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Em uma cidade americana quase deserta, um assassino profissional chega a um restaurante às 17h para cumprir uma missão sem conhecer o alvo. Dirigido por Nick Stagliano, “Danos Colaterais” acompanha um matador conhecido apenas como Virtuoso (Anson Mount). Metódico e solitário, ele trabalha seguindo uma série de regras pessoais. Estuda o lugar, observa possíveis saídas, prepara as armas e tenta não deixar qualquer vestígio. Cada serviço precisa parecer limpo, preciso e distante de sua vida particular.

Essa segurança sofre um abalo durante uma operação que termina com a morte de uma pessoa inocente. O episódio perturba o assassino, ainda que sua reação permaneça discreta. A culpa se manifesta no isolamento, nas lembranças recorrentes e na dificuldade de manter a frieza que sustentava seu trabalho. Por mais treinado que seja, o Virtuoso descobre que algumas vítimas continuam presentes depois que o gatilho é acionado.

É nesse período que o Mentor (Anthony Hopkins), chefe do protagonista e antigo amigo de seu pai, reaparece com uma nova missão. O Virtuoso deve localizar e matar um assassino que traiu a organização. O trabalho também permitirá que ele quite uma dívida ligada ao serviço anterior. O problema está nas informações fornecidas. Ele recebe apenas um horário, um endereço e uma expressão misteriosa associada ao alvo.

Às cinco no restaurante

A busca leva o Virtuoso a uma pequena cidade do interior, onde quase tudo parece fechado, envelhecido ou abandonado. O ponto de encontro é um restaurante rústico frequentado por moradores locais. O alvo estará ali às 17h, mas o Mentor não fornece nome, fotografia, idade ou descrição física. Para alguém tão apaixonado por planejamento, a missão parece uma provocação cuidadosamente embrulhada.

Quando entra no estabelecimento, o assassino observa cada pessoa presente. Entre os candidatos estão o Xerife (David Morse), um homem solitário interpretado por Eddie Marsan, um casal e outros clientes que despertam alguma desconfiança. Todos podem ser o criminoso procurado. Também podem ser apenas pessoas tentando jantar em paz, o que seria uma possibilidade bastante razoável em qualquer restaurante.

O roteiro retira os nomes dos personagens e os identifica por suas funções. Há o Virtuoso, o Mentor, a Garçonete, o Xerife e o Solitário. A escolha reforça a maneira pela qual o protagonista olha para os outros. Em vez de histórias individuais, ele procura hábitos, armas escondidas, movimentos estranhos e sinais capazes de denunciar um profissional. Para ele, uma mão próxima ao bolso vale mais do que uma apresentação educada.

A ausência de informações coloca o Virtuoso diante de uma tarefa arriscada. Escolher a pessoa errada significaria matar um inocente, chamar a atenção da polícia e fracassar mais uma vez diante do Mentor. Esperar demais também pode permitir que o verdadeiro alvo deixe o restaurante. Nick Stagliano sustenta boa parte do suspense nessa dúvida, mantendo o criminoso cercado por rostos que parecem suspeitos somente porque a câmera e seu olhar insistem neles.

Uma garçonete fora do plano

A Garçonete (Abbie Cornish) logo chama a atenção do visitante. Ela conversa com naturalidade, percebe o interesse do desconhecido e se aproxima sem demonstrar medo. O Virtuoso tenta manter a relação dentro de uma distância segura, mas aceita sua companhia e permite que ela entre em um espaço reservado de sua rotina. Para um homem que passa o tempo conferindo portas e janelas, baixar a guarda diante de uma desconhecida parece uma imprudência considerável.

Abbie Cornish oferece à personagem uma simpatia cercada de mistério. A Garçonete pode ser apenas uma mulher interessada no novo cliente, mas sua presença também levanta dúvidas. Ela conhece a cidade, observa quem entra no restaurante e percebe detalhes que os moradores talvez ignorem. Essa proximidade interfere na concentração do matador e aumenta o número de pessoas capazes de descobrir sua verdadeira ocupação.

