Discover

Em Massachusetts, durante a Guerra Civil Americana, quatro irmãs enfrentam pobreza, amores e cobranças sociais enquanto tentam escolher o próprio futuro. Dirigido por Greta Gerwig, “Adoráveis Mulheres” acompanha as irmãs March em duas fases da vida, quando ainda moravam juntas em Concord e quando já buscavam caminhos separados. Jo (Saoirse Ronan) deseja viver da escrita, Meg (Emma Watson) sonha com uma família, Amy (Florence Pugh) quer estudar pintura e Beth (Eliza Scanlen) prefere a segurança da casa. Entre contas apertadas, propostas de casamento e ambições profissionais, cada uma descobre quanto custa fazer uma escolha no século 19.

A história começa com Jo March tentando vender um conto em Nova York. Diante do editor senhor Dashwood (Tracy Letts), ela aceita cortes no texto porque precisa receber pelo trabalho. A jovem escreve para ajudar a família e conquistar alguma independência, mas publica em um ambiente dominado por homens, no qual até o destino de suas personagens passa pela aprovação de um chefe. O pagamento oferece algum fôlego, embora também revele o preço cobrado de uma mulher que deseja assinar aquilo que escreve.

Na pensão onde vive, Jo conhece melhor Friedrich Bhaer (Louis Garrel), professor francês que lê seus contos e questiona o conteúdo sensacionalista. Ela se irrita com a crítica porque aquelas páginas garantem sua renda. A discussão afasta os dois e mostra uma escritora dividida entre produzir o que vende e criar algo que considere realmente seu. Saoirse Ronan apresenta essa inquietação com energia, teimosia e uma impaciência que torna Jo admirável e, em certas ocasiões, bastante cansativa. Conviver com ela exige fôlego.

Greta Gerwig intercala esse período adulto com os anos em que Jo morava em Concord ao lado das irmãs. A mudança de época surge nas cores, nas roupas e no comportamento das personagens. As lembranças da juventude são mais quentes e movimentadas, enquanto o presente traz ambientes frios e quartos solitários. O recurso não existe apenas para enfeitar a adaptação. Ele permite que uma cena feliz seja seguida pela ausência da mesma pessoa anos depois, dando peso às separações sem transformar a narrativa em uma sucessão de tragédias.

Laurie entra na casa March

Na juventude, as irmãs vivem com a mãe, Marmee (Laura Dern), enquanto o pai serve como capelão na guerra. A família tem pouco dinheiro, mas mantém uma casa barulhenta, cheia de peças teatrais, roupas compartilhadas e pequenas discussões. Marmee cuida das filhas, ajuda vizinhos ainda mais pobres e tenta ensinar generosidade sem fingir que nunca sente raiva. Sua sinceridade impede que a personagem vire uma santa doméstica sem defeitos.

Do outro lado da rua mora Theodore “Laurie” Laurence (Timothée Chalamet), jovem rico criado pelo avô, o senhor Laurence (Chris Cooper). Laurie aproxima-se de Jo e logo passa a frequentar a residência dos March. Ele participa das brincadeiras, dança com Meg e se torna presença constante entre as irmãs. Sua fortuna lhe oferece viagens e estudos, vantagens que aquelas jovens precisam conquistar por outros meios. Ainda assim, o rapaz inveja a intimidade daquela família e procura nela o afeto que falta em sua mansão.

A amizade entre Jo e Laurie cresce porque ambos gostam de liberdade, travessuras e conversas pouco cerimoniosas. Ele deseja transformar a proximidade em romance, enquanto ela teme perder a própria autonomia dentro de um casamento. Jo gosta do amigo, mas sabe que carinho e compatibilidade não são a mesma coisa. A recusa causa dor porque Laurie representa uma vida confortável e cercada de afeto. Mesmo assim, aceitar apenas por segurança significaria abandonar a decisão mais importante de sua juventude.

Meg escolhe uma vida modesta

Meg, a irmã mais velha, deseja casamento e estabilidade. Ela se apaixona por John Brooke (James Norton), professor particular de Laurie, embora ele não tenha fortuna. A tia March (Meryl Streep) desaprova a união e lembra que uma mulher sem patrimônio depende financeiramente do marido. Meg conhece o risco, mas prefere construir uma casa com John a esperar um pretendente rico escolhido por conveniência.

