Em 2070, na Nova Ásia, o ex-agente Joshua Taylor (John David Washington) aceita uma missão militar para localizar Maya (Gemma Chan), sua mulher desaparecida, e destruir uma poderosa arma criada pela inteligência artificial. Dirigido por Gareth Edwards, “Resistência” acompanha esse homem ferido pelo luto enquanto ele atravessa uma região ocupada pelos Estados Unidos e descobre que o alvo procurado é Alphie (Madeleine Yuna Voyles), uma menina sintética capaz de controlar aparelhos eletrônicos.
A guerra começou após a destruição de Los Angeles por uma bomba nuclear, tragédia atribuída à inteligência artificial. Em resposta, os Estados Unidos baniram essa tecnologia e passaram a caçar robôs e simulantes. A Nova Ásia seguiu outro caminho. Na região, humanos e seres artificiais dividem cidades, trabalhos, templos e famílias. Para Washington, essa convivência representa uma ameaça que precisa ser eliminada.
Joshua conhece os dois lados dessa disputa. Anos antes, ele foi enviado à Nova Ásia para se infiltrar entre os aliados das máquinas e localizar Nirmata, o misterioso criador de uma inteligência artificial avançada. Durante a operação, ele se apaixonou por Maya, casou-se com ela e passou a levar uma vida distante do Exército. Tudo mudou quando forças americanas invadiram a casa do casal. Maya desapareceu durante o ataque, e Joshua acreditou que ela havia morrido.
Uma missão movida pela ausência
Cinco anos depois, a coronel Howell (Allison Janney) procura Joshua com uma informação capaz de arrancá-lo do isolamento. Imagens militares indicam que Maya pode estar viva. Para chegar até ela, o antigo agente terá de participar de uma incursão ao território controlado pelos aliados da inteligência artificial. A equipe pretende destruir uma arma que, nas mãos de Nirmata, poderia encerrar a guerra e ameaçar a supremacia americana.
Joshua aceita porque deseja rever a mulher, não porque tenha recuperado a fé no Exército. Sua relação com os militares permanece cercada por desconfiança. Howell precisa dele por seu conhecimento da região e por sua antiga proximidade com Maya. Ele, por sua vez, depende das informações guardadas pelos superiores. Cada lado oferece apenas o necessário para manter o outro trabalhando.
A operação leva o grupo a uma instalação secreta. Lá, Joshua descobre que a arma tem o corpo e o comportamento de uma criança. Alphie parece uma menina comum, embora possua uma estrutura artificial e habilidades que nenhum outro simulante alcançou. Ela consegue interferir em sistemas eletrônicos à distância, recurso valioso num território vigiado por aeronaves, portas automáticas e equipamentos militares.
Joshua recebe a ordem de matá-la. Em vez disso, percebe que Alphie pode saber onde Maya está e decide levá-la consigo. A escolha rompe o acordo com Howell e transforma o antigo soldado em alvo do próprio Exército. A partir desse ponto, “Resistência” assume a forma de uma aventura de fuga, mas preserva a dor pessoal que levou Joshua de volta à Nova Ásia.
Uma criança no centro da guerra
Madeleine Yuna Voyles dá a Alphie uma mistura delicada de curiosidade, medo e firmeza. A personagem observa os adultos tentando decidir seu destino e reage com a sinceridade de quem ainda não aprendeu a esconder o que sente. Algumas conversas com Joshua trazem leveza à viagem. Ele tenta impor regras, enquanto ela demonstra pouca disposição para obedecer a um homem que sequer explica para onde estão indo. Criar uma criança já exige fôlego. Criar uma criança capaz de desligar aparelhos com a mente parece um serviço ainda menos tranquilo.
John David Washington interpreta Joshua como um homem dividido entre a missão pessoal e a responsabilidade pela menina. Ele começa vendo Alphie como a única passagem possível até Maya. A convivência, porém, dá outro peso às escolhas feitas durante a fuga. Joshua precisa protegê-la de soldados americanos, atravessar postos de vigilância e buscar ajuda entre pessoas que conhecem sua antiga ligação com o Exército.
A dupla também cruza o caminho de Harun (Ken Watanabe), combatente sintético ligado à resistência da Nova Ásia. Ele conhece os planos de Nirmata e oferece outra versão para a guerra iniciada pelos Estados Unidos. Joshua, que durante anos aceitou a responsabilidade das máquinas pelo ataque a Los Angeles, passa a conviver com informações que colocam sua lealdade sob pressão. O roteiro mantém essa dúvida ligada às ações do protagonista, sem transformar a história numa aula sobre tecnologia.
O poder que vem do céu
A maior demonstração da força americana está no NOMAD, uma plataforma militar que sobrevoa a Nova Ásia. O equipamento rastreia alvos no solo e orienta ataques contra vilas, bases e esconderijos. Sua presença no céu impõe uma ameaça constante. Quando seus feixes de luz alcançam determinada área, moradores e integrantes da resistência têm poucos minutos para sair.
Gareth Edwards aproveita o NOMAD para dar escala à perseguição. Joshua e Alphie não enfrentam somente homens armados. Eles fogem de uma estrutura capaz de observar grandes extensões do território e atingir comunidades inteiras. O contraste entre os campos, os templos e a enorme nave militar reforça a desigualdade da guerra. De um lado estão pessoas correndo por estradas e plantações. Do outro, há uma potência que ataca sem precisar pisar no mesmo chão.
O diretor também integra robôs e simulantes à rotina da Nova Ásia com admirável naturalidade. Eles trabalham, cuidam de crianças, praticam rituais religiosos e procuram abrigo durante os ataques. A aparência mecânica não elimina seus gestos humanos. Essa convivência oferece ao filme suas imagens mais interessantes e ajuda o público a perceber por que Alphie representa algo maior do que a arma descrita pelos militares.
A beleza esconde algumas pressas
“Resistência” combina ação, aventura, drama e ficção científica sem abandonar a relação entre Joshua e Alphie. As batalhas ocupam boa parte da história, mas o envolvimento nasce dos instantes em que os dois precisam confiar um no outro. Washington transmite o desgaste de um homem que perdeu quase tudo. Voyles, ainda muito jovem, sustenta a sensibilidade da menina sem torná-la frágil ou excessivamente adorável.
O roteiro possui ideias relevantes sobre ocupação militar, propaganda e medo tecnológico, embora nem todas recebam o mesmo cuidado. Alguns personagens entram na história apenas para fornecer ajuda, informação ou perigo. A velocidade dos acontecimentos também deixa pouco espaço para certas revelações. Edwards parece tão interessado em manter a dupla em movimento que, por vezes, deixa sentimentos importantes para trás.
Ainda assim, “Resistência” se destaca entre as grandes produções recentes por apresentar um universo futurista com personalidade própria. O filme usa a guerra contra as máquinas para acompanhar um homem que precisa decidir quanto vale a esperança de reencontrar Maya e até onde irá para manter Alphie viva. Enquanto o NOMAD fecha o cerco sobre a Nova Ásia, Joshua segura a mão da menina e procura uma saída antes que os militares alcancem os dois.

