Fazer uma lista dos melhores livros de um ano já é uma atividade cercada de perigos, alguns literários, outros simplesmente cronológicos. O romance lançado em fevereiro teve dez meses para ser lido, discutido, premiado e esquecido ou consagrado, enquanto aquele que chegou às livrarias em novembro mal conseguiu tirar o plástico. Fazer a mesma coisa com dez anos de literatura brasileira multiplica o problema por dez e acrescenta outros. Há anos fartamente documentados, outros nem tanto; publicações que preservam seus balanços na internet, outras que deixaram links mortos pelo caminho; prêmios que mudaram regulamentos, categorias e júris; livros recebidos com fanfarra e depois sumidos; livros que começaram discretos e cresceram na memória crítica. Somar aparições e declarar o vencedor seria fácil. Seria também meio idiota.
A lista que vem abaixo tentou fazer algo mais trabalhoso, uma lista das listas. Foram cruzados balanços anuais, votações e retrospectivas da Quatro Cinco Um, Folha de S.Paulo, Suplemento Pernambuco, EL PAÍS Brasil, São Paulo Review, Revista Bula e outras publicações, além dos resultados de prêmios como Jabuti, Oceanos, São Paulo de Literatura e Biblioteca Nacional. Quando uma votação informava o número de indicações, isso tinha peso. Quando um livro reaparecia anos mais tarde numa consulta retrospectiva, tinha peso maior ainda; o entusiasmo da semana do lançamento é uma coisa, continuar sendo lembrado depois que a assessoria de imprensa mudou de assunto é outra.
Também foi preciso levar em conta uma desigualdade banal, mas decisiva. Não há o mesmo número de listas recuperáveis para 2016 e 2024, por exemplo. Por isso a recorrência foi considerada proporcionalmente dentro de cada ano, e não como uma corrida de números absolutos em que os livros mais recentes largariam alguns metros à frente. Prêmio tampouco valeu como salvo-conduto. Um Jabuti, um Oceanos ou qualquer distinção importante representa o julgamento de um grupo qualificado de leitores sobre determinado universo de concorrentes. É ótima evidência. Evidência, não bula papal.
Depois desse peneiramento ainda restava literatura, inconveniente detalhe que qualquer metodologia excessivamente satisfeita consigo mesma tende a esquecer. Um livro pode aparecer em seis listas e ser menos interessante que outro presente em quatro. Pode envelhecer em três anos. Pode ter um assunto de enorme ressonância e uma forma literária banal. Pode perder prêmios e continuar crescendo. Entraram então coisas que não cabem direito em planilhas. Linguagem, personagens, construção, originalidade, invenção formal, capacidade de permanecer vivo depois que o contexto imediato perdeu temperatura.
Adotou-se ainda uma regra arbitrária — e assumidamente arbitrária. Um livro por escritor. O resultado não pretende demonstrar que estes são, por alguma operação científica ainda desconhecida, os únicos 25 grandes livros brasileiros publicados entre 2016 e 2025. Pretende algo ao mesmo tempo mais modesto e mais defensável, reunir os 25 títulos que apresentaram a combinação mais forte de recepção crítica, consistência literária e permanência no período examinado. E agora, ufa, os livros.
01 Como se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas
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Dois desconhecidos passam um verão numa sala do Rio de Janeiro. Ela, designer, está procurando emprego; ele trabalha na informatização de uma editora decadente e ocupa boa parte do tempo contando seus encontros com prostitutas. Ou, para sermos mais precisos, contando a versão dele desses encontros. A mulher quase não fala, mas ouve, imagina, preenche buracos e altera mentalmente aquilo que lhe chega, porque escutar uma história nunca foi atividade tão passiva quanto parece.
Aí está o mecanismo do romance. Elvira Vigna, escritora avessa a certezas narrativas e a personagens que entregam de bandeja a chave da própria interpretação, constrói um jogo de sobreposições em que a verdade importa menos como tesouro escondido no fundo da página do que como algo inevitavelmente contaminado por quem conta e por quem recebe o relato. O palimpsesto não é adereço erudito; uma história é escrita sobre a outra e os vestígios da versão anterior continuam aparecendo. Engraçado, incômodo, frequentemente cruel, o livro tem ainda a qualidade de não sublinhar sua inteligência. Vigna confia que o leitor sabe ouvir também aquilo que não foi dito.
