Nada parece mais hostil à música que uma penitenciária. Uma instituição existe para separar, vigiar, catalogar comportamentos e lembrar diariamente a cada pessoa que ali está que sua vontade deixou de lhe pertencer; um coral, ao contrário, só funciona quando vozes diferentes encontram um ponto de convivência e aceitam que nenhuma delas basta sozinha.
Gavin Lin percebe muito cedo essa contradição e faz dela o motor de “Coral da Esperança”, um melodrama taiwanês que não demonstra vergonha alguma de querer arrancar lágrimas. O problema é que, em determinados momentos, o diretor parece disposto a arrancá-las com alicate. Mesmo assim, há qualquer coisa de genuíno por trás de tanta manipulação, e são principalmente as atrizes que impedem o filme de afogar-se no próprio sentimentalismo. A aproximação entre confinamento e criação artística já rendeu experiências poderosas como “Sing Sing” (2023); Lin prefere um caminho mais popular, cheio de música, maternidade e redenção.
Uma família onde ninguém escolheu estar
Hui-Zhen dá à luz uma menina enquanto cumpre pena numa prisão feminina. Ivy Chen não demora a deixar claro que sua personagem não pode ser reduzida nem ao crime que a levou até ali nem à condição de mãe, embora o roteiro faça alguma força para canonizá-la.
Ao seu redor estão mulheres igualmente marcadas por passados difíceis, entre elas Yu-ying, a veterana vivida por Judy Ongg, espécie de centro gravitacional de uma família que a vida reuniu do jeito mais improvável. A chegada da indócil You-xin perturba essa harmonia provisória, mas o verdadeiro baque ocorre quando a filha de Hui-Zhen recebe o diagnóstico de uma doença ocular e precisa deixar a penitenciária para ser tratada.
Sem poder acompanhá-la, a mãe resolve oferecer-lhe alguma coisa que sobreviva à separação: uma lembrança. Como canta mal, é claro que decide criar um coral. Cinema também vive dessas deliciosas imprudências.
Melodrama sem pedir desculpas
A partir daí, o filme passa a caminhar sobre uma corda muito fina. Lin e o roteirista Hermes Lu recorrem às biografias das presas para explicar agressividade, culpa, abandono, medo, as pequenas violências que tornaram cada uma delas quem é. Algumas revelações funcionam; outras chegam acompanhadas de tanta música, tanto choro e tamanha insistência no sofrimento que o espectador quase pode ouvir o diretor ordenando que a lágrima caia.
Só que Ivy Chen não deixa Hui-Zhen transformar-se numa santa de vitral. Há raiva naquela mulher, egoísmo, medo de perder a filha e uma ponta de esperança irracional de que tudo talvez possa ser consertado se ela cantar a nota certa. Judy Ongg trabalha noutra frequência, diminuindo os gestos quando todas as outras parecem convocadas a aumentá-los. E o resultado desse contraste ajuda Lin a encontrar momentos muito mais fortes justamente quando ele para de insistir que estamos diante de uma grande tragédia e deixa aquelas mulheres simplesmente conversarem, brigarem, ensaiarem, desafinarem, rirem do próprio ridículo.
Quando a prisão vira metáfora
É também nesses instantes que a prisão ganha alguma materialidade. O argumento poderia resultar num retrato muito mais áspero das mulheres encarceradas, de sua relação com os filhos e da violência de um sistema que suspende vínculos afetivos junto com a liberdade. Lin prefere um espaço quase protegido do mundo, uma opção discutível que deixa os corredores limpos demais, as autoridades compreensivas demais e determinadas soluções dramáticas convenientes demais. A vida carcerária fica menos importante que a metáfora, e o filme paga por isso.
Entretanto, seria injusto desprezar seu alcance emocional apenas porque os mecanismos estão à vista. Melodramas existem justamente porque certos sentimentos não pedem licença ao intelecto, e quando o coral finalmente deixa de ser uma ideia amalucada de Hui-Zhen para se tornar um projeto das mulheres, alguma coisa muda.
Elas continuam presas; a menina continuará seguindo sua vida longe da mãe; nenhum refrão apaga o que ocorreu antes. Mas por alguns minutos aquelas vozes pertencem exclusivamente a quem as emite. Lin abusa da lágrima, sem dúvida. Felizmente, suas atrizes sabem que tristeza nenhuma precisa de maestro.

