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Morrer de trabalhar deixa de ser força de expressão em “Mickey 17”. Bong Joon-ho toma essa piada velha e meio triste, dessas que se repetem na segunda-feira de manhã diante de uma máquina de café, e a converte numa distopia em que o contrato de emprego concede ao patrão algo muito mais valioso que oito horas por dia: o corpo inteiro do funcionário.

Mickey Barnes precisa desesperadamente fugir de uma dívida e embarca numa expedição colonizadora aceitando tornar-se um “Descartável”, trabalhador destinado a missões nas quais qualquer pessoa sensata responderia não antes mesmo de terminar de ouvir a proposta. Se morrer, imprimem outro. Suas memórias são reinstaladas e pronto: pode voltar ao batente. Karl Marx (1818-1883) provavelmente teria de escrever mais alguns volumes de “O Capital” diante de semelhante inovação.

Robert Pattinson faz Mickey morrer tantas vezes que a morte perde exatamente aquilo que sempre a tornou irresistível para a arte: a excepcionalidade. Ele é exposto a radiação, usado em testes, enviado para situações sem possibilidade de retorno e ressuscitado como se alguém substituísse uma peça numa impressora. Bong, que em “Parasita” (2019) já levara a luta de classes para dentro de uma casa luxuosa, agora precisa de um planeta inteiro para continuar a mesma provocação. Seu protagonista não possui os meios de produção; num estágio ainda mais avançado da perversão, ele próprio é um deles.

Dois homens dentro do mesmo corpo

A confusão começa quando Mickey 17 é dado como morto durante uma missão em Niflheim e, contra toda probabilidade, sobrevive. Quando consegue voltar à base, Mickey 18 já está lá. A multiplicação de uma mesma pessoa é proibida e ambos correm o risco de eliminação, circunstância que o diretor usa para dividir um homem em duas possibilidades.

O 17 é hesitante, resignado, quase gentil demais para alguém tão acostumado a ser assassinado pelo expediente; o 18 chega com uma agressividade que parece ter sido armazenada durante todas as mortes anteriores. Pattinson altera voz, postura, olhar e até o modo de mastigar, e não é pequeno o feito de fazer o público esquecer, em vários momentos, que os dois sujeitos em cena saíram do mesmo ator.

Nasha, a namorada vivida por Naomi Ackie, interessa-se muito menos pela discussão metafísica do que seria prudente. Ela recebe aquele pequeno tumulto ontológico com uma naturalidade saborosamente bongiana, e o filme encontra aí alguns de seus melhores momentos: enquanto cientistas, burocratas e líderes discutem se dois Mickeys podem existir, uma mulher pergunta por que, afinal, não poderiam.

Steven Yeun aparece como Timo, companheiro cuja lealdade está sempre sob suspeita, mas são Mark Ruffalo e Toni Collette que levam a caricatura política até o ponto da quase indecência.

O tirano e a colônia

Kenneth Marshall, o líder da expedição, é um populista messiânico, vaidoso e incapaz de perceber o próprio ridículo. Ao lado da esposa Ylfa, embarca numa aventura colonial que pretende começar uma sociedade purificada de tudo que ele considera indesejável. Ruffalo fala, gesticula e posa como um sujeito que jamais entrou numa sala sem acreditar que todos estavam esperando por ele.

É engraçado; às vezes, engraçado demais. Bong abandona qualquer sutileza e põe seu tirano sob luz tão forte que não sobra sombra alguma para o espectador investigar. Mas talvez exigir delicadeza de um filme em que trabalhadores são impressos depois de morrer seja prurido excessivo.

As criaturas nativas de Niflheim complicam a equação. Chamadas de rastejantes, elas são inicialmente tomadas como mais um obstáculo à colonização, até que Mickey passa a perceber que o mundo novo já tinha habitantes antes da chegada dos homens — uma descoberta que a humanidade fez centenas de vezes sem que aprendesse grande coisa.

O filme encosta no colonialismo, na exploração do trabalho, no autoritarismo, na religião transformada em marketing, no fascínio por líderes medíocres e na ilusão tecnológica de que qualquer problema pode ser resolvido imprimindo-se outra cópia. É assunto demais, e a narrativa às vezes range sob o peso de tanta vontade.

Viver não deveria ser um benefício

Mesmo assim, poucas coisas no filme soam preguiçosas. A fotografia de Darius Khondji, o desenho de produção de Fiona Crombie e a música de Jung Jae-il dão à expedição uma aparência ao mesmo tempo grandiosa e miserável. É como se aquela gente tivesse atravessado o cosmos levando na bagagem todos os defeitos que já tornavam a Terra um lugar difícil. Bong pode se exceder, mas nunca se desinteressa pelo que está filmando.

No fundo, Mickey não luta para descobrir qual das versões é a verdadeira. Essa seria a pergunta fácil. Ele precisa perceber por que passou tanto tempo aceitando que qualquer versão sua fosse descartável. Pattinson encontra aí o coração de um filme cheio de ideias, monstros, política e escatologia, mas curiosamente comovente quando deixa tudo isso de lado e olha para um pobre-diabo que assinou um contrato sem ler as letras miúdas.

Mickey precisou morrer dezessete vezes para descobrir uma obviedade que seu patrão fazia questão de esconder: estar vivo não é benefício trabalhista.


Filme: Mickey 17
Diretor: Bong Joon-ho
Ano: 2025
Gênero: Comédia/Ficção Científica
Avaliação: 4/5 1 1
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