroas. Isso aconteceu antes da centena de milhões.

Antes mesmo da capa do “New York Times”, o mercado já descobrira que Basquiat podia ser vendido de maneira quase tão sedutora quanto suas pinturas. Havia nele tudo aquilo que uma época faminta por personagens deseja reunir numa única pessoa. Juventude, inteligência, excesso, acesso súbito à elite, amizade com Andy Warhol, drogas, dinheiro, perigo. E havia, sobretudo, sua condição de jovem artista negro dentro de um circuito quase patologicamente branco.

Parte da recepção insistia em descrevê-lo como força espontânea, menino selvagem vindo do graffiti, fenômeno quase instintivo que atravessara milagrosamente as portas das galerias. O problema dessa narrativa não era apenas sua pobreza intelectual. Havia nela uma velha fantasia racial, a de admirar a energia enquanto se desconfia da inteligência que a produz.

Basta ficar alguns minutos diante de “Notary”, de 1983, para a lenda começar a desmoronar. Mitologia grega, sistemas monetários, anatomia e commodities se acumulam numa superfície que não tem nada de inocente. O aparente tumulto é trabalho. O improviso é método. Basquiat conhecia o efeito de uma palavra raspada, repetida ou parcialmente ocultada. Disse certa vez que riscava palavras para que fossem mais vistas.

Na década de 1980, sua imagem cresceu numa velocidade que poucos artistas poderiam administrar. Warhol, mais de trinta anos mais velho, compreendia esse mecanismo como poucos. Havia transformado a celebridade em matéria-prima antes que Basquiat saísse da adolescência. Quando os dois passaram a trabalhar juntos, entre 1984 e 1985, produziram cerca de 160 pinturas. Mas a imprensa gostava mais da fotografia. Warhol e Basquiat lado a lado forneciam uma história pronta. O veterano branco da Pop Art e o jovem negro recém-chegado ao topo. O pai e o filho. O explorador e o explorado. O mestre e o discípulo. Nenhuma dessas fórmulas consegue explicar direito o que ocorre nas telas.

A personagem é sempre mais simples que o artista. Quando Basquiat morreu, em 12 de agosto de 1988, aos 27 anos, a personagem ganhou o elemento que faltava para se tornar indestrutível.

A morte precoce é uma das formas mais eficientes de edição biográfica. Elimina continuações, impede correções, transforma erros em presságios e organiza retrospectivamente acontecimentos que, enquanto aconteciam, eram apenas vida. O laudo registrou intoxicação aguda combinada de opiáceos e cocaína. A posteridade preferiu a palavra mágica, overdose. Depois veio o inevitável clube dos 27, como se Hendrix, Janis Joplin e Basquiat tivessem assinado secretamente o mesmo contrato. É uma maneira confortável de domesticar a tragédia. O artista que morre jovem corre o risco de ter todas as obras transformadas em sintomas de sua morte.

Com Basquiat, isso seria particularmente empobrecedor. Há violência em sua pintura, mas existe também erudição. Há cadáveres, porém há jazz. Há dinheiro e mercadorias, mas há Charlie Parker e Dizzy Gillespie. Há raiva, humor, história, boxe, escravidão, nomes de negros que a história oficial esqueceu. A famosa coroa não serve apenas como assinatura adolescente. Em muitas obras, ela concede autoridade. Basquiat coroava aqueles que o cânone se acostumara a deixar sem trono.

Depois de sua morte, o próprio Basquiat foi coroado. O Whitney Museum realizou uma grande retrospectiva em 1992. O Brooklyn Museum voltou repetidamente à obra, inclusive aos cadernos. Outras instituições fizeram o que instituições fazem quando um artista deixa de ser apenas acontecimento contemporâneo e entra na história. Catalogaram, conservaram, exibiram. A consagração museológica alterou sua posição. Já não era necessário responder se Basquiat sobreviveria à moda dos anos 1980. Ele havia sobrevivido.

