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Aos 32 anos, na Londres do início dos anos 2000, Bridget Jones decide registrar a própria vida para finalmente assumir algum controle sobre ela. Bridget Jones (Renée Zellweger) começa o ano cercada por parentes que parecem mais interessados em seu estado civil do que em sua felicidade. Solteira, insatisfeita com o emprego e incomodada com o próprio peso, ela promete beber menos, parar de fumar, emagrecer e deixar de procurar homens problemáticos. Para acompanhar o progresso, compra um diário no qual pretende escrever sempre a verdade.

O plano de “O Diário de Bridget Jones”, dirigido por Sharon Maguire, parece simples até Bridget voltar à rotina. Ela trabalha em uma editora londrina e alimenta uma queda por Daniel Cleaver (Hugh Grant), seu chefe charmoso, sedutor e bastante confortável em sua fama de conquistador. Fora do escritório, ainda precisa conviver com Mark Darcy (Colin Firth), um advogado divorciado que conheceu na infância e reencontra durante uma festa de Ano Novo.

Mark causa uma péssima primeira impressão. Vestido com um suéter natalino constrangedor e pouco interessado em agradar, ele faz comentários que Bridget escuta por acaso. Ela reage com irritação e registra o episódio no diário. A antipatia, porém, não impede novos encontros, já que as famílias dos dois mantêm uma relação antiga.

Uma promessa difícil de cumprir

Bridget estabelece metas quase militares, mas sua disciplina dura pouco. O diário registra cigarros, bebidas, calorias, frustrações e fantasias amorosas com uma sinceridade que ela jamais teria diante dos colegas. A narração aproxima o público da personagem porque revela a diferença entre aquilo que ela pretende fazer e o que realmente acontece.

Renée Zellweger interpreta Bridget sem transformá-la em uma mulher incapaz. Ela trabalha, paga as próprias contas, mantém amizades e sabe quando foi tratada com desprezo. Sua desorganização produz situações engraçadas, porém não apaga a inteligência da personagem. Bridget erra porque deseja ser aceita e costuma confiar em pessoas que sabem tirar proveito dessa necessidade.

A protagonista também vive sob uma fiscalização constante. Seu corpo, sua idade, suas roupas e sua solteirice parecem assuntos públicos. Parentes fazem perguntas inconvenientes, colegas observam sua vida amorosa e homens avaliam sua aparência com uma liberdade irritante. Algumas piadas relacionadas ao peso envelheceram mal, sobretudo porque Bridget tem um corpo comum tratado pelo roteiro como um problema urgente.

Ainda assim, a personagem não perde a força. Ela pode passar uma noite lamentando um fracasso, mas acorda disposta a tentar outra vez. Às vezes, tenta de maneira desastrosa. Essa disposição sustenta a simpatia criada por Zellweger e impede que Bridget seja lembrada apenas por suas gafes.

Daniel domina o escritório

Daniel percebe o interesse de Bridget e começa a enviar mensagens provocantes durante o expediente. A paquera cresce dentro da editora, onde ele possui autoridade profissional e também controla o ritmo da aproximação. Bridget aceita o envolvimento porque acredita ter despertado o interesse de um homem sofisticado, divertido e seguro.

Hugh Grant usa sua conhecida elegância para dar a Daniel uma simpatia suspeita. O personagem sabe escolher as palavras, oferecer atenção e desaparecer quando a situação exige compromisso. Seu charme funciona porque Bridget deseja acreditar nele, mesmo quando certos comportamentos recomendam cautela.

A relação interfere na vida profissional da protagonista. Durante o lançamento de um livro, Bridget precisa fazer um discurso diante de escritores, convidados e colegas. Nervosa e mal preparada, ela se enrola diante da plateia. Daniel intervém e a ajuda a sair daquela situação, reforçando a imagem de homem capaz de salvá-la quando tudo desanda.

O problema é que sua ajuda nunca vem de graça. Daniel controla informações importantes sobre o passado e apresenta uma versão dos fatos que favorece sua imagem. Bridget, apaixonada, não possui motivos suficientes para duvidar dele. O romance avança enquanto a posição dela dentro da editora fica cada vez mais desconfortável.

Mark Darcy volta à cena

Mark reaparece em festas e reuniões promovidas pelas famílias. Interpretado por Colin Firth com rigidez e certa timidez, ele parece o oposto de Daniel. Fala pouco, não domina conversas sociais e raramente oferece o tipo de elogio que Bridget gostaria de ouvir. Sua presença causa incômodo, mas também desperta curiosidade.

