Guy Ritchie parece ter chegado à conclusão de que homens verdadeiramente perigosos não precisam gritar, correr feito loucos ou ostentar armas compridas em cada enquadramento. Podem passar a tarde escolhendo um paletó, preparar um coquetel com zelo quase litúrgico, discutir rotas de fuga como quem decide onde jantar. Quando finalmente chega a hora de matar alguém, resolvem a questão sem nenhuma alteração significativa no pulso. “Na Zona Cinzenta” é Ritchie regressando ao território onde ele se sente mais confortável, esse universo de profissionais muito bem-vestidos que ganham a vida fazendo coisas que dariam cadeia a qualquer mortal menos fotogênico. O resultado não tem a engenhosidade de “Snatch — Porcos e Diamantes” (2000), tampouco a irreverência genuína de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (1998), mas lembra por bons motivos “Esquema de Risco: Operação Fortune” (2023). Existe prazer demais no modo como a máquina funciona para que se exija dela uma finalidade muito profunda.
Homens caros para trabalhos sujos
Rachel é uma negociadora especializada em cobrar dívidas que homens comuns teriam juízo bastante para dar por perdidas. Eiza González surge com a frieza adequada à profissão, encarregada de recuperar nada menos que um bilhão de dólares das mãos de Salazar, o criminoso vivido por Carlos Bardem. O sujeito controla uma ilha particular e, por evidente, não pretende entregar a fortuna mediante uma notificação extrajudicial e um pedido gentil.
Rosamund Pike aparece como Bobby, a executiva que põe o mecanismo em movimento, e então chegam Sid e Bronco, os especialistas em operações clandestinas interpretados por Henry Cavill e Jake Gyllenhaal. Os dois devem garantir que Rachel entre, faça o acordo e, principalmente, consiga sair viva. A dificuldade é justamente essa última parte.
Ritchie demora mais do que deveria mostrando plantas, veículos, possibilidades de extração, posições geográficas e pequenos truques logísticos, mas essa demora está longe de ser inteiramente inútil. O diretor-roteirista sempre gostou de desmontar um plano diante do espectador antes de remontá-lo em velocidade absurda, como se o filme fosse um relógio suíço fabricado por contrabandistas ingleses. Aqui, o expediente funciona porque Rachel, Sid e Bronco deixam de parecer apenas três profissionais reunidos por contrato e assumem uma intimidade estranhíssima. Eles se provocam, discutem bobagens, cuidam uns dos outros e transformam a preparação para o desastre numa espécie de rotina doméstica armada até os dentes.
O prazer de desmontar um plano
Gyllenhaal e Cavill compreendem que seria inútil disputar protagonismo e preferem brincar com a afinidade entre os personagens. O primeiro está um pouco mais solto; o segundo explora aquela fleuma de homem que poderia atravessar um incêndio sem desarrumar o cabelo. González é quem lhes dá eixo.
E quando Pike entra em cena, ainda que por pouco tempo, o filme ganha uma dose adicional de veneno. Bobby parece alguém que jamais faria por si mesma o trabalho que exige dos outros, mas dormiria perfeitamente depois de mandar três pessoas para a morte. Pike tem especial talento para essas mulheres cuja elegância apenas torna mais assustadora a falta de escrúpulos.
O problema aparece quando Ritchie precisa transformar toda aquela preparação em ação propriamente dita. O último terço escala a violência, multiplica perseguições e começa a exigir uma condescendência que o filme até então dispensava. Sid e Bronco atravessam situações das quais provavelmente nem Aquiles sairia com a camisa tão bem passada, e o rigor aparente da operação dá lugar à invulnerabilidade típica dos heróis de videogame. Ainda assim, as sequências têm clareza, ritmo e um senso de espaço cada vez mais raro em filmes de ação, nos quais dez cortes costumam ser usados para esconder um único soco mal dado.
Uma bobagem com método
Talvez a maior qualidade do filme esteja justamente na falta de qualquer pretensão de transcendência. Ritchie não deseja explicar o capitalismo, a natureza do crime ou as zonas morais onde governos terceirizam suas sujeiras; ele quer juntar atores charmosos, dinheiro roubado, uma ilha, armas, ternos caros e um plano que evidentemente dará errado.
Há cineastas que fariam disso uma bobagem. Ritchie faz uma bobagem com método, e a diferença é imensa. Quando a poeira baixa, fica a impressão de que Rachel, Sid e Bronco poderiam receber outra missão na manhã seguinte e começar tudo novamente antes do almoço. Para gente assim, o perigo não é uma excepcionalidade. É expediente.

