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Frequentar uma agência de correios italiana foi das experiências antropológicas mais ricas que vivi. Acho até que já contei isso por aqui. Cultivei este hábito com esmero e reincidente obrigação ao longo de 2018, quando morei em uma cidade na periferia de Milão.

Era ao correio que eu ia para pagar contas, os boletos renitentes que me chegavam. Era ao correio que eu ia para receber pacotes, dada a reiterada dificuldade dos serviços de entrega de encontrarem o meu obtuso endereço. E era ao correio que eu ia até mesmo quando queria postar uma carta para minha saudosa tia Cy.

Costumava usar uma agência que ficava a 15 minutos de caminhada de minha casa. No trajeto, já me preparava para a imersão cultural. Nos correios italianos não existe fila. Existe uma vaga consciência coletiva sobre quem chegou antes. Ela funciona surpreendentemente bem até deixar de funcionar. Todos estão lá, em suas posições, à espera. Quem chega pergunta quem é o último — e memoriza suas características, sabendo ser então o próximo. E assim por diante.

No dia 10 de dezembro de 2018 estive lá pela penúltima vez, com a missão de apanhar uma derradeira encomenda da Amazon. Presenciei uma ríspida discussão em que um homem de espírito adunco e semblante cabisbaixo duelou verbalmente com uma senhora vestida em petulância. Todos os outros frequentadores daquela espera em não-fila mordemos nossos risos sarcásticos, testemunhas que éramos de um excerto perdido de Beckett.

Tudo porque ela decidiu se sentar numa banqueta ao fundo da agência, em vez de amontoar-se entre os que aguardavam em pé. Na vez que seria dela, foi o homem, que seria o seguinte, quem se apresentou ao guichê.

— É a minha vez, eu estava aqui antes — correu a madame, abrupta, afoita, sedenta pelo atendimento.

— Se tem saúde para ficar em pé mas se sentou, perdeu o lugar — decretou o sujeito, como se investido dos poderes do último artífice do Direito Romano.

Dois dias depois, na quarta-feira, precisei retornar à mesma agência. Na financeiramente dolorosa experiência de pagar a última fatura de gás de minha temporada italiana, vivenciei o surrealismo fantasiado de burocracia. Por alguma razão aleatória, ou um conjunto de razões, ali me deparei com um obelisco vivo da desordem planetária. A começar pela fila exagerada.

Uma moça de nariz esguio e cabelos cacheados deu três passos agência adentro, olhou ao redor e foi contornando pessoas como um Garrincha em busca do gol. Quando estava ela buscando fôlego no meio daquela fila hipotética e caótica, uma velhinha travestida de fiscal de estabelecimento público a repreendeu:

— Mas como assim? Saiu para fazer não sei o quê e voltou achando que o lugar ainda era seu?

Praticamente lacrou com um “foi pra roça, perdeu a carroça”, pensei. Mas nada falei. Meu papel era de observador, praticamente um acadêmico macarrônico em trabalho de campo.

A mocinha nem se ruborizou, disse que tinha ido fumar um cigarro.

— Foi fumar? Estragou sua saúde e estragou a fila — decretou a velhinha-sargenta.

Fila esta que não andava de jeito algum. O bigodudo bufou. Um rapazote de boné invertido soltou um comentário — “vai ver é a proximidade do Natal”. Ao que o sujeito altão logo atrás de mim tomou a palavra.

Segundo ele, havia fila naquela agência perto do Natal, perto da Páscoa, no Ferragosto e provavelmente aos domingos, quando o correio nem abria. Se a Itália resolvesse erguer um monumento nacional à fila, bastava cercar aquela agência dos correios e cobrar ingresso.

Houve um silêncio meio constrangedor. E ele continuou. Queixou-se de tudo e de todos:

— … e o problema da Itália é a ganância. As empresas querem economizar onde não devem. Por exemplo: uma agência de correio tem cinco sportelli mas só dois funcionários, outra tem dez sportelli, só cinco funcionários. Economia burra, economia porca.

Parecia um começo de comício.

— E tem mais. Os funcionários também não se esforçam. Você chega ao caixa, o cara foi ao banheiro. Está na frente do guichê, o sujeito vai lá no fundo fazer não sei o quê. Está tudo errado.

Pensei que iria presenciar um motim, uma revolução, a nova queda da Bastilha em uma pracinha da região metropolitana de Milão. Mas um funcionário, dos dois que trabalhavam na agência que tem três sportelli mas nunca três funcionários, levantou-se da cadeira em que estava atrás do guichê. Pigarreou como quem pede atenção.

Ele demonstrou sinceridade dizendo que a culpa não era deles, que ele se sentia um inútil porque havia sido contratado para pegar investimentos — os correios também funcionam como agências bancárias — mas sua vida se transformara em uma máquina de quitação de boletos.

— Sou um cretino. Chega ao fim do dia, meu chefe me pergunta: Alberto, quantos investimentos você pegou hoje? E eu respondo: nenhum. Nenhum. Sou um cretino. Sou um funcionário de merda e passei o dia pagando boletos.

Emendou lembrando que também tinha o direito de ir ao banheiro. E que, se parava várias vezes durante o expediente, era por conta da regra trabalhista que, a cada hora de labuta, fazia o computador travar por 10 minutos, implicando a pausa obrigatória de sua função. Se pudesse escolher, garantia ele, preferia que não houvesse tais pausinhas e ele pudesse sair uma hora mais cedo todos os dias.

Foi épico.

Aí a fila prosseguiu. Todos estavam quietos, remoendo pensamentos.

Poucos minutos depois, alguém abriu a porta da agência e perguntou:

— Chi è l’ultimo?

Também carregava um boleto da companhia de gás.

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.

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