A feijoada recebe aqui um espumante rosé e um Lambrusco seco, combinação que pode parecer heresia a quem ainda acredita que prato pesado exige necessariamente vinho pesado. A lógica, porém, é menos misteriosa do que certos rituais em torno da garrafa fazem supor. Gordura, sal e carnes defumadas pedem alguma coisa capaz de devolver frescor à boca, e às vezes borbulhas e acidez cumprem o serviço com mais competência que um tinto musculoso, alcoólico e soterrado por madeira.
O mesmo raciocínio leva um Brut brasileiro ao pastel, um Chianti à pizza e Syrah ao hambúrguer. São comidas sem nenhuma vocação para cerimônia, cheias de elementos que costumam atormentar vinhos frágeis. O tomate da pizza exige acidez; a fritura do pastel pede limpeza; carne, queijo, bacon, picles e molhos fazem do hambúrguer um pequeno campo de batalha para a garrafa errada. Até chegar ao churrasco, território em que Tannat e Malbec parecem muito mais à vontade, porque gordura, sal e carne tostada finalmente oferecem aos taninos uma função social.
Entre Pinto Bandeira, Vinho Verde, Toscana, Sicília, Chile, Uruguai e Mendoza, mudam uvas, técnicas, álcool e preço, mas permanece uma constatação bastante pedestre. Vinho não melhora só porque alguém consegue descrevê-lo com meia dúzia de substantivos improváveis; melhora quando encontra comida que lhe dá sentido. E é justamente diante de uma massa recém-saída do óleo que o Cave Amadeu Brut começa a prestar contas.
Cave Amadeu Brut

Começar pelo pastel com um espumante brasileiro é quase covardia. A combinação funciona porque o Cave Amadeu faz exatamente o que a fritura exige: chega frio, tem acidez, borbulhas e pouco interesse em disputar musculatura com o recheio. O óleo que parecia dominar a boca perde força e a próxima mordida volta a ter gosto de primeira.
Produzido pela Família Geisse com Chardonnay e Pinot Noir, o espumante passa pela segunda fermentação na própria garrafa e permanece cerca de doze meses em contato com as leveduras. Há fruta branca e cítrica, algum pão, textura cremosa e uma acidez que continua sendo o principal instrumento de trabalho. Não é necessário explicar método tradicional ao pasteleiro. Basta servir gelado.
Queijo, carne, palmito e até um pastel de camarão encontram espaço aqui. Molhos excessivamente picantes podem mudar o jogo, mas diante do pastel de feira convencional este é o vinho mais próximo de uma escolha sem susto desta lista.
Características
Espumante Brut brasileiro elaborado com Chardonnay e Pinot Noir pelo método tradicional, com aproximadamente 12 meses de contato com as leveduras. Fresco, cítrico, cremoso e de acidez firme.
Harmonização
Pastel de queijo, carne, palmito, frango ou camarão. Também funciona com coxinha, bolinho de bacalhau, tempurá e outras frituras.
Aveleda Fonte Branco

A segunda solução para o pastel dispensa as bolhas, mas conserva o que interessa. O Aveleda Fonte é daqueles brancos que quase parecem ter sido inventados para um país quente: leve, muito fresco, cítrico e com álcool contido. Em vez de engrossar a sensação da fritura, desaparece com ela.
A composição pode variar ligeiramente conforme a safra, reunindo castas tradicionais do Vinho Verde como Loureiro, Arinto, Trajadura e Fernão Pires. Maçã verde, limão e uma discreta sensação mineral aparecem antes de um gole rápido e refrescante.
É particularmente bom quando o recheio fica mais delicado. Palmito, bacalhau, queijo branco, camarão e frango dão ao vinho espaço para aparecer sem que a refeição perca a informalidade que a torna interessante. Pastel continua sendo pastel. Ainda bem.
Características
Branco leve do Vinho Verde, elaborado com castas portuguesas, de baixo teor alcoólico, acidez elevada e aromas de maçã verde, lima e frutas cítricas.
Harmonização
Pastel de queijo, palmito, bacalhau, camarão e frango. Também acompanha empadas, bolinhos, peixes fritos e petiscos salgados.
Piccini Chianti DOCG 2024