02 A Bíblia do Che
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Carlos Eduardo, professor recluso em Curitiba, recebe de um operador financeiro uma encomenda que parece saída da fantasia úmida de um colecionador, localizar uma Bíblia que Che Guevara teria anotado numa suposta passagem pelo Brasil. Já seria um bom ponto de partida para uma aventura bibliográfica, essa combinação de relíquia religiosa, fetiche revolucionário e objeto de mercado. O problema — ou a vantagem, para o romance — é que o contratante aparece morto.
A investigação vai então se enroscando com Celina, mulher do sujeito, construtoras, dinheiro clandestino de campanha, caixa dois e governo, num deslocamento esperto do mundo aparentemente excêntrico dos livros raros para outro tipo de raridade brasileira — dinheiro político de origem perfeitamente limpa.
Miguel Sanches Neto se apropria sem cerimônia de instrumentos do policial e da aventura, mas o melhor está na ironia com que trata a transformação do passado em mercadoria. Che, Bíblia, autenticidade, corrupção, desejo — tudo termina submetido ao mesmo princípio de valor. A revolução também pode ter preço de catálogo.
03 Machado
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É preciso algum topete para transformar Machado de Assis em personagem. O homem passou mais de um século sendo biografado, canonizado, usado para explicar o Brasil, colocado em bustos, provas de vestibular e frases de caneca, até chegar a nós com aquela aparência perigosa das figuras históricas que todo mundo julga conhecer.
Silviano Santiago escolhe justamente o Machado menos monumental. Viúvo, velho, sujeito a crises nervosas, ele atravessa os primeiros anos do século 20 enquanto o Rio muda de pele à força e encontra em Mário de Alencar, filho de José de Alencar e também atormentado por crises, uma espécie de interlocutor. O médico Miguel Couto entra nessa rede de amizade, fragilidade física e cuidados.
O achado está menos na reconstrução biográfica do que no gesto de devolver corpo a quem a posteridade reduziu a cérebro. Silviano não se entrega à ventriloquia machadiana — graças aos céus — nem tenta escrever um romance “como Machado escreveria”. Prefere aproximar doença, cidade, amizade, envelhecimento e literatura, fazendo o escritor descer do pedestal sem precisar empurrá-lo. Já era tempo.
04 O Amor dos Homens Avulsos
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Há um subúrbio carioca, um calor quase material, futebol, infância, um pai médico e, de repente, a chegada à casa de um menino apadrinhado por esse pai. Os dois garotos se aproximam; dessa proximidade nasce um amor que será interrompido por uma agressão e pela morte. Décadas mais tarde, aquilo continua existindo não como o bloco imutável que costumamos chamar de trauma, mas do jeito como o passado costuma de fato existir, misturado, deformado, às vezes engraçado, às vezes insuportável.
Victor Heringer tinha um ouvido raro para deslocar o tom da frase no momento em que ela ameaçava se acomodar. A ternura roça o grotesco, o humor atravessa regiões onde outro escritor poderia instalar um velório permanente e a memória amorosa nunca ganha aquele verniz que transforma infâncias literárias em álbuns de fotografias amareladas.
Sua morte precoce, em 2018, tornou inevitável a tentação de ler o romance pensando na obra que não chegou a existir. Seria injusto depender disso. O que havia para comprovar já estava na página, uma voz estranha e inteiramente sua.
05 Noite Dentro da Noite
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Um garoto de onze anos bate a cabeça durante uma brincadeira na escola, entra em coma e acorda com a memória em ruínas. A partir daí começa o chamado Ano do Grande Branco. Ele já não sabe direito quem é, desconfia que seus pais talvez não sejam seus pais, toma barbitúricos receitados pelo médico e tenta se orientar num mundo que, em vez de ir ganhando contornos, parece fazer exatamente o contrário.
Logo entram espiões, guerrilheiros, episódios históricos, suspeitas e lembranças possivelmente falsas. É sonho? Memória? Alucinação? História? Terron tem a boa educação de não distribuir crachás.
