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O medo mais interessante despertado pela inteligência artificial talvez não seja o de que as máquinas venham a pensar como nós, mas o de que aprendam depressa demais a reproduzir nossos piores hábitos. O homem inventa algo à própria imagem, assusta-se ao reconhecer-se na criatura e então decide exterminá-la.

Gareth Edwards transforma essa velha paranoia numa guerra de proporções épicas em “Resistência”, filme de ficção científica que tem drones, androides, armas capazes de varrer cidades e uma imensa plataforma militar pairando sobre o céu. Mas funciona melhor justamente quando se esquece disso tudo e concentra-se num homem e numa criança andando por um território devastado. Como em “Elysium” (2013), o futuro serve menos à adivinhação que ao comentário sobre as brutalidades do presente.

Num tempo em que a inteligência artificial tornou-se parte do cotidiano, uma explosão nuclear em Los Angeles é atribuída às máquinas e os Estados Unidos lançam uma guerra para eliminá-las. Enquanto o Ocidente decreta o expurgo, povos da chamada Nova Ásia convivem com robôs e simulantes. São seres artificiais que se parecem com humanos o bastante para que a diferença deixe de ser tão confortável.

Joshua, o ex-agente das forças especiais vivido por John David Washington, conhecera esse mundo bem de perto. Infiltrado, apaixonou-se por Maya, de Gemma Chan, e viu sua missão destruir justamente a vida que começava a construir. Anos mais tarde, ainda remoendo a perda da mulher, ele é convocado para localizar o misterioso Nirmata, responsável pelo desenvolvimento de uma arma que poderia liquidar a supremacia militar americana. Ao encontrá-la, Joshua vê uma garotinha.

Uma criança no centro da guerra

Alphie é o nome que ele dá à criança artificial interpretada por Madeleine Yuna Voyles, e é aí que Edwards encontra o filme dentro do filme. Até então, a produção impressionava pela escala e pela estranha beleza de suas imagens: aldeias asiáticas convivendo com máquinas, monges sintéticos, campos de arroz cortados por tecnologia militar, cidades em que o futuro parece ter sido encaixado à força dentro de um passado que se recusou a desaparecer.

O Nomad, a colossal arma aérea dos Estados Unidos, paira acima de tudo como uma divindade vingativa inventada por homens que já não acreditam em Deus, apenas em superioridade bélica.

É uma ironia bastante eficiente que os seres humanos comportem-se durante quase todo o filme como autômatos, ao passo que as máquinas choram mortos, protegem crianças, professam crenças e demonstram medo. Edwards não é sutil nesse ponto e tampouco parece querer sê-lo.

Allison Janney, na pele da coronel Howell, representa o lado mais duro dessa cruzada, enquanto Ken Watanabe confere a Harun, um simulante, a serenidade de quem compreendeu que talvez sobreviver não signifique necessariamente vencer uma guerra. Entre eles, Joshua precisa rever tudo quanto aceitara como verdade.

Um futuro feito de ferrugem

John David Washington funciona melhor quando diminui seu habitual controle e deixa aparecer a culpa do personagem, mas é Voyles quem fornece ao ator o caminho. A relação entre Joshua e Alphie passa rapidamente da desconfiança para uma afeição quase paterna, talvez rápido demais. O roteiro de Edwards e Chris Weitz nem sempre encontra o tempo necessário para fazer essa transformação doer como deveria.

Esse é um dos pontos em que o filme mostra a distância entre sua deslumbrante arquitetura visual e uma dramaturgia por vezes esquemática. A alegoria política também não conhece muitas zonas intermediárias: imperialistas são ruidosos, máquinas são vítimas, populações locais sofrem, e então o espectador recebe respostas antes que tenha formulado todas as perguntas.

Nada disso impede que o filme tenha uma força invulgar. Edwards filma uma ficção científica que parece usada, habitada, cheia de ferrugem, fuligem, plantações, barcos, mendigos e soldados. Está muito distante daquele futuro higienizado que Hollywood durante décadas vendeu como inevitável. O último ato acelera além da conta e quase deixa a história soterrada sob explosões, sacrifícios e despedidas.

Ainda assim, “Resistência” acerta onde realmente importa. Alphie não precisa provar que tem alma; quem passa 133 minutos tentando demonstrar que ainda possui alguma são os humanos. O homem criou a máquina, declarou-a inimiga e encontrou nela uma desculpa para continuar praticando a atividade em que se especializou desde que deixou as cavernas: destruir o que não compreende.

Talvez a inteligência artificial tenha mesmo muito a aprender conosco. Convém apenas torcer para que escolha as lições certas.


Filme: Resistência
Diretor: Gareth Edwards
Ano: 2023
Gênero: Ficção Científica
Avaliação: 4/5 1 1
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