Ana Miranda nasceu em Fortaleza, em 19 de agosto de 1951, mas durante muito tempo ser cearense foi para ela sobretudo um fato de certidão. Saiu do Ceará pequena demais para guardar memória da terra natal, passou pelo Rio, cresceu em Brasília, voltou ao Rio, morou em São Paulo. Quando regressou definitivamente ao estado onde nasceu, em 2006, estava com 55 anos, uma carreira consagrada, livros traduzidos em diversos países e pelo menos duas obras — “Boca do Inferno” e “Desmundo” — firmemente assentadas entre os romances brasileiros mais importantes de seu tempo.
Rachel de Queiroz, que foi sua vizinha no Rio de Janeiro, achava pouco aquela condição de cearense no papel e gostava de provocá-la. Ana não era cearense de verdade. Sua literatura ainda não tinha pisado o Ceará. Vinda da autora de “O Quinze”, que aos vinte anos publicara um romance destinado a inscrever de forma definitiva o sertão cearense no mapa da literatura brasileira, a provocação tinha peso. Rachel exagerava? Claro. Mas não inventava o problema. Ana nascera em Fortaleza e tinha sua formação sentimental, artística e intelectual espalhada por outras cidades.

Brasília, principalmente. Foi lá que cresceu numa família ligada à construção da nova capital, estudou numa experiência educacional fora do comum, teve aulas de desenho, teatro e cerâmica, leu Dostoiévski numa biblioteca de colégio e, no quarto dividido com a irmã Marlui, que se tornaria uma referência da música indígena brasileira, começou a fabricar seus próprios pequenos objetos de arte. Foi no Rio que entrou no cinema, escreveu poesia, trabalhou na Funarte, tornou-se amiga e discípula de Rubem Fonseca e levou quase uma década para transformar a obsessão por Gregório de Matos no romance “Boca do Inferno”. Depois vieram a Bahia seiscentista, as órfãs de “Desmundo”, os imigrantes árabes de “Amrik”. Ana Miranda fazia o Brasil inteiro caber em seus livros e Rachel, danada, continuava com a mesma pergunta. E o Ceará?
Em 1989, justamente o ano em que “Boca do Inferno” transformou Ana de poeta e romancista inédita numa revelação literária nacional, Rachel lhe entregou livros sobre Bárbara de Alencar, personagem da história cearense e antepassada da própria Rachel. Era um presente e uma cobrança. Tome. Leia. Veja o que faz com isso.
Ana leu. E não fez nada. Fez bem. Sair correndo para escrever o romance cearense que Rachel parecia lhe encomendar teria sido uma solução fácil demais. Bárbara de Alencar ficou ali, guardada com outras coisas, enquanto Ana publicava romances, morava em São Paulo, viajava e continuava escrevendo sobre outros tempos e outras terras. Até que, anos depois, ocorreu um episódio que ela própria conta em tom de revelação e que seria insuportavelmente literário se não tivesse acontecido fora dos livros.
Estava em Carmo do Rio Claro, Minas Gerais, no alto de uma montanha. Depois da chuva, abriu-se uma faixa de luz sobre uma aldeia. Ana começou a escrever versos em quantidade, material que desembocaria em “Prece a uma Aldeia Perdida”. Alguma coisa mudou ali. A velha ideia de voltar ao Ceará, até então uma possibilidade meio solta, ganhou urgência.
A resposta a Rachel
A urgência teve consequências bastante práticas. Ana vendeu o apartamento em São Paulo, ignorou os conselhos em contrário e, em 2006, desembarcou no Ceará para ficar.
“Voltar” talvez não seja o verbo mais exato. Como voltar de fato a um lugar que mal se conheceu? Ana tinha 55 anos e precisava aprender a terra em que nascera. Uma situação meio esquisita para qualquer pessoa e, pensando bem, nada ruim para uma romancista.
O Ceará, que até então aparecia mais na certidão de nascimento do que nos livros, começou a entrar na ficção. Em “Semíramis”, publicado em 2014, Ana mergulhou na família e no mundo de José de Alencar, o cearense que ajudou a fundar o romance brasileiro e levou para dentro dele uma ideia de país. A essa altura Rachel de Queiroz já podia considerar sua provocação respondida com juros, embora contar os livros cearenses publicados depois da mudança seja um jeito estreito de medir o que aconteceu.
Também voltou o desenho, paixão mais antiga e meio posta de lado durante os anos em que os romances ocuparam quase tudo. Ana passou a ilustrar livros, produzir capas e finalmente a olhar com atenção para as centenas de figuras que desenhara ao longo de décadas. Desse arquivo sairia “Bionírica — Uma Biografia Sonhada”, uma autobiografia esquisita e silenciosa, feita menos de acontecimentos do que de rostos e corpos — muitos femininos — que envelhecem diante do leitor junto com a mão que os desenhou.
Rachel tinha transformado uma implicância entre vizinhas numa boa charada biográfica. De onde é Ana Miranda? Fortaleza consta da certidão. Brasília lhe deu boa parte da formação. O Rio lhe deu cinema, literatura, Rubem Fonseca. São Paulo foi casa por anos. Não há motivo para promover uma dessas cidades e despejar as outras.
Hoje, aos 75, Ana vive há vinte anos no Ceará. A provocação de Rachel parece coisa antiga; o problema que havia dentro dela, nem tanto. Depois de passar boa parte da vida em outras cidades e décadas escrevendo sobre gente deslocada no tempo, na língua e na geografia, Ana voltou para um lugar que era seu desde o nascimento. Conhecê-lo deu um pouco mais de trabalho.