Não é um livro preocupado em acolher o leitor pela mão. A fragmentação e a desorientação que poderiam ser defeitos em outra narrativa constituem aqui o próprio princípio formal. Um personagem sem memória atravessa uma história — pessoal e brasileira — cheia de apagamentos. O resultado corre riscos evidentes, inclusive o de cansar quem queira um mapa. Mas romance sem risco é outra coisa. Catálogo de móveis, talvez.
06 Enterre Seus Mortos
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Edgar Wilson recolhe animais mortos nas estradas. Tomás, seu companheiro de trabalho, é um ex-padre excomungado que continua oferecendo extrema-unção aos moribundos encontrados pelo caminho. A rotina desses dois homens — dura, suja, braçal, quase invisível para o resto da sociedade — se complica quando Edgar encontra o corpo de uma mulher e nem a polícia consegue se encarregar dele. Outros mortos virão.
Ana Paula Maia trabalha há anos numa região pouco frequentada da ficção brasileira, povoada pelos sujeitos que fazem os serviços dos quais todo mundo depende e sobre os quais ninguém quer pensar muito. Aqui a pergunta moral nasce sem discurso. Por que o cadáver de uma pessoa exige um tipo de consideração e uma carcaça animal, outro? E o que ocorre quando as instituições responsáveis nem sequer conseguem garantir essa distinção? A frase curta e seca não transforma a violência em espetáculo. Edgar Wilson também não se põe a filosofar. Trabalha.
07 A Tirania do Amor
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Otavio Espinhosa, economista, decide abdicar do sexo. A resolução tem alguma coisa de grandiosa em sua cabeça e de bastante ridícula quando vista de fora, mas logo percebemos que esse é apenas mais um item numa contabilidade desastrosa. Casamento arruinado, relação complicada com o filho, carreira universitária encerrada, uma tentativa anterior de prosperar como guru de autoajuda, emprego ameaçado numa empresa de investimentos e, como se ainda faltasse algum componente, uma investigação financeira.
Tezza é especialmente bom em homens que usam a inteligência para compreender o mundo e descobrem, tarde e repetidamente, que compreender não significa controlar. Otavio calcula tudo. O problema é que casamento, desejo, paternidade, trabalho — e países — costumam ter péssima disposição para obedecer a equações.
No fundo da história entra o Brasil da Lava Jato, não como grande mural explicativo mas como outra versão da mesma ansiedade por reduzir desordens complexas a culpados, números e soluções claras. A comicidade vem desse contraste entre a solenidade das explicações e o resultado miserável delas. Matematicamente, não fecha.
08 O Sol na Cabeça
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Treze contos sobre garotos das favelas do Rio. Praia, amizade, maconha, polícia, tráfico, racismo, violência, diversão. Dito assim parece o temário previsível de uma pauta sociológica sobre juventude periférica. Felizmente é literatura.
A primeira coisa que chamou atenção quando Geovani Martins apareceu foi a língua — e havia motivo. Gíria, oralidade, variações de registro e sintaxe entram na página sem notas explicativas para o visitante de fora e, sobretudo, sem aquela artificialidade constrangedora do escritor que coleciona fala popular como quem captura borboletas. A voz muda porque os personagens e as situações mudam.
Mas há outro mérito, talvez menos comentado e igualmente importante. O autor gosta de histórias. “Rolézim”, por exemplo, funciona porque existe um grupo de adolescentes querendo chegar à praia, um desejo concreto, obstáculos, tensão, graça. Martins não usa enredo como desculpa para exibir linguagem nem linguagem como embalagem de mensagem. As duas coisas andam juntas.
09 O Pai da Menina Morta
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Uma menina de oito anos morre. Seu pai permanece. É uma premissa que traz embutida uma vantagem emocional quase indecente. O leitor já chega desarmado. Bastaria explorar lembranças, dor, culpa e ausência para construir um livro comovente, talvez até muito comovente, e artisticamente banal. Tiago Ferro parece ter compreendido o perigo e opta por complicar aquilo que poderia ser simples.
A experiência real que deu origem ao romance, vivida pelo autor em 2016, entra numa composição fragmentada em que luto convive com sexo, humor, memória e invenção. Não existe esforço para transformar o pai sofredor numa figura moralmente purificada pela tragédia. Pelo contrário; a narrativa insiste em preservar tudo aquilo que a dor não torna belo.