A distância entre os dois começa a diminuir quando Mark abandona parte da frieza e presta atenção no que Bridget faz. Ele não tenta transformá-la numa versão mais elegante ou silenciosa de si mesma. Quando reconhece suas qualidades, escolhe palavras simples, sem uma grande declaração preparada para impressionar.

Essa sinceridade deixa Bridget confusa. Daniel oferece sedução e entusiasmo. Mark demonstra respeito em gestos menos vistosos. A disputa ganha outra dimensão quando os dois revelam que já foram amigos e carregam uma briga antiga. Cada um apresenta sua versão, enquanto Bridget precisa decidir em quem confiar sem conhecer a história inteira.

O roteiro inspirado no romance de Helen Fielding usa essa rivalidade para brincar com “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen. O sobrenome Darcy não aparece por acidente, e a escolha de Colin Firth reforça a referência. Ainda assim, o filme mantém personalidade própria ao colocar uma mulher contemporânea, cheia de contradições, no centro dessa disputa.

Amigos para todas as emergências

Quando os relacionamentos saem do controle, Bridget procura Shazzer (Sally Phillips), Jude (Shirley Henderson) e Tom (James Callis). Os três ouvem suas reclamações, analisam o comportamento dos pretendentes e oferecem conselhos com enorme confiança, embora também tenham vidas sentimentais confusas.

O grupo impede que a personagem fique restrita aos dois homens. Entre bebidas, telefonemas e reuniões improvisadas, Bridget encontra um espaço no qual pode falar sem fingir elegância. Os amigos acolhem seus fracassos, criticam suas escolhas e permanecem ao lado dela quando alguma esperança romântica desmorona.

A família atravessa outra crise. Pamela Jones (Gemma Jones), mãe de Bridget, abandona temporariamente a vida doméstica para trabalhar na televisão e se envolve com Julian (Patrick Barlow), um vendedor espalhafatoso. Colin Jones (Jim Broadbent), pai de Bridget, fica arrasado e passa a procurar apoio na filha.

A separação enfraquece o modelo de casamento defendido pelos parentes. Bridget cresceu ouvindo que deveria encontrar um marido, mas agora observa os pais perderem a estabilidade que todos apresentavam como garantia de felicidade. Mesmo sobrecarregada, ela atende às ligações do pai e tenta ajudá-lo.

Uma carreira diante das câmeras

O envolvimento com Daniel torna o emprego insustentável. Bridget decide deixar a editora e procura trabalho em emissoras de televisão. As entrevistas oferecem outra coleção de constrangimentos, pois ela precisa explicar por que deseja abandonar o setor editorial sem revelar detalhes íntimos sobre o chefe.

Depois de ser contratada, começa a trabalhar como repórter. A mudança não elimina seus tropeços. Bridget enfrenta entradas ao vivo, pautas externas e situações nas quais seu nervosismo fica exposto para um público muito maior do que a plateia de uma festa literária. Ao menos, agora suas falhas pertencem a uma escolha profissional feita por ela.

Zellweger equilibra a comédia física com uma vulnerabilidade convincente. Bridget pode aparecer usando uma roupa inadequada, errar uma fala ou chegar atrasada, mas nunca perde por completo a consciência do próprio vexame. Seu olhar costuma revelar que ela percebeu o desastre alguns segundos antes de todos. Só não há mais tempo para fugir.

“O Diário de Bridget Jones” conserva o frescor porque permite que sua protagonista seja vaidosa, insegura, engraçada, competente e contraditória na mesma tarde. O romance move boa parte da história, porém são as escolhas de Bridget diante do emprego, dos pais e dos amigos que lhe devolvem alguma autonomia.

Entre Daniel, Mark, o novo trabalho e as cobranças familiares, ela ainda escreve no diário. As metas continuam sujeitas a falhas, o consumo de vinho nem sempre obedece ao planejamento e a vida amorosa permanece confusa. A diferença é que Bridget começa a decidir quais mudanças realmente deseja e quais foram impostas por pessoas que nunca precisaram viver em seu lugar.


Filme: O Diário de Bridget Jones
Diretor: Sharon Maguire
Ano: 2001
Gênero: Comédia/Drama/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
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