Tomate é o grande fiscal da pizza. Um tinto mole demais desaparece; um monstro cheio de madeira pode transformar duas fatias de mozzarella num duelo desnecessário. O Chianti resolve a questão recorrendo à velha especialidade da Sangiovese: acidez.
O Piccini é construído principalmente sobre essa variedade, acompanhada por castas tradicionais da região. Tem fruta vermelha, corpo entre leve e médio e taninos sem vontade de arrancar a gengiva de ninguém. Não é coincidência que Toscana e pizzaria mantenham relações diplomáticas tão cordiais.
Mozzarella, margherita, napolitana e calabresa são as escolhas óbvias. Na portuguesa, segura bem presunto e queijo; com pizzas carregadas de pimenta, porém, convém alguma cautela. Álcool e ardência às vezes formam uma dupla que ninguém convidou.
Características
Tinto toscano baseado em Sangiovese, de corpo leve a médio, acidez pronunciada, fruta vermelha fresca e taninos moderados.
Harmonização
Pizza margherita, mozzarella, napolitana, calabresa, portuguesa e pizzas com molho de tomate sem excesso de picância.
Mànnara Nero d’Avola

Se o Chianti é a resposta clássica, o Mànnara é a opção para quem prefere uma pizza e um tinto com um pouco mais de sol dentro da garrafa. A Nero d’Avola é a grande uva tinta da Sicília e costuma oferecer fruta madura, corpo e alguma rusticidade mediterrânea sem exigir um tratado para ser compreendida.
O Mànnara é um vinho deliberadamente simples. Não passa por uma longa educação em carvalho nem tenta se fazer passar por um grande siciliano de guarda. Tem ameixa, frutas escuras, ervas e taninos macios.
É uma escolha melhor para calabresa, pepperoni, bacon, portuguesa e pizzas de sabores mais carregados que para uma margherita quase franciscana. A garrafa tem exatamente a ambição que deveria ter nessa mesa: acompanhar a pizza, não pedir silêncio quando alguém começa a comer.
Características
Tinto siciliano elaborado com Nero d’Avola, de corpo leve a médio, taninos macios, fruta madura, ervas e teor alcoólico em torno de 13%.
Harmonização
Pizza de calabresa, pepperoni, bacon, portuguesa, carne, berinjela à parmegiana e pizzas com embutidos.
Emiliana Adobe Reserva Syrah

Hambúrguer não é filé-mignon circular. A carne é moída, ganha uma crosta tostada, recebe queijo, picles, mostarda, maionese, cebola, bacon e tudo quanto a imaginação permitir antes que a mandíbula peça socorro. Por isso o Syrah funciona tão bem: tem fruta, especiaria e estrutura, mas não precisa chegar à mesa com a solenidade de um grande tinto de guarda.
A Emiliana produz o Adobe a partir de Syrah orgânica. Há cassis, cereja, fumaça e pimenta-preta, taninos macios e um caráter levemente defumado que explica a afinidade com carne saída da chapa ou da grelha.
Num cheeseburger simples já funciona. Com bacon, cebola caramelizada ou molho barbecue, melhora. A única cautela é não refrigerá-lo como cerveja nem servi-lo à temperatura de uma calçada em janeiro. Um pouco refrescado basta.
Características
Syrah chileno orgânico, frutado e especiado, com notas defumadas, pimenta-preta, taninos macios e discreta influência de carvalho.
Harmonização
Cheeseburger, bacon burger, hambúrguer na churrasqueira, cebola caramelizada e versões com queijo curado ou molho barbecue.
Garzón Estate Cabernet de Corte

O nome engana um pouco. O eixo deste Garzón não é Cabernet Sauvignon, mas Cabernet Franc, acompanhado por Tannat, Merlot e Marselan. Isso ajuda a entender por que o vinho consegue ter estrutura e, ao mesmo tempo, não se comporta como um armário de mogno líquido.
Há amoras, ameixas, ervas e pimenta-branca, corpo médio, taninos finos e álcool suficientemente moderado para preservar o frescor. É um tinto com presença, mas sem a obrigação de provar força a cada gole.
Com hambúrguer, a vantagem está justamente aí. Picles, mostarda, tomate e queijo agradecem a acidez; a carne fica com os taninos. É o rótulo desta dupla para quem quer beber tinto com hambúrguer sem terminar a refeição sentindo que mastigou também a garrafa.
Características
Corte uruguaio baseado em Cabernet Franc, com Tannat, Merlot e Marselan, de corpo médio, álcool moderado, taninos finos, boa acidez, frutas escuras, ervas e especiarias.
Harmonização
Hambúrguer clássico com queijo, picles e mostarda; versões artesanais com cogumelos, bacon ou cebola; também carnes grelhadas e ragu.
Salton Ouro Brut Rosé