Anson Mount interpreta o Virtuoso com poucos gestos, voz baixa e expressão quase sempre fechada. A postura combina com um profissional acostumado a esconder emoções, embora a contenção por vezes torne o protagonista monótono. Ele passa tanto tempo anunciando mentalmente sua competência que o espectador começa a desconfiar dela. Um especialista talvez não precisasse lembrar a si mesmo, a cada minuto, que é especialista.

A narração em primeira pessoa acompanha grande parte de “Danos Colaterais”. O Virtuoso descreve regras, avalia comportamentos e comenta os próprios movimentos. Esse recurso permite acompanhar seu raciocínio, mas também repete informações já apresentadas pelas imagens. Em alguns trechos, a voz parece um manual de assassinato narrado por alguém excessivamente satisfeito com a própria organização.

Suspeitos e escolhas perigosas

A investigação avança quando o Virtuoso começa a observar os frequentadores fora do restaurante. Ele procura descobrir quem chegou à cidade, quem carrega uma arma e quem demonstra experiência suficiente para pertencer ao mesmo mundo profissional. Cada abordagem, porém, ameaça revelar sua presença. Quanto mais pessoas ele segue, maior fica a chance de ser reconhecido antes de concluir o serviço.

O Xerife, vivido por David Morse, merece atenção especial porque reúne autoridade, experiência e acesso a informações locais. O Virtuoso não sabe se está diante do homem procurado ou de um policial que simplesmente percebeu a chegada de um estranho. David Morse trabalha bem essa ambiguidade, mantendo o personagem entre a cordialidade e a vigilância. Basta uma pergunta feita no tom errado para transformar uma conversa comum em perigo.

Anthony Hopkins aparece menos do que o destaque de seu nome poderia sugerir. Ainda assim, o Mentor exerce influência sobre toda a missão. Ele conhece o passado do Virtuoso, fala sobre a guerra e usa a memória do pai do assassino para preservar sua autoridade. Hopkins empresta gravidade ao personagem, embora algumas falas interrompam o ritmo da busca e pareçam pertencer a uma produção mais solene.

Uma boa ideia perde precisão

“Danos Colaterais” possui uma premissa atraente. Um matador precisa identificar outro matador dentro de um restaurante, sem nome ou fotografia, enquanto o relógio diminui sua margem de escolha. A proposta poderia render um suspense mais ágil, com suspeitas bem distribuídas e personagens capazes de confundir tanto o protagonista quanto o público.

Stagliano, porém, alonga a narração e deixa parte da ação presa às observações do Virtuoso. O filme ganha energia quando o assassino sai do restaurante, investiga os candidatos e percebe que sua preparação não cobre todas as possibilidades. Também cresce quando Abbie Cornish entra em cena, pois a Garçonete oferece uma presença mais espontânea diante de tantos homens empenhados em parecer ameaçadores.

A mistura de ação, drama e suspense permanece ligada ao estado emocional do protagonista. A violência surge em episódios curtos, enquanto a culpa pela operação anterior acompanha suas escolhas. O envolvimento com a Garçonete acrescenta uma vulnerabilidade que ele preferia manter trancada. O risco maior passa a incluir a possibilidade de alguém se aproximar o bastante para reconhecer o homem escondido sob as regras profissionais.

Mesmo com um elenco respeitável, “Danos Colaterais” fica abaixo do potencial de sua proposta. Anson Mount sustenta a frieza do protagonista, Abbie Cornish injeta alguma leveza no ambiente e Anthony Hopkins transforma poucas aparições em demonstrações de autoridade. O suspense funciona melhor quando todos estão reunidos no restaurante e qualquer gesto pode denunciar o alvo. Quando se afasta desse espaço, o filme perde parte da inquietação e permite que sua suposta precisão revele algumas falhas.


Filme: Danos Colaterais
Diretor: Nick Stagliano
Ano: 2021
Gênero: Ação/Drama/Suspense
Avaliação: 3/5 1 1
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