Bilbo Bolseiro volta à Terra-média em 2014 para impedir que a disputa pelo tesouro de Erebor termine numa guerra entre povos antigos. A aventura dirigida por Peter Jackson começa logo após a libertação da Montanha Solitária. Smaug parte para destruir a Cidade do Lago, Thorin se fecha entre as riquezas recuperadas e Bilbo tenta salvar o amigo de uma obsessão perigosa. Homens, elfos e anões cercam Erebor enquanto um exército de orcs marcha para a região. “O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos” privilegia a guerra, mas cresce mesmo nos momentos em que observa o preço da ganância.
“O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos”, lançado em 2014, retoma a história no ponto exato em que o filme anterior parou. Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) e os anões recuperaram a Montanha Solitária, mas despertaram Smaug, dragão que parte para atacar a Cidade do Lago. Do alto de Erebor, o grupo assiste à destruição provocada por uma vitória que chegou acompanhada de uma conta bastante alta.
Na cidade, Bard (Luke Evans) tenta proteger os moradores em meio ao fogo e à correria. Ele conhece o ponto vulnerável do dragão, porém precisa agir enquanto casas, barcos e caminhos de fuga desaparecem. A abertura oferece uma sequência movimentada e encerra uma ameaça construída desde “O Hobbit: A Desolação de Smaug”. Também deixa uma pergunta incômoda para os sobreviventes. Quem pagará pela reconstrução depois de tamanha ruína?
A resposta parece estar dentro de Erebor. Thorin Escudo-de-Carvalho (Richard Armitage) havia prometido parte do tesouro aos moradores da Cidade do Lago, que ajudaram os anões durante a jornada. Agora, porém, o novo rei está cercado por ouro e pouco disposto a cumprir compromissos. A generosidade costuma ficar mais difícil quando a pessoa finalmente precisa abrir o cofre.
Thorin se perde entre riquezas
Richard Armitage oferece a Thorin uma dureza que cresce aos poucos. O anão chegou à montanha disposto a recuperar a casa de seus antepassados, mas a conquista desperta nele uma obsessão pela Pedra Arken, joia ligada à autoridade de sua linhagem. Quanto mais procura o objeto, menos escuta os companheiros que atravessaram perigos ao seu lado.
Bilbo percebe que o amigo está mudando. Martin Freeman sustenta essa preocupação sem transformar o hobbit num herói destemido. Ele continua pequeno diante dos guerreiros, tem medo e sabe que qualquer escolha pode colocá-lo contra Thorin. Sua coragem nasce da necessidade de impedir uma guerra, mesmo que isso custe a confiança conquistada durante toda a viagem.
A relação entre os dois forma a parte mais humana do longa. Thorin olha para Bilbo e enxerga um aliado, mas passa a desconfiar de todos que possam afastá-lo do tesouro. Bilbo, por sua vez, ainda reconhece o companheiro que liderou os anões até Erebor. O problema está em alcançar esse homem antes que a ganância feche todas as portas da montanha.
Ian McKellen retorna como Gandalf e carrega outra frente da história. Depois de ser resgatado de Dol Guldur por Galadriel (Cate Blanchett), Elrond (Hugo Weaving) e Saruman (Christopher Lee), o mago descobre que o Necromante é Sauron. A ameaça liga os acontecimentos desta trilogia ao futuro apresentado em “O Senhor dos Anéis”, embora Peter Jackson mantenha o foco principal na guerra que se aproxima de Erebor.
Homens e elfos cercam a montanha
Bard leva os sobreviventes para as ruínas de Dale, onde procura abrigo, comida e proteção contra o frio. Seu pedido a Thorin é simples. Parte do ouro foi prometida à Cidade do Lago e agora pode sustentar famílias que perderam tudo. O rei anão, entretanto, manda bloquear a entrada de Erebor e trata antigos aliados como possíveis invasores.
Thranduil (Lee Pace) também chega à região com um exército élfico. O rei deseja recuperar joias guardadas entre as riquezas da montanha e oferece ajuda aos moradores de Dale. A união entre homens e elfos nasce de interesses diferentes, mas coloca milhares de soldados diante dos portões dos anões.
Lee Pace interpreta Thranduil com elegância, frieza e uma arrogância quase divertida. O personagem parece entrar em cada ambiente convencido de que até o vento deve pedir licença. Mesmo assim, suas escolhas obedecem a interesses concretos. Ele quer preservar os elfos e recuperar aquilo que considera propriedade de seu povo.
A situação piora com a chegada de Dáin (Billy Connolly), primo de Thorin, acompanhado por um exército de anões. Gandalf tenta alertar todos sobre o avanço dos orcs liderados por Azog (Manu Bennett), mas ouro, promessas rompidas e antigas rivalidades ocupam a atenção dos comandantes. Quando a ameaça externa se aproxima, cada povo já está armado e preparado para lutar.
Uma guerra grande demais para Bilbo
Peter Jackson dedica boa parte do filme à batalha anunciada no título. Orcs, anões, homens e elfos ocupam Erebor, Dale e as colinas próximas, enquanto diferentes ataques acontecem em várias frentes. A escala impressiona, embora a quantidade de criaturas digitais deixe alguns golpes leves demais. Há momentos em que a tela oferece tantos soldados que acompanhar cada grupo exige quase a atenção de um fiscal de trânsito da Terra-média.
A guerra também abre espaço para Tauriel (Evangeline Lilly), Legolas (Orlando Bloom), Kíli (Aidan Turner) e Fíli (Dean O’Gorman). Tauriel tenta ajudar os anões e proteger Kíli, por quem se apaixonou. Legolas segue a elfa e participa da defesa contra os orcs. Esses personagens carregam conflitos pessoais para dentro da batalha, mas recebem menos tempo do que mereciam entre uma investida e outra.
Bilbo permanece no centro emocional porque não possui exército, título ou força para disputar território. Seu recurso é a informação que guarda e sua maior preocupação está dentro de Erebor. Ele precisa agir antes que Thorin leve os próprios companheiros para uma guerra nascida da recusa em dividir o tesouro.
O espetáculo e a amizade
“O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos” encerra a trilogia com grandiosidade, mas também revela os excessos dessa adaptação. Peter Jackson estendeu um livro relativamente curto por três longas produções, acrescentando personagens e batalhas que ligam a aventura ao universo de “O Senhor dos Anéis”. O resultado possui energia, porém perde fôlego quando a guerra se prolonga e deixa Bilbo fora de cena.
Martin Freeman continua sendo a presença mais cativante. Seu Bilbo reage ao perigo com inteligência, susto e uma educação britânica que sobrevive até entre dragões e orcs. Richard Armitage oferece intensidade a Thorin e transforma a cobiça do rei numa ameaça tão importante quanto os exércitos diante da montanha. Ian McKellen mantém Gandalf como a voz experiente que tenta ser ouvida por líderes ocupados demais com suas próprias disputas.
A despedida da Terra-média volta aos personagens e ao vínculo construído entre Bilbo e Thorin. O espetáculo pode preencher o horizonte com milhares de combatentes, mas são as escolhas feitas dentro da Montanha Solitária que sustentam a história. Bilbo entrou nessa aventura para ajudar anões a recuperar um lar. Agora, precisa impedir que o ouro transforme essa conquista em outra perda.