Feijoada é o trecho em que muitos manuais de harmonização começam a suar. Há feijão, carnes salgadas e defumadas, gordura, alho, louro, arroz, couve, farofa e, para completar o teste, laranja. Parece razoável procurar o tinto mais brutal da loja. Nem sempre é.
O Salton Ouro Brut Rosé escolhe o caminho inverso. Chardonnay e Pinot Noir dão origem a um espumante rosado que conserva acidez e frescor suficientes para atravessar a refeição. As borbulhas trabalham sobre a gordura e a fruta não desaparece diante das carnes.
Pode soar menos intuitivo que abrir um tinto corpulento, mas entre uma colherada e outra a lógica se explica sozinha. E ainda existe a vantagem nada desprezível de começar e terminar o almoço com a mesma garrafa.
Características
Espumante Brut Rosé brasileiro de Chardonnay e Pinot Noir, cremoso, frutado e refrescante, com boa acidez e contato com as leveduras.
Harmonização
Feijoada, torresmo, linguiça, carne suína, salames, frituras e entradas salgadas.
Medici Ermete La Favorita Lambrusco Rosso Secco

Lambrusco sofreu no Brasil o castigo de virar sinônimo de vinho doce, barato e gaseificado para festas em que ninguém estava realmente interessado em vinho. A região italiana, por sorte, não ficou sabendo. Existem Lambruscos secos, estruturados e feitos para comida, e o La Favorita é um deles.
Este Rosso Secco da Medici Ermete reúne Lambrusco Salamino e Marani, tem baixo teor alcoólico, borbulha moderada e nenhuma necessidade de esconder-se atrás de açúcar. Chega frio, conserva fruta escura e traz acidez suficiente para enfrentar gordura e sal.
Ou seja, comporta-se como um tinto que recebeu ferramentas extras para lidar com a feijoada. Para quem ainda pensa em Lambrusco como refrigerante de uva para adultos, o prato brasileiro pode servir de reabilitação pública.
Características
Lambrusco tinto seco e frisante, elaborado com Salamino e Marani, baixo álcool, fruta vermelha e escura, boa acidez e borbulha moderada.
Harmonização
Feijoada, carne suína, cotechino, salames, mortadela, embutidos, massas com carne e queijos de média maturação.
Garzón Estate Tannat de Corte

Chega o churrasco e finalmente o Tannat pode fazer aquilo para o qual parece ter treinado a vida inteira. A uva associada ao Uruguai tem taninos, acidez e estrutura para encontrar uma costela gordurosa sem pedir reforço, mas este Garzón evita justamente a caricatura do Tannat impenetrável.
O corte leva Tannat majoritariamente, acompanhado por Marselan, Cabernet Franc e Petit Verdot. A ideia é conservar corpo médio, boa acidez, fruta vermelha e preta, notas florais e herbáceas sem enterrar tudo debaixo de madeira.
Picanha funciona, claro, mas eu guardaria este vinho sobretudo para costela, ancho, assado de tira e cortes em que a gordura é parte do prazer. O sal do churrasco e a proteína tornam os taninos menos ameaçadores. Pela primeira vez nesta lista, alguma brutalidade é bem-vinda.
Características
Tinto uruguaio majoritariamente Tannat, com Marselan, Cabernet Franc e Petit Verdot. Corpo médio, taninos maduros, boa acidez, frutas maduras, flores, ervas e especiarias.
Harmonização
Costela, picanha, ancho, assado de tira, vazio, cordeiro, linguiça e cortes bovinos com boa presença de gordura.
Kaiken Estate Malbec

Encerrar um texto sobre churrasco argentino com Malbec é previsível. Excluí-lo só para parecer original seria pior. O Kaiken Estate ocupa uma faixa em que a variedade ainda entrega aquilo que a tornou famosa sem obrigar o consumidor a enfrentar extração exagerada, madeira em excesso e álcool disfarçado de potência.
As uvas vêm de Mendoza e o vinho mostra ameixa madura, cereja preta, amora, pimenta e cravo, com taninos macios e redondos e discretas notas de baunilha decorrentes da passagem por madeira.
É mais fácil que o Tannat e, por isso, talvez seja a garrafa mais democrática para uma churrasqueira cheia de gente. Picanha, fraldinha, contrafilé e bife ancho cabem sem dificuldade. Não precisa explicar Mendoza, altitude ou taninos redondos a ninguém. Abra, sirva um pouco abaixo da temperatura ambiente e deixe a carne fazer o resto.
Características
Malbec de Mendoza, de corpo médio para encorpado, fruta negra madura, especiarias, taninos macios e redondos e curta passagem por madeira.
Harmonização
Picanha, fraldinha, contrafilé, bife ancho, chorizo, hambúrguer de carne bovina e carnes assadas.