A vida conjugal, porém, não apaga seu desejo por vestidos bonitos e conforto. Quando compra um tecido caro, Meg compromete as contas domésticas e precisa contar ao marido. O episódio é pequeno, quase banal, mas revela uma frustração reconhecível. Ela ama John e ainda sente falta da vida que poderia ter levado. Emma Watson oferece delicadeza à personagem, embora sua interpretação receba menos espaço que as atuações de Saoirse Ronan e Florence Pugh.

Amy, por sua vez, passa boa parte da juventude à sombra de Jo. A caçula quer acompanhar as irmãs, participar das peças e receber a atenção de Laurie, mas costuma ser tratada como criança. Depois de uma briga, comete um gesto cruel contra a irmã e descobre que certas mágoas deixam marcas profundas. O roteiro permite que ela amadureça sem apagar sua vaidade, sua ambição ou o ressentimento acumulado dentro de casa.

Amy cresce longe de Concord

Anos depois, Amy viaja à Europa com a tia March para estudar pintura. Em Paris, volta a encontrar Laurie, agora abatido e sem grande interesse pelos próprios compromissos. Ela critica a acomodação do rapaz e também avalia o próprio talento com honestidade. Amy deseja ser uma artista respeitada, mas sabe que pode não alcançar o nível necessário para viver da pintura. Essa lucidez a distingue de Jo, que insiste na escrita mesmo quando recebe recusas.

Florence Pugh transforma Amy em uma mulher inteligente, engraçada e consciente das regras impostas ao seu sexo. Para ela, casamento também envolve patrimônio, filhos e sobrevivência. Uma esposa perde poder sobre o dinheiro e depende das escolhas do marido. Por isso, Amy observa pretendentes com atenção e se recusa a tratar o romance como aventura sem custo. Sua postura pode parecer calculista, mas nasce de uma realidade que Jo consegue desafiar apenas porque outras pessoas sustentam parte de sua liberdade.

Beth ocupa um espaço mais silencioso. Tímida e ligada à música, ela cria uma amizade com o senhor Laurence após tocar o piano na mansão vizinha. A relação aproxima as duas famílias e oferece à jovem um lugar onde pode desenvolver seu talento. Quando sua saúde piora, as irmãs voltam para Concord e interrompem planos pessoais. Eliza Scanlen interpreta Beth com contenção, sem transformá-la apenas na figura frágil que desperta pena.

Escrever também custa dinheiro

A doença de Beth obriga Jo a olhar novamente para a casa, para as irmãs e para aquilo que deixou para trás. O retorno também desperta nela a vontade de escrever algo mais pessoal. As experiências da família viram matéria para um novo livro, mas a autora ainda precisa enfrentar as exigências do mercado editorial. O senhor Dashwood quer uma história vendável e insiste que a protagonista deve terminar casada, pois imagina que os leitores esperam esse desfecho.

É nesse ponto que “Adoráveis Mulheres” ganha sua camada mais inteligente. Gerwig aproxima Jo da escritora Louisa May Alcott e transforma a publicação do romance numa disputa por dinheiro, direitos autorais e controle da obra. A questão amorosa permanece importante, mas divide espaço com uma pergunta menos romântica. Quem recebe pelo livro e quem decide seu encerramento?

“Adoráveis Mulheres” preserva o afeto familiar do romance publicado em 1868, mas trata as irmãs como pessoas com desejos diferentes. Meg não é menos corajosa por querer casamento. Amy não é fria por pensar em segurança financeira. Beth não é irrelevante por preferir a casa. Jo tampouco possui todas as certezas apenas porque deseja independência. Greta Gerwig acompanha essas escolhas com sensibilidade, movimento e uma boa dose de bagunça doméstica. Quando Jo coloca seu manuscrito sobre a mesa do editor, ela exige pagamento justo e mantém para si os direitos daquela história.


Filme: Adoráveis Mulheres
Diretor: Greta Gerwig
Ano: 2019
Gênero: Drama/Épico/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

Leia Também