A fragmentação, tão frequentemente usada na ficção contemporânea como maquiagem de modernidade, aqui encontra razão concreta para existir. Depois de certas experiências, talvez organizar demais a história seja justamente a maneira mais falsa de contá-la.
10 Torto Arado
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Bibiana e Belonísia, duas irmãs, encontram uma faca antiga escondida numa mala sob a cama da avó. O acidente provocado por aquela curiosidade infantil liga as duas de forma definitiva. Uma precisará, em sentido literal, emprestar voz à outra.
A história se passa numa comunidade rural do sertão baiano em que famílias negras vivem e trabalham numa terra que não possuem, submetidas a relações sociais e econômicas que não precisam carregar uma placa escrito “herança da escravidão” para que se entenda de onde vêm. Esse pano de fundo poderia facilmente converter personagens em ilustrações. Não converte.
Está aí parte da razão de o romance ter alcançado algo tão incomum no Brasil, entusiasmo crítico, prêmios e uma multidão de leitores sem que nenhum desses grupos parecesse precisar pedir desculpas ao outro. Itamar Vieira Junior faz a dimensão social nascer da vida concreta de Bibiana e Belonísia — do corpo, do trabalho, da terra — e não de uma tese pairando sobre elas. Um fenômeno editorial, sim. Antes disso, um grande romance.
11 Carta à Rainha Louca
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Olinda, fim do século 18. Isabel das Santas Virgens está presa no Recolhimento da Conceição e escreve para a rainha Maria I, tentando relatar os abusos cometidos contra mulheres, escravizados e gente sem poder, ao mesmo tempo que reconstrói os sofrimentos de Blandina, sua senhora.
A carta é uma forma engenhosa para esse material porque já nasce hierarquizada. Quem escreve está embaixo; quem recebe, muito acima. Isabel precisa pedir, explicar, usar fórmulas de respeito, comportar-se como súdita — e é justamente dentro dessas limitações que sua voz vai adquirindo uma força acusatória que vira a relação de poder pelo avesso.
Maria Valéria Rezende se arrisca também no terreno da linguagem histórica, cheio de fossos. Um passo para um lado e temos fala contemporânea fantasiada de época; para o outro, personagens empalhados numa sintaxe de museu. Ela encontra um terceiro caminho, em que o século 18 não perde sua distância e por isso mesmo consegue incomodar o presente. A história não precisa usar roupa de hoje para falar conosco.
12 Marrom e Amarelo
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Aos 49 anos, Federico é chamado a Brasília para participar de uma comissão governamental encarregada de discutir critérios ligados às cotas raciais nas universidades. O trabalho o empurra de volta para episódios da infância e da juventude em Porto Alegre, quando as classificações de cor, pertencimento e diferença já interferiam na vida familiar de maneiras bem menos organizadas do que qualquer formulário oficial gostaria.
Há romances que escolhem um assunto e depois procuram personagens capazes de demonstrá-lo. Scott faz melhor. Escolhe um personagem que não cabe confortavelmente no assunto. Federico pensa, hesita, julga, guarda ressentimentos, volta a situações antigas e encontra nelas menos confirmação do que atrito. Assim, colorismo e identidade racial deixam o terreno das definições abstratas e passam a produzir consequências dentro de uma família, entre irmãos, nas oportunidades e nas escolhas.
O mérito crítico do livro está muito aí. Não em oferecer uma resposta brilhante para uma questão complicada, mas em impedir que a complicação seja apagada para que a resposta pareça brilhante.
13 Suíte Tóquio
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Maju deixa uma praça de bairro rico levando consigo Cora, a menina de quem cuida. Fernanda, mãe da criança, está tão absorvida pela própria crise que leva algum tempo para perceber o desaparecimento. É ela quem chama de “exército branco” o grupo de babás uniformizadas que ocupa diariamente a praça com os filhos alheios.
Seria fácil construir daí um suspense social em que a empregada representasse uma classe e a patroa, outra, ambas perfeitamente equipadas com as opiniões necessárias ao desempenho de seus papéis. Giovana Madalosso se recusa a facilitar desse jeito.