Museus, crítica, galerias e leilões não formam uma quadrilha reunida numa sala escolhendo quem será imortal. A realidade é menos cinematográfica e mais interessante. Cada setor possui interesses próprios, e eles frequentemente entram em conflito. Mas prestígio artístico e valor financeiro conversam. Uma retrospectiva importante aumenta visibilidade. Uma aquisição museológica reforça legitimidade. Uma grande coleção estabelece proveniência. Uma venda excepcional produz notícia. A notícia traz novos olhos. Novos olhos trazem novos compradores. Aos poucos, cria-se aquilo que o mercado adora chamar de inevitabilidade. Basquiat ficou inevitável. E escasso.

Morreu aos 27 anos, depois de uma carreira profissional curtíssima. Não haverá uma fase Basquiat dos quarenta anos, nenhuma década tardia, nenhuma velhice produtiva oferecendo centenas de novas pinturas aos colecionadores. A morte que encerrou brutalmente o homem fixou também a oferta.

O capitalismo conhece o valor daquilo que não poderá ser reposto. Em 2017, quando a cabeça azul de “Untitled” chegou aos 110,5 milhões de dólares, comprava-se evidentemente uma pintura. Comprava-se também 1982, Nova York, a morte precoce, Warhol, o artista negro que atravessara um mercado branco e três décadas de museus. O quadro carregava tudo isso sem precisar carregar nada disso. A cabeça continuava olhando.

Existe algo quase cômico na pretensão de traduzir Basquiat em dinheiro porque poucas obras parecem tão desconfiadas da própria linguagem do valor. Símbolos monetários, propriedade, marcas e preços já apareciam em suas superfícies quando ninguém imaginava que um único quadro seu custaria nove dígitos.

Quando uma assinatura passa a valer milhões, falsificá-la deixa de ser apenas uma fraude estética. Torna-se negócio. O comitê de autenticação do espólio de Basquiat examinou mais de dois mil trabalhos atribuídos ao artista ao longo de dezoito anos antes de encerrar suas atividades em 2012. Dez anos depois, o FBI apreendeu 25 obras apresentadas como Basquiats no Orlando Museum of Art. Em 2023, o ex-leiloeiro Michael Barzman admitiu participação na fabricação de obras falsas e numa proveniência inventada para sustentá-las. O mercado que precisa desesperadamente de Basquiats começou a fabricar Basquiats.

Não é preciso recorrer a nenhuma teoria conspiratória. Basta a velha combinação de desejo, escassez e dinheiro. Uma pintura autêntica pode comprar prédios. Algumas linhas certas, uma história suficientemente sedutora e a credulidade adequada passam a representar uma tentação econômica formidável.

O paradoxo fecha o círculo iniciado naquela capa de 1985. O jovem chamado de nova arte e novo dinheiro tornou-se, depois de morto, uma das mais poderosas interseções entre arte e dinheiro de sua geração. Sua imagem foi reproduzida, licenciada, vestida, comercializada. A coroa virou marca reconhecível por pessoas que jamais viram “Horn Players”.

É o destino contemporâneo dos artistas que conseguem escapar do esquecimento. Acabam correndo outro perigo. Ser conhecidos demais. Nesse estágio, todo mundo conhece Basquiat e pouca gente olha para Basquiat.

Conhece-se o amigo de Warhol, o grafiteiro, o negro que venceu o mundo branco da arte, o morto aos 27, o autor do quadro de 110 milhões de dólares. São versões convenientes porque cabem numa legenda. As pinturas não.

“Hollywood Africans” não cabe. “Defacement” não cabe. “Horn Players” não cabe. “Notary” definitivamente não cabe. Elas atrapalham a biografia justamente porque recusam o homem simples que o mercado e a imprensa prefeririam comercializar. São inteligentes demais para o mito do selvagem, calculadas demais para o mito da espontaneidade, políticas demais para a decoração, engraçadas demais para a solenidade, eruditas demais para a fantasia do menino que saiu diretamente da rua para a galeria.

Talvez por isso continuem vivas depois que o espetáculo ao redor envelheceu. Trinta e oito anos após sua morte, Basquiat possui aquilo que o dinheiro não consegue comprar sozinho, permanência. Os 110,5 milhões ajudam a fabricar manchetes; não explicam um único dente, uma palavra riscada, um corpo aberto, uma coroa.

O mercado decidiu quanto custa possuir um Basquiat. Ainda não descobriu como possuir Basquiat.

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