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A honra costuma custar caro justamente a quem menos dinheiro tem para desperdiçar com ela. Aos ricos, aos poderosos e aos bandidos bem-sucedidos sempre resta algum atalho; aos homens comuns, quase nunca. James Mangold percebe essa injustiça elementar e faz dela o coração de “Os Indomáveis”. É um faroeste em que revólveres, cavalos e diligências interessam menos que a humilhação silenciosa de um sujeito diante do próprio filho. Dan Evans não quer salvar o Arizona, acabar com o crime ou entrar para os livros de História. Quer apenas voltar a olhar para si mesmo sem vergonha. Christian Bale entende isso desde a primeira aparição, e toda a admirável violência do filme nasce daí.

Evans é veterano da Guerra Civil Americana e perdeu parte de uma perna. Tenta sustentar a mulher e os filhos numa fazenda castigada pela seca. Dívidas apertam-lhe o pescoço. Um proprietário poderoso deseja suas terras e William, o filho mais velho interpretado por Logan Lerman, já começa a enxergar o pai como um fracassado. Mangold não precisa dizer muito mais. Quando Ben Wade, célebre fora da lei, é preso e alguém oferece duzentos dólares para quem ajudar a conduzi-lo até a estação de Contention, de onde partirá o trem para a penitenciária de Yuma, Evans aceita. Não exatamente pelo dinheiro.

Um homem que sabe quem é

Wade é a criatura que Evans jamais poderia ser e que William talvez queira tornar-se. Russell Crowe dá ao bandido uma serenidade ainda mais ameaçadora que a violência, um homem capaz de matar sem alterar a voz e de admirar um desenho, citar as Escrituras, seduzir uma mulher ou ordenar uma execução com o mesmo ar de quem decide entre café e uísque. Não há nele o esforço para parecer perigoso que tantas vezes transforma vilões de western em caricaturas. Wade sabe quem é. Evans é quem ainda precisa descobrir.

Essa inversão faz com que “Os Indomáveis” escape muito cedo do faroeste convencional. O roteiro de Halsted Welles, Michael Brandt e Derek Haas, a partir do conto de Elmore Leonard já filmado por Delmer Daves em 1957, vai reduzindo a distância entre captor e prisioneiro até que os dois homens se reconheçam num lugar desconfortável. Evans inveja a liberdade de Wade; Wade percebe no fazendeiro uma espécie de integridade de que talvez tenha abdicado muito antes. Um dispõe de dinheiro, homens armados e fama. O outro mal consegue pagar as contas. Assim mesmo, é Wade quem começa a observar Evans com curiosidade.

A estrada muda os dois

Mangold sabe que essa história depende de tempo. Por isso deixa que a viagem avance por emboscadas, discussões, noites maldormidas, mortes abruptas e pequenos diálogos nos quais a relação entre os dois protagonistas muda um milímetro de cada vez. Peter Fonda, na pele do veterano Byron McElroy, injeta rancor nessa travessia, ao passo que Ben Foster transforma Charlie Prince num dos grandes psicopatas dos faroestes modernos. De casaco claro, duas armas e uma devoção quase religiosa a Wade, Prince mata como se prestasse homenagens. Foster tem pouco espaço diante de Bale e Crowe, mas faz estragos.

A chegada a Contention muda a natureza do longa. O que até então era uma escolta torna-se uma prova moral, e Dan Evans já não parece interessado na recompensa. William está perto. Wade sabe. O espectador também. É nesse ponto que Bale encontra a melhor versão de seu personagem, um homem cujas derrotas materiais não lhe permitem aceitar a falência moral, ainda que todos ao redor julguem sua decisão uma estupidez. Há coisas pelas quais ninguém deveria morrer, e talvez seja justamente isso que torne tão difícil compreender quem resolve fazê-lo.

O preço que dinheiro nenhum paga

Crowe, por sua vez, passa a jogar numa zona ainda mais estranha. Wade poderia escapar em mais de uma oportunidade e não o faz, como se começasse a participar voluntariamente da redenção daquele homem que deveria estar apenas conduzindo-o à cadeia. O bandido observa Evans lutar por algo que ele próprio não consegue comprar, roubar ou tomar de ninguém. Mangold evita transformar essa aproximação numa amizade sentimental. São dois adversários, e continuam sendo. A diferença é que agora um deles sabe exatamente quanto vale o outro.

No fim, o trem das 3h10 deixa de significar Yuma. É apenas a linha de chegada que Dan Evans traçou para si mesmo, depois de uma vida em que os outros parecem ter escolhido quase tudo em seu lugar. Bale e Crowe chegam juntos a esse instante, um querendo provar alguma coisa ao filho, o outro talvez querendo provar alguma coisa a si próprio. O Velho Oeste sempre gostou de homens que sacavam primeiro. Mangold prefere aqueles que, quando chega a hora, ainda conseguem escolher por que permanecem de pé.


Filme: Os Indomáveis
Diretor: James Mangold
Ano: 2007
Gênero: Drama/Suspense
Avaliação: 4.5/5 1 1
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