Maju e Fernanda podem ser egoístas, engraçadas, cruéis, afetuosas — às vezes quase ao mesmo tempo. O romance anda justamente porque ninguém está ali para dar uma boa entrevista sobre desigualdade.
A questão de classe, claro, não desaparece. Pelo contrário; fica mais incômoda quando deixa de ser legenda. Quem cria uma criança? Quem conhece seu medo, sua fome, seus hábitos? Quem paga? Quem pode fugir? Perguntas simples. As respostas, não muito.
14 O Avesso da Pele
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Depois da morte do pai, Pedro tenta reconstruir sua história. No caso, essa investigação passa por racismo, escola, família, violência e pela maneira como um homem negro aprende a circular num país em que o preconceito pode ser brutal, mas também burocrático, banal, educado, rotineiro — e talvez seja ainda mais eficiente quando dispensa espuma na boca.
O que salva o romance de se tornar peça de tese é a tridimensionalidade do pai. Ele não está ali para representar corretamente uma condição social. Ama, fracassa, deseja, se irrita, toma decisões boas e ruins. É uma pessoa antes de ser argumento.
O livro ganhou reconhecimento, leitores e controvérsias posteriores em torno de sua circulação escolar. Tudo relevante. Mas sua presença aqui se explica por uma coisa anterior a esses acontecimentos. Tenório fez literatura com um assunto que poderia ter sido reduzido a discurso.
15 Os Supridores
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Pedro e Marques trabalham num supermercado de Porto Alegre, moram na vila e conhecem o tráfico local sem participar diretamente dele. Então falta maconha no mercado, aparece uma oportunidade e os dois, cansados da exploração do emprego regular, começam a raciocinar. A palavra é esta mesmo, raciocinar.
O salto para o comércio ilegal não é apresentado como destino trágico determinado por uma entidade abstrata chamada pobreza. Eles avaliam risco, demanda, lucro, concorrência. Fazem empreendedorismo, se quisermos levar a sério por alguns segundos esse vocabulário tão querido do capitalismo edificante.
Falero tem uma oralidade fortíssima, mas seria injusto tratá-la como se o grande feito do livro fosse simplesmente pôr a fala periférica no papel. Há trama, humor, velocidade, personagens e uma disposição picaresca para observar as regras de um jogo e descobrir maneiras pouco ortodoxas de jogá-lo. A raiva social está presente, sem dúvida. Só não estraga a piada. Pelo contrário, muitas vezes é o que lhe dá graça.
16 Solução de Dois Estados
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Uma cineasta alemã entrevista dois irmãos para um documentário sobre violência no Brasil. Raquel é artista; Alexandre está ligado ao mundo fitness da periferia paulistana. Ela ganhou atenção pública depois de sofrer uma agressão durante um debate sobre arte e política, em 2018. Os dois começam a falar diante da câmera. E falar, como sabemos desde muito antes da invenção do documentário, é selecionar.
Bullying, herança, dinheiro, memória familiar e ressentimentos antigos passam a disputar espaço com um Brasil que vai do Plano Collor à polarização política recente. A pergunta deixa de ser apenas o que aconteceu e passa a incluir outra, mais interessante. Por que cada um precisa que tenha acontecido daquele jeito?
Laub sempre mostrou gosto por versões concorrentes do passado, narradores que reorganizam a memória em busca de uma coerência que talvez não exista. A câmera apenas torna esse processo mais visível.
O título, importado de uma das expressões mais pesadas da geopolítica contemporânea, aplicado a uma guerra entre irmãos, parece uma piada desmedida. A desmedida é o ponto.
17 A Pediatra
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Cecília é pediatra e não gosta especialmente de crianças. Também não demonstra grande paciência com os pais delas, o que, convenhamos, pode ser mais compreensível. Seguiu a profissão do próprio pai, tornou-se bem-sucedida e exerce uma medicina eficiente, fria, pouco inclinada àquela camada de afeto que parte da clientela considera incluída no preço da consulta.
A chegada de um concorrente ligado a doulas, parteiras e partos domiciliares a irrita a ponto de fazê-la se aproximar daquele universo. Ao mesmo tempo, mantém uma relação com um homem casado, cujo filho ela acompanhou ao nascer. A criança passa a despertar nela algo que não cabe bem no diagnóstico anterior. Seria o momento, em mãos mais obedientes, de iniciar a cura moral da protagonista. Andréa del Fuego não parece interessada.
