Sarah Ashburn (Sandra Bullock) é uma agente competente do FBI, embora tenha uma dificuldade notável para perceber quanto irrita os colegas. Ambiciosa e solitária, ela acredita que seus resultados deveriam garantir uma promoção. Seu chefe, Hale (Demián Bichir), oferece uma oportunidade. Ashburn deve viajar de Nova York para Boston e descobrir a identidade de Larkin, traficante que elimina concorrentes e assume seus negócios. Se concluir a missão, poderá conquistar o cargo desejado. O plano parece simples até ela conhecer a policial responsável pelas ruas onde precisa investigar.
Dirigida por Paul Feig, “As Bem-Armadas” usa essa missão para reunir duas profissionais eficientes que não suportam dividir autoridade. Ashburn valoriza relatórios, procedimentos e hierarquia. Shannon Mullins (Melissa McCarthy), detetive da polícia de Boston, prefere intimidar suspeitos e resolver cada problema à sua maneira. Uma chega com credenciais federais e confiança excessiva. A outra conhece o bairro, os criminosos e todas as formas possíveis de transformar uma abordagem policial em confusão.
Uma prisão inicia a disputa
A primeira pista importante é Rojas (Spoken Reasons), traficante detido por Mullins antes da chegada do FBI. Ashburn vai à delegacia interrogá-lo porque acredita que ele conhece alguém ligado a Larkin. Mullins não aceita que uma agente recém-chegada assuma um preso capturado por ela. O encontro vira uma disputa por acesso, autoridade e informação, enquanto Rojas tenta sobreviver à pressão das duas.
Hale determina que Ashburn trabalhe ao lado de Mullins, embora nenhuma delas demonstre entusiasmo. A agente federal tenta preservar a investigação e manter os procedimentos legais. A detetive interrompe perguntas, invade espaços e trata qualquer regra como uma sugestão pouco interessante. A graça nasce dessa incompatibilidade. Bullock sustenta a irritação de quem acredita ser a pessoa mais preparada da sala. McCarthy responde com agressividade, improviso e um vocabulário capaz de assustar suspeitos e policiais.
O roteiro de Katie Dippold permite que as duas errem bastante antes de formar uma dupla convincente. Ashburn conhece as normas, mas seu comportamento arrogante dificulta a cooperação. Mullins domina o território, porém sua brutalidade ameaça provas e operações. Cada tentativa de assumir o comando custa tempo à investigação, oferecendo a Larkin mais espaço para proteger sua identidade.
A investigação chega à boate
Ashburn e Mullins seguem Hank LeSoire (Adam Ray), gerente do Club Ekko e possível ligação com os traficantes. Elas entram na boate para observar seus contatos e instalar uma escuta em seu telefone. A missão exige discrição, qualidade que nenhuma das duas consegue preservar por muito tempo. Ashburn procura manter o plano. Mullins reage às provocações e transforma o ambiente numa extensão barulhenta da delegacia.
Na saída, elas são abordadas pelos agentes da DEA Craig (Dan Bakkedahl) e Adam (Taran Killam), que investigam Larkin há meses. A presença da agência cria outra barreira. FBI, polícia de Boston e DEA passam a disputar as mesmas fontes, enquanto o criminoso permanece protegido. Ashburn tenta defender a autoridade federal. Mullins se recusa a entregar o trabalho local a homens que tratam sua cidade como território alheio. A rivalidade entre os órgãos restringe a circulação de informações e deixa a dupla com menos tempo para agir.
Paul Feig mantém a câmera próxima das atrizes durante discussões e interrogatórios, aproveitando pausas, olhares e interrupções. Bullock ganha graça quando Ashburn perde a compostura que tanto procura preservar. McCarthy domina ambientes maiores, mas também permite que Mullins revele vergonha, afeto e medo quando o caso se aproxima de sua família. A comédia funciona melhor quando as piadas nascem das ações das personagens. Algumas provocações se prolongam além do necessário, sobretudo quando os coadjuvantes aparecem apenas para receber insultos.
O caso alcança a família
Uma gravação aproxima a investigação de Jason Mullins (Michael Rapaport), irmão de Shannon, recém-saído da prisão. Foi a própria detetive quem o prendeu por envolvimento com drogas, decisão que rompeu sua relação com os parentes. Ashburn precisa saber o que Jason conhece sobre Larkin. Pressioná-lo, porém, pode afastar uma fonte valiosa e colocar toda a família em perigo.
A visita à casa dos Mullins expõe o tamanho da ferida. A senhora Mullins (Jane Curtin) e os demais parentes recebem Shannon com hostilidade, enquanto Ashburn tenta manter alguma formalidade diante de uma família que discute aos gritos. A agente, acostumada a salas controladas, perde qualquer vantagem naquele ambiente. Shannon conhece cada ofensa antes que ela seja pronunciada, mas não consegue recuperar o espaço perdido desde a prisão do irmão.
A sequência também permite que Ashburn veja a parceira fora da delegacia. Shannon não é apenas a policial grosseira que ocupa salas e interrompe interrogatórios. Ela aceitou o desprezo dos parentes para impedir que Jason continuasse envolvido com o crime. A decisão protegeu o irmão, mas deixou a detetive isolada dentro da própria casa. Ashburn reconhece esse preço porque sua dedicação ao FBI também afastou quase todas as pessoas ao redor.
A hostilidade vira confiança
Uma noite de bebida cria uma trégua entre elas. Sem chefes, suspeitos ou agentes rivais por perto, Ashburn e Mullins dividem frustrações e constrangimentos. A aproximação não apaga as diferenças, mas muda a forma pela qual enfrentam os riscos da operação. Ashburn passa a confiar no conhecimento de rua da detetive. Mullins aceita que os procedimentos da agente federal podem preservar provas e impedir que o caso desmorone.
“As Bem-Armadas” segue a tradição das comédias sobre policiais incompatíveis, com perseguições, vigilância, armas e discussões. A diferença está no espaço concedido a duas mulheres que podem ser ambiciosas, agressivas, grosseiras e competentes sem pedir desculpas por ocuparem o centro da ação. Paul Feig não transforma a amizade em lição edificante. Ele permite que ela cresça entre erros, insultos, ressacas e decisões perigosas.
Sandra Bullock e Melissa McCarthy seguram o filme mesmo quando o mistério fica sem graça ou uma piada demora a terminar. Ashburn oferece disciplina e atenção aos detalhes. Mullins conhece Boston e percebe ameaças que os agentes federais ignoram. Separadas, comprometem a investigação por orgulho. Juntas, dividem pistas, protegem testemunhas e entram nas ruas com uma chance maior de chegar a Larkin antes que ele faça outra vítima.

