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Em um futuro próximo, Arlen (Suki Waterhouse) é expulsa dos Estados Unidos e abandonada numa região desértica do Texas reservada aos cidadãos considerados indesejáveis. Sem proteção legal, água suficiente ou qualquer possibilidade de retorno, ela cai nas mãos de uma comunidade de canibais. A jovem escapa com graves ferimentos e chega a Comfort, assentamento comandado pelo enigmático Sonho (Keanu Reeves). Ali, precisa reconstruir a própria vida enquanto Miami Man (Jason Momoa), pai de uma menina desaparecida, cruza o deserto à procura da filha.

“Amores Canibais”, escrito e dirigido por Ana Lily Amirpour, começa com uma cerimônia de expulsão tão simples quanto assustadora. Arlen recebe uma identificação, atravessa uma cerca e deixa oficialmente de ser cidadã norte-americana. Uma placa informa que, daquele ponto em diante, as leis do país já não oferecem proteção. Ninguém precisa persegui-la. Basta fechar o portão e permitir que o calor faça o serviço.

Arlen começa a caminhar carregando pouca água e nenhuma informação sobre o território. Logo é capturada por duas mulheres e levada até uma comunidade formada por canibais. Presa por uma corrente, ela percebe que seu corpo foi transformado em alimento. Parte da agressão fica fora de quadro, mas os sons e a espera tornam a sequência bastante incômoda. A violência não aparece apenas para assustar. Ela define as limitações que acompanharão a protagonista pelo restante da história.

Mesmo ferida, Arlen consegue fugir. Sua sobrevivência depende de um esforço quase absurdo, feito sob um sol que parece ter sido contratado para eliminar qualquer esperança. Um eremita sem nome, interpretado por Jim Carrey, encontra a jovem e a leva até Comfort. O ator está quase irreconhecível, coberto por barba e poeira, numa participação silenciosa que dispensa as expressões elásticas pelas quais ficou famoso.

O conforto tem proprietário

Comfort reúne pessoas expulsas da sociedade, vendedores, moradores improvisados e frequentadores de festas embaladas por música eletrônica. O assentamento possui comida, energia, próteses e alguma organização. Depois de enfrentar o deserto, aquele lugar parece uma salvação. A segurança, porém, depende do Sonho, líder vivido por Keanu Reeves com terno branco, bigode, óculos escuros e a serenidade ligeiramente suspeita de quem nunca precisa pedir licença.

O Sonho controla recursos e exerce forte influência sobre os moradores. Seus encontros misturam festa, pregação e culto à personalidade. Keanu Reeves fala com uma tranquilidade divertida, embora o personagem permaneça cercado por homens armados e mulheres submetidas à sua autoridade. Comfort oferece sopa, música e encanamento, luxos consideráveis naquela região. Também exige obediência. O pacote inclui água corrente e devoção ao chefe.

Meses após a chegada, Arlen já utiliza uma prótese na perna e aprendeu a circular pelo assentamento. Suki Waterhouse interpreta a personagem com poucas falas, expressão fechada e uma insolência que resiste aos ferimentos. Ela não se torna uma guerreira invencível. Continua vulnerável, erra decisões e reage muitas vezes por raiva. Essa imperfeição dá alguma humanidade a uma história cercada por figuras excêntricas.

Uma menina entre dois mundos

Durante uma saída pelo deserto, Arlen encontra Honey (Jayda Fink), filha de Miami Man. A menina pertence ao grupo dos canibais, mas sua presença impede que a protagonista divida aquele território apenas entre vítimas e monstros. Arlen leva Honey para Comfort e assume uma responsabilidade maior do que seus recursos permitem. A criança depende dela para permanecer segura, enquanto outras pessoas do assentamento também passam a demonstrar interesse pela recém-chegada.

Jayda Fink constrói Honey com silêncios e pequenos gestos. A menina observa os adultos com uma serenidade inquietante, talvez porque já tenha visto coisas demais para a idade. Sua entrada liga as duas comunidades e oferece ao roteiro um objetivo concreto. Arlen precisa protegê-la. Miami Man precisa descobrir onde ela está. O Sonho possui homens, armas e acesso a tudo dentro de Comfort.

Miami Man, interpretado por Jason Momoa, deixa o território dos canibais quando percebe que sua filha desapareceu. O personagem tem o porte físico esperado do ator, mas sua busca nasce de um vínculo familiar, não de uma demonstração de força. Ele percorre o deserto recolhendo pistas e procurando uma entrada para Comfort. A ferocidade apresentada no início passa a conviver com a angústia de um pai que desconhece o paradeiro da criança.

Um romance improvável e desconfortável

O encontro entre Arlen e Miami Man sustenta a parte romântica de “Amores Canibais”, embora o roteiro jamais permita esquecer a origem daquela relação. Ela carrega no corpo as marcas deixadas pela comunidade dele. Miami Man, por sua vez, depende da jovem para chegar até Honey. A aproximação nasce da necessidade, da solidão e do fato de ambos terem sido descartados pelo mesmo país.

Ana Lily Amirpour dedica bastante tempo às caminhadas, aos olhares e às pausas. Esse ritmo pode cansar quem espera uma sucessão de ataques ou perseguições. O filme dura quase duas horas e, em alguns trechos, parece tão perdido no deserto quanto seus personagens. Ainda assim, a diretora cria um ambiente curioso, povoado por canibais musculosos, andarilhos cobertos de poeira, festas noturnas e um líder que oferece conforto com a simpatia de um vendedor de condomínio.

A mistura de ação, terror, ficção científica e romance nem sempre mantém a mesma força. O começo é brutal e possui uma tensão que os capítulos seguintes não conservam por inteiro. Quando a história se volta para Honey e Miami Man, a violência cede espaço a relações familiares e afetivas. Essa mudança torna o enredo mais humano, embora enfraqueça parte da ameaça apresentada nos primeiros minutos.

“Amores Canibais” acompanha escolhas concretas de Arlen. Permanecer em Comfort significa aceitar o domínio do Sonho. Sair exige atravessar uma terra sem água, polícia ou socorro. Confiar em Miami Man implica aproximar-se de alguém ligado ao pior episódio de sua vida. Suki Waterhouse mantém essas dúvidas presentes mesmo quando a personagem permanece calada. Arlen segue pelo deserto porque parar significa entregar a própria vida a outra pessoa, e ela já perdeu demais para aceitar uma nova corrente.


Filme: Amores Canibais
Diretor: Ana Lily Amirpour
Ano: 2016
Gênero: Ação/Ficção Científica/Romance/Terror
Avaliação: 3/5 1 1
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