Cecília pode ser desagradável, divertida, inteligente e cruel, sem que o romance corra atrás dela com uma cartilha de bons sentimentos. Em literatura, personagem interessante ainda é melhor negócio que personagem exemplar.
18 A Palavra que Resta
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Raimundo chega aos 71 anos sem saber ler. Trabalhou desde cedo, não frequentou a escola e guarda há mais de meio século uma carta escrita por Cícero, o amor secreto de sua juventude, relação interrompida com violência quando os dois foram descobertos. Cícero desapareceu. A carta permaneceu fechada.
É uma premissa perigosa pela facilidade com que poderia virar máquina de comoção — velhice, analfabetismo, amor proibido, uma mensagem esperando cinquenta anos para ser decifrada. Gardel não precisa forçar nada. O que interessa é justamente o tamanho concreto dessas duas exclusões.
Não saber ler significa passar a vida num mundo saturado de palavras às quais os outros têm acesso natural. Não poder viver o próprio desejo produz outro tipo de clandestinidade. As duas experiências se aproximam sem que o romance transforme uma na metáfora bonitinha da outra.
Aprender a ler não desfaz o passado. Permite, no máximo — e já é muito — que Raimundo finalmente tenha acesso a uma parte dele.
19 Vista Chinesa
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Rio, 2014. A cidade está entre a Copa do Mundo e a preparação para os Jogos Olímpicos, empenhada em vender ao planeta aquela combinação conhecida de beleza natural, modernização e felicidade tropical. Júlia, arquiteta envolvida em projetos relacionados à Vila Olímpica, sai para correr no Alto da Boa Vista antes de uma reunião. Um homem armado a arrasta para a mata e a estupra. Ela consegue voltar para casa. Daí em diante é que começa o livro mais difícil de escrever.
O risco de transformar violência sexual em espetáculo é enorme. Outro risco, talvez mais comum em literatura, é convertê-la rapidamente em símbolo — de uma cidade, de um país, do patriarcado, do que for. Tatiana Salem Levy mantém o foco na mulher e em seu corpo, recusando ao agressor aquele fascínio sombrio que tantos narradores concedem a criminosos.
O contraste com o Rio que naquele momento se preparava para posar diante do mundo está lá, claro. Nem precisa ser martelado. Um cartão-postal também pode conter uma mata fechada.
20 Solitária
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Eunice e Mabel, mãe e filha, são mulheres negras que moram no trabalho, dentro de um condomínio de luxo. Eunice presta serviços a uma família e acaba testemunhando um crime. Mabel terá papel importante no desenrolar do caso. Ao redor das duas existe aquela intimidade doméstica peculiar na qual uma empregada conhece horários, doenças, hábitos e segredos dos patrões, participa da criação das crianças e pode até ser declarada “quase da família” — advérbio que faz um serviço de engenharia social respeitável.
Eliana Alves Cruz não precisa recuar até a senzala a cada capítulo para demonstrar o peso histórico dessas relações. Ele está na casa, no quarto, no trabalho, no modo como o afeto convive sem grande dificuldade com uma hierarquia bastante concreta. Falar em família é sempre bonito. Às vezes convém perguntar quem dorme onde.
21 Não Fossem as Sílabas do Sábado
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André morre num acidente absurdo. Ana, sua mulher, está grávida. O mesmo acidente mata outro homem, marido de Madalena, vizinha de Ana. As duas mulheres passam a compartilhar uma ligação que nenhuma delas procurou e que seria falso chamar imediatamente de amizade. Francisca, a babá, vai entrando nesse mundo quebrado com a disposição concreta de quem sabe que, mesmo depois da tragédia, alguém precisa fazer café, atender a porta, cuidar de uma criança.
A força do romance reside em parte nessa materialidade. O luto literário gosta muito de janelas, chuva, silêncio, lembranças e grandes abismos interiores. Tudo isso pode existir, claro, mas a vida continua cheia de louça, comida e constrangimentos.
Carrara não transforma Ana e Madalena numa irmandade edificante de sobreviventes. Há distância, culpa, aproximações tortas, mal-estar. A morte desorganiza. O romance tem a inteligência de não vir depois arrumando tudo para o leitor.
22 As Pequenas Chances
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Num aeroporto, Natalia encontra o médico de cuidados paliativos que acompanhou seu pai, Artur, também médico, durante o retorno de um câncer cujo significado ele compreendia melhor do que a maioria dos pacientes gostaria. O encontro abre a memória de uma doença e de uma família tentando se reorganizar diante de uma certeza que seres humanos passam a vida inteira tratando como hipótese distante.
Livros nascidos de experiências pessoais extremas correm um risco peculiar. O autor sabe que o que viveu foi importante e pode acabar supondo que a importância se transfere automaticamente para a página. Não transfere. A literatura é injusta assim.
Timerman trabalha para que a experiência ganhe forma. Medicina, família, medo e memória convivem sem que a morte precise ser transformada em fonte de sabedoria superior.
Os cuidados paliativos aparecem como aquilo que são também simbolicamente, o momento em que a técnica reconhece um limite. Nós, pacientes potenciais desde o nascimento, costumamos ser menos sensatos.
23 Vento Vazio
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Na Quina da Capivara sopra o Vazio, vento que, segundo os moradores, pode enlouquecer uma pessoa. Talvez possa. Talvez seja mais confortável responsabilizar um fenômeno atmosférico por coisas que já estavam em curso muito antes de ele começar a soprar.
Miguel Sem-Fim chega queimado e desnorteado. Cícera cava em torno da própria casa enquanto cuida da filha bebê. Alma não acredita muito naquela história. Maura, órfã, age e fala de forma errática. São quatro vozes diante de uma paisagem em que a distinção entre ameaça exterior e desarranjo íntimo se torna cada vez menos segura.
A melhor ficção fantástica não precisa provar nada. Marcela Dantés mantém as explicações concorrendo entre si. O vento é fenômeno, mito, medo, talvez delírio. Pode ser tudo isso. Pode não ser. Sopra, de qualquer maneira.
24 Nostalgias Canibais
Âyiné↑ Voltar à lista completa
Um Macunaíma canibal atravessa séculos tentando matar a fome. Dois gatos comentam a vida da dona num apartamento ameaçado de despejo. Em Fortaleza, um rapaz atormentado pela própria aparência lê Umberto Eco enquanto estuda para concurso. Há ainda uma jornalista às voltas com um fenômeno político e um músico que vive no apartamento da namorada editora, cuida das plantas e sofre com a vizinha.
Odorico Leal estreia misturando conto, novela, sátira política e realismo, com aquela disposição antropofágica que o título anuncia sem transformar o modernismo em santinho de parede. A tradição só interessa quando pode ser mastigada outra vez — operação que, como qualquer digestão, inclui partes menos nobres.
O que chama atenção no conjunto é uma insolência literária hoje relativamente rara. Nem todos os golpes acertam, o que talvez seja inevitável. Livro satírico que acerta tudo provavelmente estava mirando um alvo fácil demais.
25 Corsária
Fósforo↑ Voltar à lista completa
Uma mulher deixa Houston, um amor e uma vida confortável para voltar ao interior do Nordeste. Quem tiver se acostumado àquele tipo de romance em que o retorno às origens termina numa reconciliação luminosa com a infância, a terra e a sabedoria dos antepassados talvez deva regular as expectativas. Ela volta para cobrar.
Convencida de que pai e mãe foram explorados ao longo da vida, começa a investigar arquivos, recorrer a testes de hereditariedade e reconstituir uma história familiar marcada por racismo, trabalho e disputas de terra. O movimento em direção ao passado não busca pertencimento abstrato, mas responsabilidade, dinheiro, aquilo que se tomou e aquilo que se deve.
Marilene Felinto nunca foi uma escritora de cordialidades, traço que o tempo não tornou menos útil. Aqui, palavras como ancestralidade e origem perdem boa parte do verniz edificante que acumularam no discurso contemporâneo e voltam a encostar em coisas menos fotogênicas — salário, propriedade, exploração. O passado pode ser uma herança. Também pode chegar com cobrança.

